Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Estrela internacional, cantor italiano faz estreia no Brasil na ópera 'Falstaff'

Ambrogio Maestri já interpretou o papel mais de duzentas vezes e sobe ao palco do Teatro Municipal a partir do dia 12

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

03 de abril de 2014 | 18h47

A entrevista já havia acabado quando Ambrogio Maestri, enquanto posa para fotos no Salão Nobre do Teatro Municipal, revelou o que tem lhe preocupado. “Na Itália, andam dizendo que o frio no Brasil em junho pode atrapalhar a Azzurra. Faz frio assim mesmo, dois, três graus?” Não, dificilmente. “Menos mal, então. E quem vocês acham que ganha a Copa?” Brasil, jogando em casa. “Ah, sim”, ele diz, mas a resposta, ainda que gentil, não carrega nem um pouco de convicção.

Maestri está no Brasil pela primeira vez. Não veio por conta do futebol. No dia 12, sobe ao palco do Municipal de São Paulo para interpretar o papel-título de Falstaff. Trata-se da última ópera de Verdi - para muitos sua obra-prima. Para Maestri, também. E ele fala com conhecimento de causa. Ao longo de pouco mais de uma década de carreira, o barítono, hoje com 44 anos, já interpretou o velho bufão mais de 200 vezes. Nos últimos tempos, três novas gravações da ópera foram lançadas em DVD - e ele está em todas. Em dezembro, foi a estrela de uma nova produção da obra no Metropolitan, de Nova York - e é na mesma condição de estrela que desembarca em São Paulo.

“Falstaff já é um antigo companheiro”, ele diz - e completa, bem-humorado: “Tenho sorte por ter a voz e, claro, caso você não tenha percebido, o físico ideal para interpretar um papel tão rico como esse, sobre o qual descubro sempre algo novo”. Sir John Falstaff nasce na ópera de Verdi da junção de pedaços de Henrique V e As Alegres Comadres de Windsor, de Shakespeare. O responsável pela confecção do libreto, o texto da ópera, foi o poeta e compositor Arrigo Boito, que se tornou parceiro de Verdi no final da vida, trabalhando com ele ainda na revisão de Simon Boccanegra e na escrita de Otello, também baseada no dramaturgo inglês.

A ópera narra a história deste velho bufão e decadente, atolado em dívidas, que vê na tentativa de conquistar duas senhoras da sociedade a saída para reviver um passado (que ele imagina de glórias) e resolver a crise financeira construída em noitadas nas principais tavernas de Windsor, na Inglaterra.

Em suas idas e vindas mundo afora no papel, Maestri já foi, em Zurique, um Falstaff de cores minimalistas e mediterrâneas; em Busseto, terra natal de Verdi no interior da Itália, protagonizou uma montagem tradicional da ópera, comandada pelo diretor Franco Zeffirelli. Já no ano passado, no Metropolitan, a Windsor do século 15 transformou-se num universo campestre dos anos 1950. 

Em São Paulo, a montagem, assinada por Davide Livermoore, ainda está envolta em mistério. Pelo pouco que já foi divulgado dos cenários, há no palco uma reprodução do próprio Municipal - uma discussão sobre os limites do teatro, relacionada à mensagem final da ópera, de que “tutto nel mondo é burla”, ou seja, “tudo no mundo é uma grande farsa”? Nas redes sociais, o maestro John Neschling, que rege o espetáculo, explicou o porquê do convite ao diretor inglês. “A concepção inovadora, tenho certeza, dará azo a discussões acaloradas”, escreveu. “Pelo menos foi essa a minha intenção ao convidar Davide Livermoore para dirigir e criar os cenários para essa produção. Será uma releitura contemporânea da obra-prima de Verdi, com citações variadas de personagens ingleses tão típicos quanto o Sir obeso que estamos acostumados a assistir no papel típico.”

De todas as produções de que participou, Maestri relembra com especial carinho da primeira, aos 29 anos. Na ocasião, trabalhou com o maestro Riccardo Muti. Era o ano do centenário da morte de Verdi. “Trabalhar com alguém como o maestro Muti ensina muito sobre um papel”, ele lembra. “E também define muitas coisas na sua carreira. É como no futebol. Todo mundo joga, mas nem todo mundo é bom o suficiente para ser um jogador. Eu cantava. Mas foi naquela montagem que descobri que poderia ser um cantor.”

Carreira

Quem vê o baixo-barítono italiano Ambrogio Maestri sobre o palco como o grande Falstaff de sua geração, não imagina que a ópera quase o perdeu para outros interesses. Duas vezes. 

