Felix Broede/DG
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Estrela do piano, Maria João Pires deixa os palcos para se dedicar a projeto pedagógico

A portuguesa fala dos motivos que a levaram a abrir mão do modelo de concertos em teatros e de sua concepção de música

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

22 de janeiro de 2019 | 03h00

O vídeo já tem mais de três milhões de visualizações. No palco, a orquestra começa a tocar o Concerto nº 20 de Mozart. Mas, assim que a música soa, a pianista Maria João Pires parece entrar em pânico. Olha para os músicos, leva as mãos ao rosto. A música não para, e os microfones captam o diálogo entre ela e o maestro: ela achava que tocaria outra peça; não, ele diz, essa era na temporada passada; e agora?; relaxa, diz ele com um sorriso, enquanto rege, você conhece Mozart bem, bem demais.

Conhece mesmo – e Mozart, assim como Schubert, tem sido um dos pilares da carreira de Maria João, uma trajetória de mais de seis décadas de prêmios, discos recordistas de venda, e concertos com as principais orquestras e maestros do mundo. Mas, para ela, já é o suficiente. No ano passado, a artista resolveu que era hora de se afastar dos palcos. E se dedicar inteiramente a algo que, nos últimos anos, tem ocupado sua mente: a criação de retiros musicais para o público e de workshops para jovens artistas a partir de uma proposta pedagógica diferente, que aproxima mestres e alunos em hierarquias. Tudo isso em meio à natureza.

O cenário é o Centro das Artes de Belgais, em Portugal, idealizado por ela há quase duas décadas, e onde ela já tentara criar um projeto no início dos anos 2000, esbarrando no entanto em problemas financeiros. “Belgais é um lugar que as pessoas tem liberdade para viver a arte e a cultura de uma forma não comercial. Ninguém precisa ter nome, fama, para estar lá. Ter um nome, ser um sucesso comercial, muitas vezes significa perder a pureza, a capacidade de transmitir algo com a música. Enfim, o mundo talvez seja assim. Mas em Belgais queremos uma alternativa, queremos unir pessoas que pensam diferente em um ambiente de respeito à natureza e à arte. É utópico, idealista, eu sei. Mas é verdadeiro”, diz a pianista, avessa a entrevistas, em conversa exclusiva com o Estado. 

Nos retiros musicais, o público é convidado a se hospedar no centro, participa de concertos, ajuda no cultivo agrícola, tem conversas sobre música, sobre arte (no Brasil, interessados em conhecer o projeto podem obter mais informações pelo telefone 11 98202-9219). Nos workshops, destinados a jovens artistas, acontece o que Maria João define como transmissão de experiências entre diferentes gerações de músicos. “Eu adoro construir esses cursos, porque sempre me frustrou muito o formato de masterclasses, já quando eu era estudante. É um tempo que não se aproveita, as pessoas ficam falando de coisas que não são essenciais e há também o lado prepotente do professor, que muitas vezes humilha o aluno, o que é horrível. O papel do estudante, do jovem criativo que quer construir algo por meio da arte em sua vida, não pode ser visto como um papel menor”, ela explica.

O passo seguinte, então, foi trabalhar com seus próprios alunos na Bélgica em um novo formato. “Criamos um processo em que não existe nível de qualidade, não existe um que sabe e outro que não sabe, pois quando é assim o aluno tem medo de errar, fica rígido e, consequentemente, é incapaz de criar algo. É preciso haver uma circulação livre de energia entre aluno e professor. E o resultado é espetacular, porque você consegue ver algo crescer nesses jovens, algo que não estava ali no início.”

Sem “senhora”. Não parece ser apenas discurso. Maria João Pires viveu no Brasil no início dos anos 2000. Morando em Salvador, apresentou-se em todo o país e manteve contato com jovens artistas brasileiros, que se manteve mesmo anos mais tarde, quando ela voltou para a Europa. Um deles é o pianista Leonardo Hilsdorf, nome importante da nova geração de pianistas do país, com uma carreira em rápida ascensão.

