Karsten Moran/The New York Times
Karsten Moran/The New York Times

'Eu errei ao ter ficado calado todo esse tempo', diz Plácido Domingo, sobre denúncias de assédio

O tenor nega as acusações e fala sobre sua recuperação da covid-19

EFE, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2020 | 09h31

"Errei ao manter tudo em silêncio este tempo; aquele silêncio me custou caro e me machucou muito ", afirmou o tenor Plácido Domingo, em um entrevista no programa A Primeira Pergunta, do canal público da televisão espanhola.

O artista mais uma vez defendeu que "nunca" abusou de ninguém. Esta é a primeira entrevista que o tenor concede à mídia espanhola, um ano após as alegações de suposto abuso sexual de nove mulheres, no final dos anos 80, e que ele negou novamente. “Eu condeno o abuso em qualquer situação, lugar e hora. A proteção dos direitos das mulheres é fundamental. Também não podemos negar que a sensibilidade em relação a esta questão evoluiu com os anos. Mas, se houver respeito na interação entre as pessoas, não pode haver abuso. Para que eles possam dizer o que quiserem mas nunca desrespeitei nenhuma mulher", confessou.

"Se tivesse percebido que incomodei em qualquer maneira, teria me desculpado ali mesmo. Muitas pessoas se sentiram desapontadas comigo, e gostaria de poder fazê-las mudar de ideia, outras me julgaram sem me conhecer", observou.

Fazendo autocrítica e se havia algo que ele acreditava não ter feito bem, o tenor foi direto: "Eu errei ao guardar silêncio, esse silêncio me prejudicou muito, tanto na minha carreira quanto na minha vida".

Questionado também sobre a declaração que foi publicada em fevereiro em que disse literalmente: "Lamento a dor que eu causei e aceito total responsabilidade por minhas ações ", Domingo confessou que "não foi um mea culpa, embora pareça que seja", e que essas palavras foram "tiradas do contexto".

"Essas palavras deveriam ter sido acompanhadas pelas declarações fornecida pelo sindicato dos cantores, mas tal pedido de desculpas foi publicado por um jornal americano doze horas antes, junto com falsas acusações que não apreciaram o material do sindicato. Tentei esclarecer o mal entendido no dia seguinte, mas já era tarde. As manchetes já tinham saído e o estrago já estava feito”, revelou.

Ele também negou ter pago meio milhão de dólares ao sindicato dos artistas de ópera para que não fossem publicados detalhes das investigações. "É totalmente falso. Não tinha nada a esconder e até eu colaborei com eles, cem por cento. Fiquei amargurado com a situação, senti uma grande tristeza, pedi demissão do sindicato em 18 de março após 56 anos. Foi uma decisão muito difícil ”, garantiu.

Naquela época, e vendo como a situação piorava na América e como todos os cinemas estavam fechando, o tenor decidiu fazer uma doação para os seus colegas de profissão, cantores e artistas que sofreram "muito" durante esta crise de saúde, "como todos os setores da música e da cultura." 

"Pensar em um teatro fechado, vazio, escuro e sem música me faz sentir grande tristeza. O mundo da música está sofrendo muito. Muitos dos meus colegas perderam seus empregos, e isso para jovens artistas é muito sério. Eu também penso nas pessoas que trabalham dentro dos teatros, aqueles que os fazem funcionar", lamentou. 

E também para si mesmo, para sua saúde e de sua esposa, Marta Ornelas, já que ambos adoeceram da covid-19 no final de mês de março, embora, como ele mesmo admite: "Graças a Deus estamos completamente recuperados. Estou muito feliz por ter voltado aos palcos. Após vencer a covid-19, recuperei minha forma física e, em tudo, a voz, algo que me preocupava muito, porque isso é um vírus que afeta os pulmões e poderia ter me impedido de cantar de novo, que é a minha vida ”, confessou Plácido Domingo.

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