Nascido em Pávia, cantava desde a infância, mas na adolescência entrou para o time de basquete local. E, para não ficar para trás nos estudos, acabou abandonando as aulas de canto. Ao mesmo tempo, desenvolveu o gosto pela culinária, cultivado no restaurante dos pais. 

Cozinhar é algo que ele faz até hoje - no seu site, junto aos vídeos em que canta nas principais casas de ópera do mundo, você encontra um outro, em que ele ensina passo a passo a receita de seu Risotto Salsiccia e Funghi. Mas o basquete ele acabou deixando de lado quando frequentadores do restaurante dos pais o incentivaram a apostar na voz. Em tempo: o futebol, aliás, ele também já não joga - “hoje, só se for futebol americano”.

Ele, claro, não se arrepende. A carreira tem lhe tratado bem. Além de Falstaff, ele tem conquistado críticas arrebatadoras pela interpretação de papéis como Dulcamara, em O Elixir do Amor, de Donizetti; ou Scarpia, na Tosca, de Puccini. Mesmo dentro do universo de Verdi, há outros marcos importantes, em óperas como Aida, A Força do Destino, Traviata, Nabucco, Rigoletto, Simon Boccanegra

Ele não se define, no entanto, como um “barítono verdiano”, maneira como nos referimos tanto ao tipo de cantor utilizado pelo compositor em suas óperas como ao intérprete desses papéis. “O fato é que é muito difícil reduzir os barítonos de Verdi a um esquema só. A escrita do início da carreira do músico pede um tipo específico de voz, de tessitura mais aguda, o que muda ao longo de sua carreira.”

O compositor é decisivo na maneira como são compreendidas hoje as vozes mais graves, acredita Maestri. “De repente, ele escreve um dueto para dois barítonos, como no Falstaff, ou para dois baixos, como no Don Carlo. E um elemento que me fascina particularmente é como trata o tema da paternidade, de forma muito rica e sensível.”

Maestri diz que é possível dividir a trajetória do compositor em dois momentos distintos - ainda que haja entre eles alguns pontos de contato. “O primeiro Verdi ensina a cantar. Já o segundo, bom este ensina a ser um artista, um cantor que atua com a voz, mais completo. É o caso do Otello, do Falstaff.”

A ópera é a última de Verdi e sua segunda comédia - a primeira, escrita 50 anos antes, foi Un Giorno di Regno, fracasso retumbante de crítica e público. Falstaff, por sua vez, foi um sucesso. A escrita musical é de extrema sofisticação, quebra a estrutura tradicional de números em favor de um discurso narrativo mais orgânico. A voz, como sempre nas obras do compositor, tem protagonismo - mas a escrita orquestral ganha em ousadia e riqueza.

Shakespeare foi uma das obsessões de Verdi ao longo de toda a sua vida. Mas Maestri vê em Falstaff tanto do dramaturgo quanto do próprio compositor e de seu libretista. “A parceria de Verdi e Boito é fundamental para o sucesso da ópera, o modo como trabalham texto e música é perfeito”, diz o cantor, para quem Falstaff não é uma comédia pura e simples, nos moldes da ópera-bufa italiana. “O personagem tem um quê de mefistofélico, carrega também uma dose de tristeza, é algo muito especial. Se aprendi algo nessas mais de 200 apresentações é justamente essa riqueza, essas camadas do personagem.”

E são elas que fazem com que Falstaff seja um personagem que Maestri quer levar ao seu lado para toda a vida. “A cada apresentação, é algo novo que se aprende com ele, algum detalhe que se revela, e isso não é banal. Fazer bem o papel significa estar atento a essas variações e se dedicar a entendê-las.”

Mas Maestri sabe que tem uma longa carreira ainda pela frente. Além de Verdi, o que coloca no seu horizonte? “Neste momento, começo a pensar em incorporar papéis de Puccini e outros do verismo. Penso em Gianni Schicchi, Il Tabarro. Atualmente, estou estudando Andrea Chénier, que tem um dos maiores papéis para barítono.”

Seja como for, a opção pelo canto lhe parece acertada. E não há volta. “Santo Agostinho dizia que quem canta reza duas vezes. Em dez anos, acho que posso dizer que já serei um verdadeiro santo”, brinca. E emenda: “Cantar mais e mais, aprender com as óperas, enriquecer minha percepção desses papéis todos. É isso que quero. Até porque algo me diz que não poderei realizar o sonho de ser bailarino, você não acha?”.

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