Estilo livre dos Mutantes em Londres

Os Mutantes estão de volta. E como a própria definição do nome diz, que venham transformações. Da formação original, estão Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Dinho Leme. Sem Rita Lee, cabe a Zélia Duncan o papel de vocalista neste tour pelo exterior que começa nesta segunda-feira em Londres com o evento Tropicália - A Revolution in Brazilian Culture. Depois, os novos Mutantes seguem para os Estados Unidos, com apresentações entre Nova York e Los Angeles. Tão importantes para o Brasil quanto os Beatles para a Inglaterra, os Mutantes mudaram o panorama da música nacional e imprimiram um estilo forte, escandalosamente fantasioso e espontaneamente provocativo. Os Mutantes foram originais em tudo, da música à roupa. Pura intuição e instinto, longe da fabricação de celebridades e das estratégias de marketing de hoje. "Na época, jamais imaginaríamos que seria tão marcante", diz Sérgio Dias, 55 anos. "Era uma grande alegria! A gente realmente gostava de se vestir. E a Rita (Lee) era fantástica, criativa, com um senso estético maravilhoso, além de um conhecimento forte sobre o que ficava bem nela." Um dia em 1966, lembra ele, quando se apresentaram com Gilberto Gil pela primeira vez cantando Domingo no Parque, Rita desenhou com lápis de boca um coraçãozinho no rosto. Pronto. O coração virou marca registrada dela, que já era uma verdadeira boneca de tão linda. E como Zélia Duncan se coloca agora no lugar de Rita Lee? "Aos 41 anos, parece que fugi de casa para cantar rock-n´-roll. Mas eu volto... ou não!", brinca. "Sempre quis experimentar outras possibilidades, mas não deixo de ser Zélia. Esse é um momento para ser lembrado por todo mundo, especialmente por mim." A criatividade e a ousadia dos Mutantes era clara no som e no figurino. Para Carlos Calado, autor do livro A Divina Comédia dos Mutantes (ed. 34), que está sendo relançado, havia nos Mutantes um desejo de chocar, de provocar. Sérgio nega. "Não acredito que um garoto hoje, por exemplo, seja moicano para chocar", diz. Calado lembra que eles chegavam a se fantasiar de fato para o palco, como no Festival Internacional da Canção, da TV Globo, em 68, onde cantaram Caminhante Noturno: Rita vestida de noiva, Arnaldo de Hamlet e Sérgio de toureiro. Segundo Sérgio, foi mais uma coincidência: "O Boni (de Oliveira, da Globo) abriu o guarda-roupa da tevê e deixou a gente escolher o que quisesse." Mas nem sempre a relação deles com a televisão era tão "boazinha". O próprio Sérgio conta que queriam dar um susto no telespectador quando entrassem no ar para cantar 2001, em 1969. Mais do que marotamente, criaram um figurino com roupas de espelhinhos, que refletiria a luz com tal intensidade que o telespectador, em casa, só veria um branco na tela. "Pura ingenuidade nossa. O fotômetro logo fez a compensação necessária para a imagem ficar nítida." As roupas muito loucas, fantasias sem censura, têm uma explicação: muitas drogas, certo? "De jeito nenhum!", diz Sérgio. "Eu tinha 16 anos, a Rita e o Arnaldo, 18. Naquela época não tinha ácido nem fumo aqui não. Se tinha, não chegava perto da gente. Éramos absolutamente caretas pelo menos nos cinco primeiros discos! E, se você quer saber, éramos até melhores naquela época." Quanto ao figurino da nova fase, Sérgio diz que se fosse desenhar suas roupas, como sempre fez, pensaria em algo menos psicodélico ou alternativo e se inspiraria em filmes como Duna, Matrix e nos Três Mosqueteiros. Às vésperas de embarcar para Londres, eles ainda estavam experimentando roupas e idéias. Até que chegaram à estilista Glória Coelho. Ali, as viagens que Glória gosta de fazer com cinema casaram com as viagens de Sérgio. O figurino de hoje em Londres vai ter um pouco do vampiro Lestate (Entrevista com o Vampiro), um pouco da floresta mística de A Lenda, de Ridley Scott, e muito de Harry Potter, como você pode ver nos croquis que o Estado publica com exclusividade. Um estilo que pode ser chamado de "rock romântico medieval". "Ela é maravilhosa", diz Sérgio. Glória retribui: "Sempre adorei os Mutantes, parei tudo durante a semana para pensar neste figurino." A estilista buscou peças em seu acervo pessoal e misturou coleções diferentes para compor os looks. Zélia levou na mala várias opções. E Sérgio acrescentou na mala uma camisa de poá (poás são sua marca registrada desde o disco Os Mutantes, de 1968) e uma cartola antiga, que ele usa desde então: "Para dar sorte!"Lilian Pacce Colaborou Silvana Gurgel

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