Estrelas com o pé no chão

Foi um golpe fatal do Capitão Gancho. Sem piedade de Marina Lima, Titãs ou Gal Costa, sua espada que fere gigantes perfurou o fígado de uma empresa que em quatro anos de vida foi ao paraíso e desceu ao inferno. A queda da Abril Music, gravadora nacional que há dois anos vendia mais do que qualquer companhia estrangeira, é recebida como prova cabal do poder de fogo dos piratas da música. Nas palavras do presidente da empresa, Marcos Maynard, os 50% do mercado que os discos ilegais conquistaram foram um fator decisivo para o fechamento de uma companhia que colecionou 49 discos de ouro, 12 de platina dupla, 7 de platina tripla e 3 de diamante. Suas descobertas Falamansa e a dupla Bruno & Marrone venderam mais de 2 milhões de cópias cada. "Esse mercado é dominado pelas multinacionais e extremamente competitivo", disse Maynard em uma nota oficial enviada à imprensa. A luz vermelha pisca para todo mundo. Quando uma companhia de discos joga a toalha porque não consegue competir com barracas de camelô, quem paga a conta é o artista que fica na rua, o fã que fica sem o novo disco do artista, o compositor que não recebe direitos autorais e toda a infra-estrutura do show biz nacional, que perde o fôlego em meio ao colapso. "Quem não repensar sua forma de trabalhar, enxugando gastos, estará falido", diz Manuel Poladian, empresário e produtor de Rita Lee, RPM e Vanessa Jackson, entre outros. O superstar que andava de avião e tinha uma limusine o esperando no aeroporto também tem muito a refletir. Poladian lembra que antes da crise iniciada há quase dez anos o artista e toda sua comitiva de em média 30 pessoas viajavam de avião. A nova realidade o fez impor uma norma mais econômica: para viagens de até 800 km, a equipe vai de ônibus. A medida o faz economizar, no trecho Rio - São Paulo, cerca de R$ 7 mil em passagens. Se locomover com palco, aparelhagem de som e equipe de segurança virou exclusividade de músico gringo. Os produtores passaram a terceirizar os serviços e contar com a infra-estrutura das cidades em que se apresentam. O preço do ingresso é outro fator em xeque. Os valores das grandes casas de São Paulo e Rio de Janeiro não podem mais valer para os ginásios do interior de Alagoas ou as boates de Sergipe. O RPM se apresentou em São Paulo a ingressos entre R$ 10 e R$ 15. Em um recente show feito em Arapiraca, Alagoas, as pessoas pagavam R$ 3 para entrar. O que sobra de orgulho é enterrado quando o popstar recebe um comunicado via jornalistas de que está na rua da amargura. "Sério, não sei se posso falar alguma coisa. É muito boato e não sabemos o que é verdade. Eu tenho um contrato com os caras", diz Supla, desconcertado, ao ser notificado pelo repórter de que sua gravadora, a Abril Music, fechou as portas. Supla foi contratado depois de vender mais de 300 mil discos em bancas. O fã engajado que gosta de comprar tudo mediante nota fiscal terá à disposição lançamentos no formato "grandes sucessos" - coletâneas que têm como lei baratear custos e desprezar acabamento. As multinacionais, seguindo estratégia iniciada há dois anos, lançarão mais álbuns a custos baixos para baterem com os piratas. Levas de discos empoeirados em arquivo serão despejadas nas lojas e projetos em parceria com a televisão do tipo Fama e Popstars, que revelaram Rouge e Vanessa Jackson, serão prioridade. Quem não concorda com a política de resultados das majors procura casa nova. Maria Bethânia foi um dos pesos pesados que deixou uma multinacional e migrou, por decisão própria, para um selo menor chamado Biscoito Fino. Os que se negam a pagar R$ 28 por um álbum novo e não ligam se seu toca-discos sofrer uma congestão ao engolir um produto genérico agradecem aos piratas. "Além de o disco ser bem mais barato no camelô, os caras (vendedores ilegais) já estão dando garantia. Eles colocam na contracapa um carimbo com o endereço. Se der problema, é trocar", diz o estagiário de direito Wladimir Alves, 31 anos. Capitães-gancho são agressivos e seduzem com projetos fonográficos audaciosos. Um dos discos mais vendidos nas bancas é um álbum com as melhores músicas de Marisa Monte, que nunca existiu no câmbio oficial. Dois anos antes, pirateadores gravaram um programa de rádio de Bruno & Marrone. O disco, calcula-se, vendeu 500 mil cópias e só então a gravadora decidiu lançá-lo. O Falamansa se tornou conhecido quando um disco começou a ser reproduzido ilegalmente. Números provam que fazer as compras na barraquinha se tornou uma cultura. De 12º lugar no ranking dos países que mais sofrem com a clonagem na música, o Brasil passou para 3º, atrás de China e Rússia. A Associação Brasileira dos Produtores de Discos informa que a pirataria fez movimentar em 2001 US$ 215 milhões. Em impostos, o governo deixa de arrecadar por ano perto de R$ 300 milhões. Uma sangria que ninguém consegue conter.

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