Mustafa Seven
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'Era NFT' começa a atrair artistas da música brasileira

O que é o sistema de compra e venda de arte (e de qualquer coisa) totalmente diferente do que se conhece até então que começa a atrair músicos brasileiros; depois do pioneiro André Abujamra, Pabblo Vittar e Urias anunciam suas primeiras ações no negócio virtual

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 05h00

São três letras que, segundo uma corrente cada vez mais forte do setor de produção artística alinhada à tecnologia, podem abrir as portas do novo mundo. Uma transformação no relacionamento entre fãs e artistas, ou consumidores e produtores de arte, que estabelece uma forma direta de remuneração a quem vende e um novo conceito de propriedade a quem compra. A sigla NFT significa “tokens não fungíveis”. Token é o nome do registro de um ativo em formato digital, um investimento no impalpável universo da web. “Não fungíveis” seria não perecíveis, mas, aqui, é também incontestáveis e originais. Uma música, uma camiseta, uma foto, um texto – todos podem ser vendidos como NFTs. Mas não só, e assim a coisa ganha uma dimensão cósmica: a linha de baixo de uma música, uma selfie, um par de tênis, o cadarço deste tênis ou uma frase escrita em um tweet. Qualquer coisa pode passar a ter valor no mundo dos NFTs.

Os negócios, feitos sem intermediários entre vendedor e comprador, mostram que existe demanda disposta a pagar caro por NFTs, mesmo sendo esse um universo conhecido por bolhas fadadas à evaporação. O produtor de música eletrônica canadense Jacques Greene, de 31 anos, baseado em Toronto, vendeu os direitos de seu single Promise com uma animação bônus por US$ 20 mil. Seu colega de produções também eletrônicas, Justin David Blau, o 3Lau, 30 anos, um ex-estudante de finanças na Washington University em St. Louis, foi mais agressivo e ofereceu 33 NFTs. Apenas por uma faixa remixada, ele faturou a bíblica cifra de US$ 3.666.666. Ou seja, mais de três milhões e meio de dólares. E a banda de rock de Nashville Kings of Leon fez um bom cascalho extra ao aproveitar o lançamento do álbum When You See Yourself para colocar bônus oferecidos como NFTs. Vinte e cinco peças exclusivas, como um vinil de edição única e a chance de ganhar uma das seis experiências ao vivo para a próxima turnê, seja lá quando ela for realizada. Bons negócios se ninguém soubesse que o artista Beeple vendeu, no início do mês, uma coleção de arte em NFT por US$ 69,3 milhões. Quase R$ 405 milhões.

Ainda que algumas iniciativas incluam produtos físicos, o forte da lógica NFT não é o palpável. E é aí que está, para seus entusiastas, o prenúncio da revolução. Quem comprou a música Promise, de Greene, não necessariamente comprou seus direitos autorais (que, na versão mais simples do NFT, seguem sendo do artista ou de uma editora) nem o fonograma (ou seja, a gravação, que permanece sendo do artista ou de uma gravadora). Assim como também não adquiriu exclusividade da audição. A música Promise segue disponível no Spotify, livre aos clientes da plataforma e pagando suas parcas porcentagens aos autores. Então, quem compra um NFT compra exatamente o quê?

A resposta não é única porque tudo está em aberto e há vários acordos possíveis a quem coloca seus produtos nas plataformas de venda, os marketplaces. Uma canção, para ficarmos na música, pode ser comprada sem garantir ao cliente nenhuma participação em futuros lucros. Aqui, o comportamento do comprador pode ser definido, ainda que de forma superficial, como pura e simples ostentação. Isso porque os nomes dos proprietários e suas respectivas aquisições ficam listados no blockchain, uma espécie de livro-registro digital de natureza inviolável. Para alguns, e agora tente não pensar com a sua própria cabeça se você nasceu antes de 2000, aparecer como dono de uma produção do DJ Greene significa estar no topo do mundo. “É o mesmo pensamento que um dia foi dos colecionadores. O que essas pessoas compram é sentimento da escassez. No mundo em que tudo é reproduzido infinitamente, o escasso e o original voltaram a ganhar valor”, diz Arthur Deucher Figueiredo, advogado com base em Los Angeles, mestre em Direito e Política da Mídia, Entretenimento e Tecnologia pela Universidade da Califórnia.

