Heloisa Duran/Divulgação
Heloisa Duran/Divulgação

Espetáculo 'Sinestesia' mistura música erudita com artes plásticas

Parceria entre o cenógrafo Muti Randolph e pianista Clara Sverner faz relação de planos sensoriais

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Março 2015 | 19h00

RIO-A relação entre o que é audível e o que é visual é o mote do espetáculo Sinestesia, apresentado sexta-feira, 6, na Sala Cecilia Meireles pela pianista Clara Sverner e o artista plástico Muti Randolph. O nome é autoexplicativo: a proposta da relação entre planos sensoriais diferentes pela união entre música e artes plásticas, em um jogo estimulante de associações e ressignificações criado com a sensibilidade de dois intérpretes.

Randolph tem um trabalho associado à música eletrônica, à moda e à arquitetura. Em Timespaces, livro que reúne sua trajetória e será lançado hoje, 9, no Rio pela editora BEI, explica-se a técnica empregada em Sinestesia. “Para tornar visível em tempo real a música tocada por sua mãe, a pianista clássica Clara Sverner, Randolph desenvolveu uma maneira de criar imagens ao vivo com o movimento das teclas. Cada nota tocada dava origem a um objeto na tela localizada acima de Clara. Para conectar o movimento das teclas às projeções, ele instalou um sensor infravermelho por tecla, traduzindo a informação captada em protocolo Midi e registrando-a em um programa customizado escrito em open frameworks, capaz de controlar a maneira como os objetos eram produzidos: o local, a forma, a cor, a duração e o modo como se transformariam ao longo do tempo.”

 

Aos 79 anos, Clara Sverner mostra, na apresentação, por que é uma das pianistas mais inventivas do cenário nacional, com proposta de repertório que incorpora música de todas as épocas, com foco tanto na produção brasileira do fim do século 19 quanto nos principais momentos do século 20. Durante o recital, conversando com o público, ela delineou seu credo artístico: nenhuma música pode ser considerada cerebral - toda criação é, afinal, uma tentativa de expressão e o que muda são as formas com que se dá essa comunicação entre o criador, o intérprete e o público, redefinindo nossa percepção do que é música - e do que é arte. 

Foi esse universo musical diversificado que ela apresentou em Sinestesia, acompanhada das imagens propostas por Randolph. Assim, na primeira parte, o Polichinelo, de Villa-Lobos, transforma-se em uma profusão de cores; de Debussy, Feux d’Artifice cria vinhetas que, na parede da sala, se transformam em máscaras e Cathédrale Engloutie evoca as cordas do piano; na sequência, duas peças de Ginastera: a Danza del Viejo Boyero, que introduz formas geométricas, e a melancólica Danza de La Moza Danosa, cujo lirismo é refletido na presença de curvas. A segunda parte do recital ocorre em 3D: as Variações para Piano, de Webern, o Intermezzo da Suite Op. 25, de Schoenberg, e o n.º 4 da Klavierstuck IX de Stockhausen redefinem, nas imagens, nosso senso de arquitetura, questionando a forma dos objetos que a constituem. E, por fim, três peças de Scriábin, acompanhadas, no telão, pelos nomes das notas tocadas.

Clara Sverner diz que, em Sinestesia, você ouve e vê a música. Mas o caráter lúdico parece ser o menos importante. Até porque, a rigor, a música criada pela pianista precisa de um intermediário - a releitura de Randolph - para se transformar em imagens que, assim, não descrevem ou recriam o som, mas, antes, estabelecem um discurso paralelo entre duas linguagens distintas. Não é, obviamente, um discurso aleatório. E isso fica claro nas peças de Webern, Schoenberg e Stockhausen, nas quais a música é feita de vazios, assim como as imagens, recusando a linearidade, propõem um jogo de formas que define o som como um ente em expansão e retração, tijolo fluido de uma arquitetura jamais sólida. 

Mas, enquanto buscam essa aproximação, música e imagem também sugerem a sua impossibilidade. Nas peças de Scriábin, ao constituir o plano visual dos nomes das notas interpretadas pela pianista, Randolph parece flertar com a ideia de que, no fundo, a melhor definição de uma nota musical é ela própria. Palavras e imagens, nesse sentido, são insuficientes para descrever ou definir um som. E, mesmo que uma nota produza automaticamente uma imagem, há algo sempre etéreo e impossível de definir: o espaço entre cada uma delas, as passagens e transições colocadas pelo tempo próprio do pianista. 

Espaço, som, tempo. Ao articular esses conceitos, o espetáculo dialoga tanto com a criação anterior de Rudolph quanto com a percepção de Clara Sverner do trabalho do pianista. E cria uma equação que recusa respostas definitivas.

Criador de 'concertos visuais', Muti Randolph fala sobre sua carreira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.