“A primeira barreira que tive que vencer foi conseguir não chamá-la de senhora durante as aulas”, ele lembra. “Apesar da minha relutância, ela insistia para que nós a tratássemos como você, e entendi que a questão era grave quando sua assistente me disse que se eu continuasse tratando a Maria por senhora, o nosso trabalho não iria funcionar. Parece bobagem, mas diz muito sobre o que ela pensa sobre o ato de ensinar. Com ela, não há uma situação de mestre/pupilo, de subordinação. Ela se recusa a ocupar uma posição na qual não apenas ela sabe mais, mas sabe ‘a’ verdade, posição em que muitos professores de piano parecem se deleitar”, explica. 

Em outubro, Maria João conta que traz esse modelo de workshop para o Brasil, mais precisamente para o Centro Cultural Baía dos Vermelhos, em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo. “Farei algumas apresentações e o curso. Estou muito feliz porque faz tempo que não vou ao Brasil e tenho muita saudade”. 

Enquanto isso, Belgais segue como sua morada. “Lá atrás, nós construímos a casa de Belgais, cultivamos a terra, e tudo isso envolveu um esforço criativo muito grande e especial. Recentemente, visitando o espaço com alguns alunos, tocando juntos, percebemos que aquele conceito se mantinha vivo. E que valia a pena construir uma nova história ali. Juntos. É disso afinal que se trata.”

Maria João Pires: ‘Não me identifico mais com a ideia do concerto’

Maria João Pires resolveu se afastar dos palcos, como diz, “sem grandes alardes”. “Fui apenas avisando algumas pessoas após apresentações. Não fiz nenhuma despedida, nada organizado, não teria por que”, ela explica.

A pianista começou na música cedo. Aos 7 anos, em Lisboa, já apresentava concertos de Mozart – e o compositor jamais a deixaria. Seus registros dos concertos, assim como das sonatas para piano solo, assim como de sua música de câmara, são tidos por muitos críticos como referência.

Em 1970, no entanto, foi com Beethoven, mais precisamente no concurso em homenagem aos 200 anos do autor, que despontou de vez para a fama. Gravou, desde então, dezenas de discos. Entre os mais recentes, estão o Concerto de Schumann com o maestro John Eliot Gardiner e a Sinfônica de Londres e os concertos nº 3 e nº 4 de Beethoven com Daniel Harding e a Orquestra Sinfônica da Rádio da Suécia. E um CD gravado ao vivo com o violoncelista brasileiro Antonio Meneses na Inglaterra, com obras de Schubert e Brahms.

São leituras capazes, sempre, de revelar facetas novas para obras gravadas à exaustão. E a imaginação da intérprete parece não ter limites, o que sempre agradou maestros como o italiano Claudio Abbado, ex-diretor da Orquestra Filarmônica de Berlim, que a tinha entre suas colaboradoras preferidas. Mas nos últimos anos, a atividade pedagógica, em países como a Bélgica, onde realizou uma residência na Capela Real Rainha Elisabeth, começou a se sobrepor à de recitalista e concertista, com cada vez menos concertos programados anualmente. 

“A decisão de parar vem do fato de que sempre chego à conclusão de que não consigo mais me identificar com a ideia do concerto. Eu quero, ao tocar, sentir que estou criando algo junto com a plateia. Passei décadas em aviões e em concertos, tempo suficiente para me dar conta de que nem sempre esse compartilhamento e possível”, diz.

Para ela, o público deve ser como “um amigo”, dividindo um momento mágico, “que pode dar a todos uma vida melhor”. “Mas o modelo do concerto, com teatros enormes, frios, para os quais o público vai apenas para assistir um ‘grande nome’ não me atrai. A pessoas estão enganadas, pagam para ver um artista. Não deveria ser assim que funciona. Eu não toco para as pessoas, eu toco com as pessoas. Tocar e ouvir são atividades criativas, é a mesma coisa. Arte é algo que se partilha”.

 

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