ALAOR FILHO/AGENCIA ESTADO/AE
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Escritor e compositor Aldir Blanc morre aos 73 anos, vítima de covid-19

Um dos maiores autores da música brasileira foi vítima do coronavírus; seu pensamento unia a gente mundana com a lua das realezas, dando vida às estrelas e criando expressões como 'um brilho de aluguel'

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

04 de maio de 2020 | 08h39
Atualizado 04 de maio de 2020 | 16h18

O escritor e compositor Aldir Blanc, um dos maiores autores da música brasileira, morreu aos 73 anos na madrugada desta segunda, 4, no Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Ele estava com covid-19 e seu quadro de saúde era considerado grave.

Na ocasião, uma das filhas, Isabel, pediu doações para possibilitar a transferência e o tratamento do artista. Segundo a assessoria, a mulher de Aldir, Mary Blanc também testou positivo para o coronavírus e seu quadro é estável. A notícia da morte de Aldir fez o meio artístico lamentar a perda de um homem pelo qual fãs e parceiros formavam uma grande torcida.

Hélio Delmiro estava fazendo uma live de sua casa, há três semanas, quando um de seus internautas avisou sobre a internação de Blanc. “Ele está internado”. Visivelmente transtornado,  Hélio tentou disfarçar, procurou a partitura de uma música de Aldir para tocar, não encontrou, e passou a perguntar “o que houve com Aldir? Meu Deus!”

Aldir havia sido internado com sintomas de infecção urinária e pneumonia. Sua filha Isabel, sem recursos para os custos hospitalares, chegou a pedir doações em redes sociais para conseguir uma  transferência de hospital. A situação financeira não condizia com a riqueza da obra.

O que fica são alguns dos feitos poéticos mais robustos à música brasileira, sobretudo por composições a partir da parceria com João Bosco, nos anos 1960, para servir Elis Regina de material fresco. Vieram Bala com Bala, O Mestre-Sala dos Mares, Caça à Raposa e O Bêbado e a Equilibrista, de 1979, assumida pelo País como uma espécie de hino contra a ditadura militar para celebrar a volta dos exilados políticos ao Brasil com a garantia de que não seriam presos pelos militares. Ela se tornaria sua obra mais conhecida, com versos como “A lua, tal qual a dona de um bordel / Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel.” Era uma pequena mostra de como pensava Aldir, juntando gente mundana com a lua das realezas, dando vida às estrelas e criando expressões como “um brilho de aluguel”.

Aldir ia fundo quando decidia descer aos porões da alma. Quando escreveu Fantasia, fez assim: “Custei a compreender que fantasia / É um troço que o cara tira no carnaval / E usa nos outros dias por toda a vida / Dizendo: "Olá! Como vai?" E coisas assim / O nó da gravata apertando o pescoço / Olhando o fundo do poço e rindo de mim.”

Sim, incomodava, porque nós também poderíamos ser o cara da gravata. Sua invasão de verdades inconvenientes fazia com que o olhássemos torto cada vez em que ele entrava sem bater, colocando um espelho diante de cada um e traficando emoções em canções de parceiros como Cristóvão Bastos, que fez com ele Resposta ao Tempo para Nana Caymmi. “Batidas na porta da frente / É o tempo / Eu bebo um pouquinho / Pra ter argumento / Mas fico sem jeito / Calado, ele ri / Ele zomba / Do quanto eu chorei / Porque sabe passar / E eu não sei.” Mais à frente, o jogo vira: “Respondo que ele aprisiona / Eu liberto / Que ele adormece as paixões / E eu desperto / E o tempo se rói com inveja de mim / Me vigia querendo aprender como eu morro de amor pra tentar reviver / No fundo é uma eterna criança / que não soube amadurecer / Eu posso / ele não vai poder me esquecer.”

Aldir era Aldir Blanc Mendes, um carioca nascido a 2 de setembro de 1946. Um médico psiquiatra que deixou de clinicar em 1973 para dedicar-se apenas à composição. Antes, já vinha tateando o meio artístico criando A Noite, a Maré e o Amor em 1968, com Sílvio da Silva Júnior, para o 3º Festival Internacional da Canção da TV Globo. Um ano depois, classificou outras três para outro festival, o Universitário da Música Popular Brasileira. De Esquina em Esquina (com César Costa Filho), foi defendida por Clara Nunes; Nada Sei de Eterno (feita com Sílvio da Silva), teve a interpretação de Taiguara; e Mirante (com César Costa Filho) veio na voz de Maria Creuza. Depois de mais festivais, buscou novos parceiros, como o violonista Guinga, com quem fez Catavento e Girassol, Nítido e Obscuro e Baião de Lacan, entre outras.

As últimas duas décadas foram de pouco convívio entre Aldir Blanc e o mundo que não lhe interessava. Entrevistá-lo se tornava uma missão improvável. Recluso, era como se Aldir estivesse farto de oferecer flores no deserto, lembrando um personagem do cineasta Pedro Almodóvar. Ao apontar para um poeta de braços cruzados, um homem diz ao outro: “Veja, aquele é um dos maiores poetas deste século.” “É mesmo? E eu posso falar com ele?” “Não, ele não escreve nem fala mais. De uns tempos pra cá, acha que o mundo não merece mais as suas palavras.”

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