Marcos de Paulo/Estadão
Marcos de Paulo/Estadão

Erasmo Carlos vasculha discos dos anos 70 para criar o melhor repertório de sua vida

Em entrevista ao 'Estado', cantor falou também sobre a polêmica das cenas cortadas pela Globo para fazer um documentário de Tim Maia: "Eu nunca esnobei o Tim"

Entrevista com

Erasmo Carlos

Julio Maria/Enviado Especial ao Rio, O Estado de S.Paulo

09 Janeiro 2015 | 03h00

Otis Redding e Carla Thomas deram o primeiro golpe. Um ano antes do fim do programa e da era Jovem Guarda, em 1968, eles se intitularam reis da soul music no disco 'King & Queen' e fizeram Erasmo Carlos parar pra pensar. Aquele som seco, de guitarras marcando o groove com os sopros e o baixo e a bateria abrindo uma cratera bem debaixo de seus pés era algo sério demais. Erasmo já tinha o rock, mas Otis mostrava que o mundo poderia ser bem maior.

Erasmo começava a sair da faculdade. “Metaforicamente falando, né bicho. Eu nunca fui à faculdade”, diz ao Estado, à beira da piscina de sua casa, na Barra da Tijuca. Os discos que passaria a fazer na década de 70, quando atingia os 30 anos de idade, mostrariam seu espírito rock-and-roll cada vez mais contaminado pela soul, mas também pelo samba, pela gafieira, pelo calipso. E seriam considerados suas obras mais inspiradas.

Acontece que, por motivos comerciais ou de força maior imposta por uma turma pegajosa que usava coturnos e carimbos de “censurado”, só faltou tocá-los. Erasmo jamais levou para o palco músicas como 'Maria Joana', uma homenagem cifrada à maconha assinada por ele e Roberto Carlos, gravada no espetacular 'Carlos, Erasmo', de 1971. E só de um ano para cá reativou 'Dois Animais na Selva Suja da Rua', que Taiguara fez para Erasmo e sua mulher, Narinha, gravada com o compositor ao piano também em 1971.

Erasmo recebeu a reportagem para reabrir sonhos e memórias e falar da decisão de levar ao palco do Tom Jazz, nos próximos dias 23 e 24, o show 'Meus Lados B', que serão gravados para saírem em CD e DVD. No meio da conversa aparece um gordinho. “Tim Maia foi o cara.” O cara que melhor se apropriou da linguagem norte-americana, o cara que tinha a grande voz, o cara que os jovem-guardistas conheciam como Tião Maconheiro. E o cara que acaba de criar o primeiro grande fuzuê do ano ao aparecer em duas versões: humilhado por Roberto Carlos no filme de Mauro Lima e ajudado por Roberto Carlos na edição que a Globo, com o próprio Roberto Carlos, fez para o mesmo filme antes de exibi-lo na TV. Erasmo tem a sua versão.

Como foi que os anos 70 chegaram para você?

Quem me trouxe a soul music foi Otis Redding. Ele e Carla Thomas gravaram um dos dez LPs mais importantes da minha vida ('King & Queen', de 1967). Depois vieram James Brown e Ray Charles, o maior cantor do mundo. Mas não enxergo uma fase totalmente soul em minha carreira porque nunca larguei o rock and roll.

E como foi que você e Roberto fizeram 'Maria Joana', uma música para homenagear a maconha?

Bicho, fiz mesmo. Fumei um baseado, gostei e fiz a música com duplo sentido. Quando estávamos filmando 'O Diamante Cor de Rosa' (1970), entrei em uma boate em Israel e vi uns caras dançando um calipso alto pra caramba e cantando “I like marijuana, I like marijuana”. Eu fiquei com aquilo na cabeça e fiz 'Maria Joana'. Claro que a censura implicou. A música não tocou no rádio e eu nunca a cantei em show. Eles deixaram sair no disco, mas eu não poderia tocá-la. 

'Mané João', o épico trágico que se passa em uma gafieira e que virou hino na cultura samba-rock de São Paulo, teve algum fato real como inspiração?

Roberto não gostava quando eu matava os personagens das músicas. Ele dizia “pô, mas coitado do cara”. E eu respondia que a história era assim. E ele insistia: “Mas livra a cara do cara, Erasmo”. E eu: “Não dá para livrar a cara do cara”. 'Mané João' foi engraçado... Eu queria fazer um rock nordestino, coloquei até triângulo na gravação original, mas as pessoas acabaram confundindo isso com samba-rock. A lenda me levou para o samba-rock.

