Era uma vez uma garota

Helô Pinheiro, revelada em 1965 como sendo a musa da canção de Tom e Vinícius, se mantém, até hoje, como ícone da Bossa Nova

Deborah Bresser,

26 Abril 2008 | 19h57

Ela é uma música. Dos 50 anos da Bossa Nova, pelo menos em 44 deles ela foi a coisa mais linda e mais cheia de graça, a menina que vem e que passa e que até hoje está atrás de um objetivo que revele, enfim, quem é Helô Pinheiro, a mulher que a musa oculta. Se não fosse a garota de Ipanema, quem seria? Não sabe dizer. Divaga, acredita que poderia ter sido atriz, apesar do pai general e do marido que não queria ela metida com esse negócio de TV. O mesmo marido que, anos mais tarde, teve de engolir (e jurou apoiar) a esposa na novela, depois na Playboy, não uma, mas duas vezes - na segunda, ao lado da própria filha caçula. Da normalista que andava tirando o sossego de Jobim e Vinicius à estudante do 5º ano de Direito que é hoje, Heloisa Eneida formou família, criou fama, encarou desavenças, oficiais de Justiça, escândalos, doenças, e, claro, uma boa dose de glamour. Ela é uma celebridade, dessas que ganham cachês para enfeitar festas - de R$ 5 mil a R$ 10 mil, no seu caso. Mas está longe de se sentir uma pessoa realizada. Aos 62 anos, ela aceita o fato de que a vida lhe deu um presente quando ganhou a música que fez dela o que é, sem precisar de nenhum esforço. Acredita até que, sem o seu brilho, Garota de Ipanema, a música, talvez não fosse uma das canções mais gravadas no mundo. Só ela tem uma coleção com 500 versões, enviada por Mauro Lima, um fã de Recife. Mas, com a consciência dos que sabem que poderiam ter rendido mais, deixa escapar uma confissão inconfessável. "Não tenho orgulho de mim."  Nesta entrevista, concedida no dia 1º de abril, Helô não mentiu. Abriu a casa, onde paredes guardam em pôsteres parte da sua história, revelada em capas e reportagens de revistas, e falou de filhos, trabalho, dinheiro e vaidade. A mãe de Kiki (38 anos), Jô (35), Tici (31) e Fefe (29) disse que ser a garota de Ipanema foi uma honra, mas também um estigma. Apesar disso, se pudesse refazer algo, garante que não mudaria seu balanço a caminho do mar. Só teria uma bússola mais eficiente.  Amores O primeiro namorado ela teve aos 15 anos. Ele era dez anos mais velho, o que, para a época, beirava o escândalo. "Eu tinha 8 anos e via o Igor passar... ele tinha 18!" Quando ela chegou aos 12, ele avisou que iria namorá-la. Aos 15, a convidou para um cinema. Lá, rolou o primeiro beijo. Um ano depois, Helô descobriu que o moço tinha uma namorada da idade dele, e não quis mais saber do rapaz. Aos 16, começou a namorar Fernando, com quem viria a se casar. Já estava com ele, portanto, quando passava pela Rua Montenegro, em 62, vestida de normalista. "O bar (Veloso) era caminho para eu pegar ônibus na Visconde de Pirajá para ir à Central do Brasil. Lá ia dar aulas de primário, em Padre Miguel, depois no Realengo." Ela diz que sonhava em ser atriz, mas o pai, general e censor do Pasquim, dizia que isso era profissão de meretriz. Quando Vinicius disse, em 65, que ela era sua musa, o que ele falou? "Ficou envaidecido." Vida de musa Ter uma relação comercial com o título garota de Ipanema foi uma decisão consciente. Em 1998 registrou o nome para moda e beleza. Da música Garota de Ipanema, garante que não levou um tostão. Mas sabe que não dá para desvincular sua imagem, sua fama, e a grana que ganha com o fato de ser a Garota de Ipanema. "É um estigma também. Tenho uma imagem ligada à praia, se quiser estar em uma bancada de telejornal, não dá. É um papel que me limita." Hoje, como aluna da faculdade de Direito (na FMU), ela é repórter