Espontaneidade e voz eram grandes trunfos de Jair Rodrigues

Cantor foi um dos maiores do Brasil em todos os tempos

Jotabê Medeiros - O Estado de S.Paulo,

08 de maio de 2014 | 11h55

Como cantor, é certamente um dos maiores do País em qualquer época. Dono de agudos admiráveis, afinação sobrenatural, um timbre mais alto e seguro do que seus contemporâneos, ele habitava um universo em que só cabiam quatro ou cinco estrelas daquele porte.

Mas havia um contraponto que era ao mesmo tempo um trunfo e um handicap: Jair Rodrigues era por demais espontâneo, muito chegado na improvisação, na fuga do roteiro estabelecido. Tinha um espírito livre. Tanto que Geraldo Vandré, quando o viu ensaiando com o Trio Mariá (Teo e Eraldo no violão e Airton na queixaria de burro) para cantar a sua Disparada no antigo Festival da Record, meio cabreiro, o advertiu: “Jair, você brinca muito no palco. Mas, se você for defender a minha música, por favor, ela é séria!”.

Nada poderia ser mais sério do que o legado de melancolia e liberdade cigana que Jair exalava no palco. Isso fez dele uma pedra bruta que talvez nunca tenha se prestado de verdade à lapidação. Vinha da tradição da moda de viola do interior do País, levado ao rádio pela primeira vez pelas mãos da dupla Venâncio e Corumbá. Era ele mesmo a metade de uma dupla, com o irmão Jairo. Também foi cantor mirim no coral da igreja de Igarapava, aos 7 anos.

Ao mesmo tempo, queria cantar como Francisco Alves, vivia nesse paradoxo improvável. E foi ele quem fez a inseminação do samba com essa realidade mais rural, mais da celebração dos cornos. O amigo e compadre Armando Pittigliani escreveu, analisando seu estilo: “Deve-se evitar a sofisticação harmônica em excesso, porque quem gosta do samba se liga no ritmo”.

Mas Jair demonstrou que podia dominar tanto a sofisticação harmônica quanto o ritmo. Sempre teve consciência de sua potencialidade, não era um intuitivo instrumentalizado pelos ídolos da MPB universitária. “Agora, os nossos compositores vão olhar o mundo com mais seriedade. Porque antigamente todos estavam com aquela história de flor”, ele disse, pouco antes de gravar o compacto de Disparada e Fica Mal.

Levou até o fim consigo sua inclinação para a picardia e o humor. Sofreu preconceito duplo: por conta de seu jeito desabrido, e também por ter, logo após a morte de Elis Regina, mencionado algo sobre o “consumo de tóxicos” no meio artístico, ficou meio com uma aura de dedo-duro por um tempo. Mas superou isso com seu carisma imenso e a convicção da inocência.

Em 1962, já era um ídolo, já tinha ganhado vários prêmios. Tristeza já era um dos sambas mais tocados no País. Por falta de espaço para seu tipo de música, em 1991 ensaiou um retorno ao mundo caipira, gravando o disco Lamento Sertanejo. Já tinha experimentado o sucesso anteriormente com a gravação de Majestade o Sabiá, em 1985. Carregou consigo até o fim esse misto de tristeza e euforia que traz em si o significado da alma de um povo.

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