Mavi Moraes
Mavi Moraes

'Esú' abre as portas de Baco Exu do Blues no cenário nacional

Cantor baiano se destaca com álbum visceral que trata de temas como religião e amor

Luiz Fernando Teixeira, especial para o Estado

01 Novembro 2017 | 09h56

O disco Esú, do cantor baiano Baco Exu do Blues, traz uma mistura de ritmos, temas e ideias. Lançado em setembro, o álbum de 10 músicas trata de religião e amor de forma angustiada  e controversa, como um reflexo do sentimento conflitante que o artista enfrentou no último ano. Alçado a um protagonismo que não esperava após o lançamento da faixa “Sulicídio”, em 2016, o artista precisou superar seus medos.

“O processo foi bem complicado, eu estava saindo de uma depressão, então o bagulho foi muito visceral para mim, tudo o que tem lá são minhas verdades”, disse Diogo Moncorvo, o Baco, de 21 anos. Segundo o cantor, Esú conta a história de um homem que admite estar dentro de um abismo e busca sair de lá, seja questionando os deuses, seja através dos relacionamentos amorosos.

 

Novos Baianos, Chico Science & Nação Zumbi, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Baden Powell, Arthur Rimbaud… todos esses artistas são referenciados nas letras ou nos samples de Esú. Baco, que diz ter bastante influência da MPB e do rap, pensa em trabalhar com alguns dos seus ídolos na sequência do disco.

“O que é que classifica um deus? Ele ser imortal? Ele poder modificar a realidade que controla? Ele tirar vidas e criar vidas? Se você parar pra pensar, o ser humano faz tudo isso”. Baco acredita que o ser humano pode ser imortal através das memórias que passa pras pessoas, pode criar e tirar vida e também alterar a própria realidade. O refrão da faixa “Esú” retrata as dúvidas do artista: “Sinto que os deuses têm medo de mim. Metade homem, metade deus e os dois sentem medo de mim”.

A faixa que mais fez sucesso do disco em serviços de música por streaming trata do amor, desconstruído para fugir de romantismos. “Te Amo Disgraça” fala de forma realista sobre relacionamentos e foge, na avaliação de Baco, do tradicional sofrimento ou endeusamento com que as composições tratam o sentimento. “Por ser tão romantizado, quando achamos um relacionamento de verdade, nem percebemos. A gente acha que pode ser melhor, mas o melhor é o companheirismo".

A identidade visual que o artista imprimiu em Esú também chama a atenção. Todos os vídeos das músicas são ilustrados por uma foto de Mário Cravo Neto (1947-2009) enquanto que a capa do CD é de David Campbell. O nome de Jesus é substituído por uma das grafias do orixá Exú, que de acordo com Baco são divindades bem semelhantes. “Sempre estudei muito a religião em geral, apesar de não ser adepto de nenhuma religião.  A história de Jesus e Exú são muito parecidas. O que começou a me indignar é que um é demonizado e o outro é santificado. O que é fazer um lindo e o outro ser feio? A diferença nesse caso é a pele, porque são dois deuses mensageiros que passaram pela terra, assim como Baco era um deus mensageiro também. Por que esse preconceito?”

Fama Repentina. Se eu tivesse morrido pós ‘Sulicidio’ hoje eu seria um mito”. A primeira estrofe de “Oração à Vitória” faz referência à música que primeiro deu visibilidade a Baco Exu do Blues, “Sulicídio”. Lançada em 2016 em parceria com o pernambucano Diomedes Chinaski, a canção é um desabafo dos dois artistas nordestinos contra a falta de valorização dos rappers da região.

 

“Foi um grito”, confessa o cantor. De acordo com ele os artistas do Nordeste recebem menos do que os sul e tinham que tocar até mesmo de graça nos eventos que não eram do underground. “Por que o nordestino é tão desmerecido? Por que a gente é tão piada em outros estados? Foi um sentimento de revolta. Quero que as pessoas valorizem nosso trabalho aqui”.

A faixa causou um rebuliço dentro do meio. Artistas do Sudeste, como Costa Gold, fizeram faixas de resposta. O baiano recebeu inúmeras mensagens xenófobas. “Não era um ataque ao sul/sudeste, era uma reclamação, mas criou uma revolta do lado de lá”. De uma hora para outra, ele se tornou conhecido e não soube lidar com a pressão. “Soltei Sulicidio e dois dias depois todo mundo me conhecia. Saí de um anonimato total pra um bagulho que virou um absurdo, foi uma proporção muito grande para pouco tempo. Eu não tava preparado pra isso.”

Baco já veio a São Paulo se apresentar após a polêmica faixa. “Já toquei aí algumas vezes. É uma cidade que me abraça muito bem, os shows que eu fiz tiveram uma energia incrível, até me surpreendi”. O cantor volta pela à cidade após Esú nesta quarta-feira, 1, para uma participação especial no festival Ovelhas Negras. Já o show completo do disco vem para a capital paulista no final de novembro.

Apesar da fama, o artista não pensa em deixar Salvador para se firmar no mercado do Sudeste, como Don L fez ao deixar Fortaleza. “Não posso sair da minha cidade por enquanto. Tenho que trazer coisas pra cá antes de sair daqui”. Baco Exu do Blues quer fazer jus aos dois deuses que homenageia com seu nome artístico e abrir os caminhos para outros artistas da região.

“As pessoas ignoram a própria cultura e acabam abraçando a cultura do outro, perdendo a originalidade. Salvador é muito cultural, respira cultura a todo momento. Não quero isso se perca. Estou na resistência”.

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