do programa Código de Honra, na TV Justiça. "Gostaria de ter tido uma direção certa, um trabalho único, um rumo. Eu sei que sou um respingo do que Tom e Vinícius foram, mas não tenho orgulho de mim.Eu comecei remando um barquinho, virou uma lancha e quando estava um iate, me jogaram no mar. A gente está sempre começando... disposição eu tenho, só queria ter começado antes." Playboy Helô trabalhava com produção de eventos e o marido Fernando não conseguia mais emplacar em um emprego. "Eu não queria mudar o padrão de vida das meninas." A solução? Aceitar o convite para posar nua. E aquele marido, que não queria nem que a mulher beijasse outro homem na novela, apoiou a decisão. "Acho que, com o tempo, o amor vai se acostumando. No começo há muito ciúme, medo de perder, mas com o tempo dá para ver que isso não acontece. Ele foi meu maior incentivador." Se o general estivesse vivo, como seria? "Ele não iria permitir, acho que arrancaria minhas orelhas. Mas aí ia ter que me ajudar, né?" O segundo ensaio, Helô garante, foi para resolver outra crise financeira. O rombo, desta vez, veio da quebra de sua agência de modelos. "Eu não queria ter dívidas. Poderia cobrir trabalhando, mas levaria muito mais tempo." Ela admite que foi convidada porque a revista queria a filha Tici. "Se não tivesse ela, talvez não houvesse interesse. Ela não queria. Foi o caminho que encontrei para levantar o dinheiro que precisava. A maior parte das pessoas aceitou bem, mas a mente do ser humano pode ser boa ou depravada. Teve gente que falou que eu estava vendendo a minha filha, que estava bolinando ela! Imagina, eu estava cobrindo ela. Ou eu fui burra, ou fui inocente. Foi um trabalho, mostrando uma relação bonita entre mãe e filha, mas teve quem pensou no pior." Filhos e netos A filha Ticiane está grávida de Roberto Justus, mas não é a primeira vez que a garota de Ipanema será avó. Ela já tem duas netas, e agora está na torcida por um menino. Logo se corrige, diz que importante é vir com saúde. Fefe, seu caçula, veio com saúde, mas a perdeu aos três meses, vítima de uma bronquiolite. Faltou ar no cérebro do bebê. "Minha mãe dizia que era bom ter um menino primeiro, para cuidar das meninas. Comigo foi assim, meu irmão me protegia. Mas primeiro tive a Kiki. Depois veio a Jô. Daí perdi um bebê, era um garoto. Em terceiro veio a Tici, e por último, o Fefe. Até hoje ele não escreve, não lê. Procurei todo tipo de religião, o levei até para um médium que não cobrava nada e fez uma operação espiritual. No Dia das Mães, quando tinha três anos, deu os primeiros passinhos. Chorei muito. Quando a gente enfrenta um problema de difícil solução, aprende a ultrapassar qualquer outro." Falência A família de seu marido, Fernando, era dona de uma indústria siderúrgica. Quando ficaram em situação difícil, o sogro, que era um português muito honesto, segundo a nora, não quis ouvir os oito filhos e pedir concordata. Ele pediu falência. "Nos mudamos para São Paulo para ficar só três anos, mas tivemos que resolver os problemas da empresa, fomos ficando, as crianças crescendo, e tive de renunciar ao meu Rio de Janeiro em prol dos filhos e do marido." A falta de grana levou Helô a fazer comerciais. Em uma gravação na TV Bandeirantes, foi convidada para fazer uma novela, a Cara a Cara, em 1979. "Ali fui batizada. Antes disso, todo mundo me chamava de Helô, Heloisa Eneida, não de Helô Pinheiro. Quando cheguei em casa e contei para o Fernando que ia fazer uma novela, ele não gostou, mas entendeu que era para que a gente pudesse manter o padrão de vida. Mas ele me proibiu de beijar em cena", lembra.

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