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Estrela de Belém aos 73 anos, Dona Onete lança primeiro CD

Vários ritmos regionais se misturam no disco; música 'Jamburana' já é hit local

Lauro Lisboa Garcia,

25 Agosto 2012 | 07h00

BELÉM - Há quem compare o fenômeno nem tão recente de redescoberta da velha guarda da música paraense, como os mestres da guitarrada, ao evento cubano Buena Vista Social Club. Nesse cenário, Dona Onete seria correspondente a Omara Portuondo, mas ela prefere ser comparada à grande dama do samba carioca Dona Ivone Lara - porque além de referência cultural do Pará, tendo exercido outra profissão ao longo de décadas, é mais compositora do que cantora. Com produção do compositor Marco André, lança agora o ótimo álbum de estreia, Feitiço Caboclo, pelo selo Na Music, com patrocínio da Conexão Vivo.

Aos 73 anos, cheia de malícia e com apenas pouco mais de dez anos de carreira, essa estrela de Belém faz tremer o chão e o público. A expressão, usada tanto com conotação sensual, como pelo efeito anestésico provocado pela hortaliça jambu, típica da culinária local, que dá uma sensação de formigamento e "treme-treme", traduz bem o sentido da performance ao vivo da sacudida canção Jamburana.

Dona Onete é também especialista na lida com a erva, da qual faz licor e doce caramelizado. No camarim, ela reserva porções para consumo próprio e para os visitantes durante os shows. "Prove pra você ver como é gostoso", oferece ao repórter. "Pode comer mais. Sentiu o treme?", brinca. Sim, deu para sentir. "Na França, isso vai fazer um grande efeito, porque eles gostam dessas coisas agridoces."

Uma das canções do CD todo autoral, Jamburana já é hit local e tem potencial para alcançar outros cantos do País. No início do mês, Dona Onete causou sensação ao cantar essa música em cinco apresentações do espetáculo Terruá Pará, que lotou o Theatro da Paz, em Belém, foi lançado em CD e DVD duplos e desembarca em São Paulo em outubro.

A veterana compositora é um dos destaques desse rico mapeamento da música paraense e reúne como convidados no CD boa parte do elenco do show, como Mestre Vieira, Pio Lobato, Manoel Cordeiro, Trio Manari, Gaby Amarantos, Lia Sophia, Luê Soares e Keila Gentil (da Gang do Eletro). Algumas de suas canções também figuram no repertório dos jovens expoentes.

Marco André, em discos próprios, já fez a conexão dos ritmos da Amazônia com a alta tecnologia. Porém, embora Feitiço Caboclo tenha sutis intervenções eletrônicas que poderiam associar Dona Onete à nova geração do tecnobrega, o que ela faz é um saboroso banquete de gêneros regionais e afro-caribenhos, como carimbó, guitarrada, lambada, merengue, boi, brega e até samba com inserção de rap.

Nas bocas. Com certa dificuldade de se locomover por conta de problemas nos quadris, ela diz que só vai até os próprios limites. "O público sempre quer me ver dançando a Jamburana, mas não posso me esforçar muito, então danço um pouquinho pra agradar." Tremelicando os ombros e os quadris, Dona Onete faz o público sacudir no carimbó chamegado. "Essa música não posso deixar de cantar em nenhuma apresentação, porque é sempre a mais pedida. Quando cheguei em casa, minha neta me falou que viu no show pela televisão até as idosas tremendo comigo na Jamburana", conta, rindo.

O problema de saúde a impede de aceitar os crescentes convites para fazer shows porque é complicado viajar, mas virá a São Paulo. E só em 2012 já cantou em eventos importantes fora do Pará, como o Rec-Beat, no Recife, na festa de 25 anos da Orquestra Imperial no Circo Voador, Rio, e no evento Invasão Paraense, em Brasília. Recentemente, ela também apareceu cantando carimbó no filme Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant.

"Nossa música tem ido bastante pra fora, mas faltava a aceitação do próprio povo paraense. Agora, com todos reunidos, dá tudo certo, um ajuda o outro, tanto os jovens como os mais velhos." Muitos desses jovens, que nem têm ligação direta com música, mas estudam jornalismo e a cultura do Pará, têm procurado a ex-professora para entrevistar. "Conheço muito da cultura daqui, então as pessoas me procuram. Não sei tocar nenhum instrumento, mas conheço todos os ritmos que estão no meu disco."

Reverenciada por músicos como Pio Lobato e Felipe Cordeiro, as composições de Dona Onete reverberam por várias bocas, como a de Gaby Amarantos, que lançou CD com participação da autora, Aíla Magalhães, Lia Sophia, entre outros. "Estou vivendo um grande momento e muito feliz com isso. Até pouco tempo atrás achavam que o carimbó era uma bobagem e agora foi pro mundo, até pra Malásia. Quem dera todos os Estados abraçassem sua cultura como Pernambuco fez e o Pará está fazendo agora."

DONA ONETE

FEITIÇO CABOCLO

Na Music. Preço médio: R$ 20

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