Mas a ostentação está apenas na superfície. Logo abaixo estão os investidores do meio digital, profissionais ou fãs mais atentos que compram algo aparentemente prosaico para que o tempo o torne uma relíquia. Ele faria assim a revenda de seu NFT, um giro que só será testado quando houver tempo histórico suficiente para isso. Um outro tipo de contrato mais aprimorado, e de valor mais alto, pode garantir a quem compra a participação no recebimento de royalties (direitos autorais) por execução nas plataformas de streaming. Assim, o valor de um NFT de Roberto Carlos, se é que um dia o negócio venha a ser seguro a ponto de atrair o perfil de artistas conservadores, pode romper a estratosfera no dia seguinte a um fato histórico, uma efeméride ou, como no velho capitalismo sem coração, à sua morte.

André Abujamra é o primeiro nome da música no Brasil a estudar e aplicar os conceitos do sistema NFT em sua produção. “Vou abrir uma gravadora para lançamentos em NFT.” Sua definição do negócio: “É como começar uma vida nova em um planeta nunca visitado. Vai mudar o prumo do universo”.  Abujamra fez suas primeiras vendas aliado ao artista plástico Uno de Oliveira. Uma de suas obras, a ilustração animada Coélhek, que mostra a dramática imagem de um jovem de uma comunidade do Rio com um coração pulsante, foi arrematada por uma colecionadora canadense por algo como US$ 3,2 mil na moeda corrente do meio das NFTs, a criptomoeda ethereum. “Já vendemos cinco criptoartes.” Ele conta que teve a ideia, na noite anterior à entrevista com o Estadão, de criar uma música de 5 minutos para vender como NFT, mas que fará isso por partes. “Penso em vendê-la separada, de 3 em 3 segundos, a um preço equivalente a R$ 5 cada partícula.” Ouviu então do repórter que poderia deixar que o comprador usasse as partículas para que ele mesmo desse os caminhos da composição, e levou a sério: “Cara, é lindo. Está vendo como funciona?”.

As primeiras artistas brasileiras do mundo pop a testar os NFTs serão a cantora Urias, que anunciou uma colaboração artística também com Uno, já candidato a ser o primeiro criptopopstar do País, na tarde de terça, 30. Serão três obras com edições limitadas e uma edição única com a imagem e a música de Urias e a arte de Uno. A cantora Pabllo Vittar também anunciou na segunda-feira, 29, por meio de seu Twitter, que passaria a desbravar o novo mercado.

As coisas não parecem tão promissoras para Maurício Bussab, executivo da Tratore, considerada a maior distribuidora digital de música independente do País. “Não acredito que seja um modelo tão bom a ponto de substituir o streaming. Afinal, o que compra alguém que está comprando uma música ali? No momento da compra, nada. Você só ganha o direito de contar vantagem.” Seus interesses no horizonte digital estão mais voltados não para os NFTs, mas para a lógica dos blockchains, os guardiões de registros dos proprietários e das obras originais. “Isso traz de volta o conceito de originalidade e fornece algo que pode ser usado sim pelo mercado da música: a remuneração dos artistas sem intermediários e de forma segura e inviolável, enviando os pagamentos imediatamente, no momento das vendas.” O assunto quente será tratado em uma live em que estarão Bussab e Abujamra, com suas visões particulares, no dia 8 de abril, às 15h30, no Facebook da Tratore.

Ao meio jurídico relacionado aos direitos de autor, resta aguardar o tamanho que de fato pode se tornar a onda das NFTs enquanto as primeiras perguntas de ordem legal começam a incomodar. “Ainda não existe consenso jurídico claro com relação às NFTs. As autorizações legais vão depender das formas que ele assumir. Um audiovisual, por exemplo, exige licença sincronizada entre letra (editora), música (gravadora) e imagem”, diz o especialista Deucher Figueiredo, de Los Angeles. Por ora, ele faz um alerta aos artistas: “Eles vão precisar lutar para manter seus controles autorais. As gravadoras certamente vão querer incluir cláusulas ao contrato para ganharem fatias dos negócios em NFTs. É preciso haver entendimento entre as partes”. 

Aos mais afoitos, a lógica dos NFTs, mesmo sem que se saiba ainda com clareza o que de fato um fã busca quando resolve comprar um bem assim, dá sinais de não estar disposta a perdoar possíveis aventuras aleatórias. Uma das frases ditas entre os compradores tem sido: “Não há segunda chance”. Ou seja: um primeiro fracasso de vendas tem feito com que todas as tentativas seguintes de um artista sejam desvalorizadas. Nunca há clareza nas eras de transição.

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