'Cachaça Mecânica', pela métrica e pela temática, tem mesmo raízes em 'Construção', do Chico Buarque?'

Houve uma polêmica muito grande porque acharam que eu estava plagiando 'Construção'. E eu fiquei preocupado com isso, mesmo sabendo que não era plágio. Eu tinha medo de ter feito algo sem querer e alguém pensar que eu havia agido de má-fé. Até o dia em que o próprio Chico falou que não era plágio e tirou um peso das minhas costas.

O que você achou da decisão da Globo em fazer um especial de TV sobre Tim Maia sem os trechos do filme em que ele aparece sendo esnobado por Roberto Carlos?

Eu vou falar da minha parte. A Globo me chamou para fazer um documentário sobre o Tim Maia. Ninguém me disse que iria ser assim. Quando eu vi, fiquei surpreso. Mas o Tim morreu e não está aí para dizer se foi assim ou assado. Eu achei algumas imagens do filme pesadas. Nunca vi ninguém fazer o que aquele assistente do Roberto fez (jogando dinheiro amassado no chão para Tim pegar). Não acredito que Roberto tenha tido alguém na equipe capaz de fazer isso.

E a história da bota apertada que o Tim ganhou do Roberto...

Só sei das histórias do Tim comigo, mas essas não foram mostradas. As pessoas levam mais para o lado do Roberto Carlos, que dá polêmica, que dá Ibope. As histórias vividas entre mim e Tim não têm glamour, e para Roberto Carlos têm. Eu conheci o Tim menino, na época da (entrega de) marmita. Crescemos juntos na rua. Depois que fiz meu grupo foi que conheci Roberto. Eu fazia vocal para o Tim e para ele. Eu não, os Snakes, meu grupo. Eu não tocava violão ainda, a gente só sabia fazer vocal mesmo. E fazíamos para o Roberto, o Elvis Presley brasileiro, e para o Tim, o Little Richard brasileiro. Depois eu aprendi a tocar violão e começamos a fazer nossos números. Eu nunca sabia da vida deles dois. Assim como não sei da vida de Roberto com o Carlos Imperial. As pessoas acabam me botando no mesmo bolo, para ficar mais fácil, e aquilo gera filhote, e o filhote aumenta. Eu estou sempre metido nesses bolos mas eu não era desses bolos. Eu tinha meu próprio lance, tanto com Imperial quanto com o Tim.

Mas você pode imaginar Tim naquela situação mostrada no filme, implorando por ajuda?

Olha, cortaram muita coisa que eu falei na Globo. Foi tudo editado, cara. Eu disse a eles, pô, eu não gosto de falar essas coisas, mas sou obrigado. Eu dei roupa para o Tim, dei dinheiro para ele, consegui que ele gravasse um disco na RGE. É que essas p... não têm glamour, vai todo mundo para o outro lado e o meu fica sempre obscuro. Eu não esnobei ninguém. O programa Jovem Guarda não era meu, eu não escalava artista, o que eu posso fazer? Como amigo eu fiz o que eu pude. E a gente se correspondia muito, eu e o Tim. Esse negócio de ele chegar ao Brasil (dos EUA) e levar aquele susto (com o sucesso da Jovem Guarda) é mentira do filme. Ele sabia o que estava rolando porque a gente se correspondia com cartas, eu assinava Erasmo Gilberto e ele assinava Tim Jobim. Eu contava: “Cara, fiz a versão de uma música que está tocando no rádio em primeiro lugar aqui. Splish Splash, Parei na Contramão... Temos um programa chamado Jovem Guarda”. Ele sabia, mas não acreditava. E eu dizia que era verdade. Quando ele chegou aqui não teve espaço para ele, mas não sei como foi isso (nos bastidores) do programa.

Ele nunca o procurou para pedir espaço no programa?

Sim, deve ter falado comigo, a gente se conhecia bem. Ele comia em casa, dávamos dinheiro, roupa...

Sim, mas ele nunca pediu para cantar no programa?

Ele chegou a cantar uma vez no programa. Só não sei por que não cantou outras vezes.

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