Wilton Junior
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Entrevista: ‘Rock in Rio tem que ser cada vez mais experiência’, diz criador Roberto Medina

Nova edição do festival se inicia na sexta-feira, 15

Entrevista com

Roberto Medina

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2017 | 06h01

RIO - Há 32 anos ele inventou o Rock in Rio. Desde então, pôs para cantar mais de oito milhões de pessoas, somados os 17 festivais realizados no Rio, em Lisboa, em Madrid e em Las Vegas desde então. Agora, Roberto Medina quer fazer da sétima edição em sua terra natal o início de uma virada para o Rio, mergulhado em profundo desânimo desde o fim da Olimpíada, há pouco mais de um ano. 

A despeito da crise econômica no País, especialmente aguda no Estado, foram investidos R$ 200 milhões, sem que houvesse o estímulo da renúncia fiscal. A Cidade do Rock, hoje instalada no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, tem 300 mil metros quadrados, o dobro das dimensões da anterior, e foi preparada para receber 700 mil pessoas a partir da sexta-feira que vem. 

“Chega de falar do impossível. Banda bacana tem todo mês, Rock in Rio, não”, brada o empresário, que vem trabalhando junto à prefeitura carioca num projeto de recuperação da imagem internacional da cidade e de estímulo ao turismo, que prevê um calendário anual de grandes eventos. Nele, deposita as últimas esperanças: caso não vingue, já anunciou que se muda para Nova York. Medina conversou com o Estado na última terça, na Cidade do Rock.

Mais uma vez o Rock in Rio traz Guns N’ Roses, Red Hot Chili Peppers, Capital Inicial, Frejat. Como reage às críticas às “figurinhas repetidas”? 

Eu queria o Metallica mais uma vez, mas minha própria equipe falou: ‘De novo?’ Agora, o pessoal reclama que não tem metal. Não tem porque só poderiam ser Metallica, AC/DC ou Iron Maiden. Guns é uma coisa meio maluca de ficar insistindo, tem uma relação mágica com o Rock in Rio. E esse ano tem uma excentricidade: The Who e Guns, dois headliners num dia só, o que é praticamente impossível em qualquer outro lugar. Não se ganha dinheiro com isso, se perde.

Qual é sua atração dos sonhos? Rolling Stones e Paul McCartney, como você já levou ao Rock in Rio Lisboa? 

Eu gostaria desses, mas não é um sonho meu. Eu quero é fazer um bom conjunto. É difícil mesclar pop, heavy, rock. O Rock in Rio tem que ser cada vez mais experiência, você ganha o jogo assim: 55% das pessoas vêm por isso, 45% pela banda. As pessoas vão enlouquecer com o que vão ver. Estamos entregando muito mais do que a gente combinou. Pelo aplicativo do festival, você descobre qual banheiro está mais vazio, qual o próximo lugar da Cidade do Rock onde pode ir. Temos uma essência, a rock scent, que será lançada na plateia. Estamos indo ao detalhe.

Por que não se consegue equacionar o problema do transporte? 

É um desafio. As pessoas têm que chegar cedo, até porque quem vem às 14 horas não consegue ver tudo mesmo se ficar até as 2 horas do dia seguinte. Vamos ter o metrô com BRT. Estamos colocando 80 pessoas dentro da estação do metrô para não terem que parar para comprar o bilhete da volta. Claro que nos dias de semana é mais confuso, mas sábado e domingo teremos problema zero. Certamente algumas coisas não vão dar certo. A gente vai aprendendo.

O Rock in Rio 2015 foi realizado num momento de otimismo na cidade, antes da Olimpíada. Agora o momento é de ressaca. O festival vai ajudar o Rio a sair da crise? 

Somos um oásis no meio de tanta notícia ruim, do Rio e do Brasil, econômica e política. A mídia está demais com o Rio. Em Nova York tem lixo, tem pichação, mendigo. Mas você fica encantado, porque venderam uma mágica de Nova York. Não tem por que o Rio estar vivendo essa crise: está mais bonito, mais barato. A bilheteria poderia estar estourando, a casa podia estar cheia. O Rio tem tudo, é um produto que vale mais R$ 25 bilhões do que antes (montante de investimentos na infraestrutura para a Olimpíada).

Como a crise do Rio afeta essa edição? 

O Rio tem 1,2 milhão de funcionários públicos. Quando eu percebi a crise com a falta de pagamento de salário, imaginei que fosse impactar. Então aumentei a propaganda em São Paulo e em Minas, que são os lugares que mais mandam pessoas. Resultado: antes o público era 60% do Rio, agora é 60% de fora. Estão vindo 350 mil pessoas. 

Por que fazer no Parque Olímpico, que estava sem uso desde a Olimpíada? 

Quis um evento muito maior. É a minha contribuição nesse cenário. Por isso vou fazer também um outro em outubro de 2018, o Zaytrons (para o público jovem), que será lançado (junto com o calendário de eventos) no dia 24 (último do Rock in Rio). Não adianta você ir bem, tem que ser numa cidade em que se valha a pena viver. Não é altruísmo meu. 

Apesar da crise, os ingressos, a R$ 455 a inteira, esgotaram-se rapidamente. Quem paga? 

As pessoas pagam parceladamente, e dessa vez aumentamos de seis para até oito vezes. Mas não é essa a questão: as pessoas têm uma relação de amor com o Rock in Rio, sentem que é delas.

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