Escola de música recruta jovens de Campinas contra o tráfico

Projeto Anelo, de Luccas Soares, trai as estatísticas, nega a criminalidade e salva jovens da criminalidade e da morte precoce

Julio Maria, Campinas - O Estado de S. Paulo

01 Junho 2014 | 07h00

Os trilhos do trem que passa pelo Jardim Florence a seis quilômetros por hora, no subúrbio de Campinas, são o destino dos garotos que compram mais drogas do que podem pagar. Assim que os traficantes os capturam, eles são amordaçados, têm os pés e as mãos amarrados e dão os últimos suspiros até que a próxima locomotiva puxando 60 vagões com soja apareça para fazer o resto do serviço. As famílias conseguem identificar os corpos quando sobram partes para isso.

A Rua 149 fica perto. Luccas Soares não mora mais ali, mas anda por ela todos os dias para não esquecer sua história. Ele para na frente do terreno onde ficava a casa em que vivia para ver tudo acontecer de novo. Sua infância acabou aos três anos, quando seus pais se separaram. A mãe foi internada em um hospital psiquiátrico depois que o pai arranjou outra mulher e o levou embora com as duas irmãs. A madrasta o via como um peso. Houvesse razão ou não, aliviava a revolta de ter em casa filhos que não eram seus aplicando-lhes três surras por semana. Se acordassem com xixi na roupa, o castigo era irem para a escola assim. “Eu cresci ouvindo que não seria nada”, lembra Luccas, duas horas antes de subir ao palco do Teatro Municipal José de Castro Mendes, no centro de Campinas, para mostrar a consagração de um milagre.

“Ainda temos muita luta pela frente, mas hoje é um dia especial”, diz, ao microfone, para uma plateia que chegou em três ônibus fretados. Será o primeiro grande show da Banda Anelo. Vila dos Meninos, nome do álbum de estreia, reúne nove temas de linguagem jazzística, alguns compostos por eles mesmos e executados com talento e identidade que impressionam. Um Baião Pra Você, de Alê Petrônio; Ingenuidade, de Doriva Oliveira; e a própria Vila dos Meninos, de Guilherme Ribeiro, já os fariam notícia. O saxofonista soprano Romulo Oliveira passou da condição de aposta para se tornar um grande de sua geração. Filipe Ferreira, o baterista, tem o brilho das promessas, como o saxofonista Edmilson Santos, o percussionista Carlos Bolinho e o violonista Osmar Filho. Mas, talvez, a maior magia esteja na história que guardam por trás dos improvisos.

Por um acidente de rota, uma traição às estatísticas, Luccas Soares não virou traficante. Ganharia R$ 1 mil por mês para fazer aviõezinhos de pó, era só dizer sim. Se a família não lhe dava proteção, o tráfico o abraçava. Se a escola o considerava um incapaz, o crime o via como mão de obra útil. Articulação para ser gerente de boca não lhe faltava, mas algo o impedia de aceitar um 38 na cintura. Luccas não sabe o que o segurava na corda bamba, mas suspeita: “Meu pai me batia, eu tinha medo de fazer qualquer coisa errada”. Quando viu um evangélico tocando órgão na igreja, descobriu o que poderia tirá-lo da invisibilidade. Chegou em casa, raspou as economias e comprou um teclado usado por mais de R$ 200, uma afronta à família. “Senti que havia me tornado um super-herói. Agora eu tinha a minha arma.”

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“Eu tenho que lhe agradecer. Antes de estudar com você, o Levi, meu filho, queria se suicidar. O único irmão que ele tem foi preso e o pai saiu de casa. Você o salvou.”
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Amigos que aprendiam a tocar algum instrumento começaram a chegar e Luccas formou com eles um grupo de canções pacifistas. “Foram os anos mais felizes da minha vida.” Quando a banda Anelo se profissionalizava, veio o golpe. Seus parceiros – que tinham pai, mãe e futuro – desistiram dos palcos para investir nos estudos e Luccas, de novo, ficou só. Ou quase. Decidido a viver de música, até porque a outra opção ainda era o tráfico, começou a dar aulas e alugou um salão com o que ganhou dos alunos que podiam pagar. No dia em que o telefone da escola tocou, ele sentiu uma picada ardida, parecida com aquela dada pelo tecladista evangélico. Uma senhora queria falar com o professor: “Eu tenho que lhe agradecer. Antes de estudar com você, o Levi, meu filho, queria se suicidar. O único irmão que ele tem foi preso e o pai saiu de casa. Você o salvou.” Levi Macedo, 21 anos, se tornou o melhor guitarrista do grupo e Luccas entendeu o recado como uma missão. Mais do que dar aulas, ele tinha nas mãos o poder de resgatar garotos que, no fundo, eram todos ele mesmo.

Sem dinheiro e sem amigos, saiu pelas ruas em busca de voluntários. Sabia que havia um professor em potencial por trás de qualquer nota que soasse no Jardim Florence. Ao ouvir um jovem tocando sax no quintal de uma casa, o chamou do portão. “Ei, você não quer ser professor na minha escola?” O rapaz aceitou e, ao chegar na Anelo, ensinou os primeiros sopros ao pequeno Romulo, a futura fera do grupo. Mas eram os piores que interessavam a Luccas. “Eles eram os melhores para mim.” Quem podia pagar, deixava R$ 5 por mês. Quem não podia, estudava assim mesmo. Ao final do ano, eram 526 alunos inscritos – todos aprendendo música de graça. 

Até que viesse o dia do Teatro Municipal, na última terça-feira, muita água rolaria pelo Jardim Florence. O pianista Guilherme Ribeiro se tornou professor e mentor de Luccas, o incentivando a fazer a escola virar instituição. Depois de apuros com a sede pequena, a prefeitura cedeu um terreno para que uma nova fosse construída. Sua luta agora é conseguir recursos para erguê-la. Amigos ficaram pelo caminho. O aluno Alisson saiu da escola, voltou para as drogas e, há dois anos, apareceu enforcado. Alê Petrônio, guitarrista e compositor da bela Um Baião Pra Você, morreu de neurotoxoplasmose enquanto o Vila dos Meninos era gravado. E Luccas, aos 34 anos, segue percebendo os milagres à sua volta. Quando a plateia ficou de pé para aplaudi-lo, no final da apresentação, ele avistou Seu José Wilson na plateia. Era a primeira vez que o pai o via tocar.

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