Esperando Godot estréia com elenco feminino

Estréia hoje, no Espaço Subsolo do Sesc Belenzinho, a clássica peça teatral do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), Esperando Godot. Sob direção de Gabriel Villela, um elenco feminino - Bete Coelho interpreta Estragon, Magali Biff é Vladimir, Lavínia Pannunzio vive Pozzo e Vera Zimmermann, Lucky e também o menino mensageiro.A idéia de montar um dos textos mais conhecidos doteatro mundial surgiu em agosto. Bete Coelho deu de presente a Gabriel Villela o livro A Língua Exilada, do húngaro Imre Kertész. Impressionado com as citações contidas na obra, que muito o fez lembrar Beckett, o diretor embarcou para Portugal, onde tinha alguns projetos para realizar com grupos teatraisportugueses. "Quando voltei de lá, em novembro, elas (as atrizes) já me esperavam no aeroporto e fomos direto para o sítio que tenho em Minas", conta Villela. O sítio, a que ele se refere, serviu de base para todo o processo de criação do espetáculo. O texto de Beckett tem uma forte ligação com a natureza. Localizado em Carmo do Rio Claro, Minas Gerais, transformou-se num teatro de arena improvisadosobre o curral - começava ali o primeiro esboço de Esperando Godot. "Nos primeiros trechos da peça tivemos de contracenar com cachorros, galinhas, sapos e vaga-lumes iluminando a cena", diverte-se Bete. "Depois, apresentamos algumas cenas para aspessoas que trabalham no sítio, como a cozinheira, o caseiro. Você precisava ver a abertura com que aquelas pessoas nos receberam. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Ali me assegurei de que tínhamos nas mãos um dos textos mais lindosdo mundo", completa a atriz.Desde o primeiro ensaio, as atrizes já tinham figurinos. Tudo foi fabricado manualmente numa espécie de ateliê teatral que Villela possui no sítio. A única exceção são os camisões de linho, que as quatro personagens usam por cima de outras vestimentas, produzidos no sul da França. "São camisolas queforam utilizadas nos albergues parisienses durante a invasão nazista", diz Villela. Os objetos cenográficos também foram coletados no meio do mato - a árvore sob a qual Didi e Gogo se encontram foi trazida de lá; a "lua" que ilumina a noite triste e desesperançada dos amigos era a tampa de um latão.Villela e sua trupe optaram por uma montagem com apelo circense para apresentar a fábula beckettiana. "A idéia é subtrair todo o excesso como se estivéssemos num picadeiro. Ficamos apenas com o simples, o essencial", diz Villela. Vladimir, Estragon, Pozzo e Lucky são clowns, mas apenas Pozzo, o personagem que simboliza o poder, o domínio ali explícito, é o único que tem como adereço o nariz de palhaço - em vez de vermelho, preto. "É um clown sinistro."Pozzo e Lucky, que representam, respectivamente, odominador versus o dominado, possuem uma grande mão mecânica, cada um. Mais uma vez está presente a prática do picadeiro, "para não criar nenhum tipo de ilusão", diz Villela. "É a estética do teatro dos bonecos, são títeres desproporcionais." O espaço, no qual ficarão em cartaz até o dia 26 demarço (o Sesc Belenzinho entrará em reforma a partir do dia 31 de março e só reabrirá daqui a 3 ou 4 anos), não poderia ser mais adequado. Lembra um tanque, revestido de tijolos, que colabora para a circularidade que possui o texto, as falas, asações dos personagens. "Ali, só temos o amparo do buraco", assinala Villela.Godot O célebre texto de Beckett estreou no País em1955, sob direção de Alfredo Mesquita com alunos da Escola de Arte Dramática da USP. A primeira montagem profissional foi ocorrer apenas em 1968, com Walmor Chagas e Cacilda Becker no elenco, sob direção de Flávio Rangel. No intervalo de uma sessãovespertina que realizavam naquela temporada, Cacilda sofreu um aneurisma cerebral e morreu semanas depois. Acreditam que o motivo para a conseqüência fatal foi a extrema concentração dedicada pela atriz ao papel.Na década de 70, Esperando Godot foi montada sob direção de Antunes Filho, com elenco também formado apenas por mulheres, entre elas Eva Wilma, Lilian Lemmertz e Lélia Abramo.Esperando Godot. 90 min. 14 anos. SescBelenzinho - Subsolo (80 lug.). Av. Álvaro Ramos, 915, Belém, São Paulo, fone (011) 6602-3700, metrô Belém. 6.ª a dom., 21h.R$ 15. Até 26/3.

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