Especial de Roberto Carlos mostra as duas faces do "rei"

Seria maldade dizer que especiais de fim de ano com Roberto Carlos são todos iguais. Mas considerando que ele sempre abre seu show com Emoções e fecha com Jesus Cristo, que nunca canta sem terno branco e cabelo escovado, que joga as mesmas flores vermelhas do palco há 20 anos e que jamais deixa de dedicar uma canção à Maria Rita com água nos olhos, pode-se dizer que shows de Roberto Carlos são como novelas da Globo: todo mundo sabe como vai acabar mas ninguém deixa de assistir.A Rede Globo exibe hoje, logo depois da novela Celebridade, o especial que o cantor gravou ao vivo no Maracanãzinho, dia 6 de dezembro. Antes que se pergunte por que a Globo não reprisa logo o do ano passado, já que todos parecem o mesmo, há que se fazer justiça: este é o show mais diferente que Roberto Carlos fez nos últimos cinco anos.Ao contrário de 2002, quando se apresentou em uma casa fechada de São Paulo, este foi feito para um público pagante de mais de 10 mil pessoas que lotaram um estádio de futebol. Diferente dos últimos especiais, que não tiveram a parceria do seu amigo Erasmo Carlos, este não só o teve como coadjuvante em É Preciso Saber Viver como abriu espaço para ele cantar duas músicas de seu repertório, Mesmo Que Seja Eu e Pega na Mentira. Estranho a tudo o que Roberto Carlos fez na vida, ele canta um rap-romântico-religioso chamado Seres Humanos e prova sua irregularidade artística dos tempos atuais.O especial terá cenas registradas na Central Globo de Produção, no Rio de Janeiro. Um encontro que pode valer por todo o programa é o de Roberto Carlos com Zeca Pagodinho, os dois dividindo vozes em Além do Horizonte e Ai, Que Saudades da Amélia. Mas um outro detalhe volta a deixar o especial parecido com auto-plágio de shows passados: Roberto faz o velho pout-pourri com músicas separadas por épocas. Anos 60, jovem guarda. Anos 70, músicas românticas. Anos 80, homenagens a gordinhas, caminhoneiros, taxistas. Anos 90, Jesus Cristo e Maria Rita.Roberto Carlos por dentro parece, mas não é o mesmo de 2002. Seus olhos estão mais fundos e sua fé mais rasa. Não em Jesus, que ele não ousa contestar, mas na Igreja Católica, que já não é mais a mesma instituição intocável que lhe foi um dia. A camisinha, disse em suas entrevistas recentes, tem de ser usada sim. A vida além da morte, acredita, não tem como destinos certos as estações céu, inferno e purgatório. Sua música começa a dar sinais de que até o rei pode preferir ser uma metamorfose ambulante.Ele segue firme na idéia de que palavras negativas trazem sentimentos negativos. Na canção É Preciso Saber Viver, muda o verso original que diz se o bem e o mal existe para se o bem e o bem existe, como se fosse possível haver bem sem que houvesse mal. Mas é na letra do rap Seres Humanos, lançado em 2002 e que só este ano foi parar em seu disco e no show, que o cantor que já gravou disco com Padre Antônio Maria revela seus dilemas com o catolicismo. ?Buscamos apoio nas religiões / E procuramos verdades em suposições / Católicos, judeus, espíritas e ateus / Somos maravilhosos / Afinal somos filhos de Deus.?Filho de Deus, apaixonado por uma Maria Rita viva que se nega a sepultar, o homem de branco e azul que aparece hoje na Globo é o mesmo por fora e outro por dentro. O de fora precisa ser assim para sua carreira andar bem. O de dentro muda a cada ano que passa.

Agencia Estado,

20 de dezembro de 2003 | 12h22

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