Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Entre dois submundos

Em grupos como o Chicago e o São Paulo Underground, Rob Mazurek não é de seguir fórmulas

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo,

25 de novembro de 2011 | 21h24

A essência inquieta de Rob Mazurek, cornetista de contribuição prolífica à música instrumental brasileira, é ilustrada por seu constante desejo de destruição e renovação. "Nós desconstruímos canções do Cartola, adaptamos fragmentos de melodias de Caymmi, recombinamos pedaços de maracatu e outros ritmos brasileiros para criar algo interessante", explica o músico, sobre o seu trabalho com o São Paulo Underground, grupo ainda na ativa, que fundou nos tempos em que morou na Pauliceia. Mas mesmo que esteja sempre em busca de algo novo, esta ética vanguardista tem raízes sólidas na escola experimental de Chicago, onde Rob cresceu e aprendeu a tocar corneta, a prima mais educada do trompete (o timbre é mais suave).

Ecos de furacões criativos - desde o parto do blues elétrico à explosão do free jazz de Sun Ra e Art Ensemble of Chicago - ainda reverberavam na cena, dando cria ao post-rock (ou rock experimental) quando Rob virou uma das promessas do hard bop, gênero mais tradicional, protagonizado por Miles Davis (em sua fase pós-cool), Clifford Brown, Lee Morgan e Art Farmer. Quando percebeu que sua criatividade estava sendo sufocada pelos moldes clássicos, Rob juntou-se ao guitarrista Jeff Parker e fundou uma espécie de workshop musical batizado de Chicago Underground. "Na época em que era moleque, eu ouvia bastante Miles da fase Bitches Brew. Até hoje, acho que é um dos discos mais modernos já feitos. Mas depois que virei músico profissional, comecei a me ligar em coisas mais antigas. Só depois voltei ao free, à música eletrônica, à música de ruído", explica Rob, que hoje tem 45 anos.

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O coletivo tem uma série de formações -de duo, a trio, a quarteto- com a participação de Chad Taylor (bateria), Noel Kupersmith (baixo) e Jeff Parker, todos ativos na cena de Chicago. Quando se reuniram, a proposta era fazer música livre contemporânea, o que é muitas vezes associado à improvisação abstrata concebida por Ornette Coleman, John Coltrane e Cecil Taylor.

Mas as possibilidades verdadeiramente inovadoras na virada do século eram muito maiores. Sintetizadores tornavam-se essenciais ao arsenal de músicos; bandas de rock (cuja mais famosa é o Radiohead) flertavam com a abstração; o laptop dava os primeiros passos em direção à hegemonia sobre a produção musical. Como pode ser ouvido no excelente disco Chicago Underground Quartet, o resultado trabalha a produção, agregando beats eletrônicos, picotando sons gravados e construindo texturas na sala de mixagem - o que era novidade para um gênero que sempre primou pela espontaneidade. Havia margem para as rajadas sonoras da improvisação livre, mas a música inovava de uma forma curiosamente menos agressiva do que sempre se esperou da vanguarda, seja esta livre, atonal, ou concreta.

"Sempre digo aos meus companheiros que não existe razão para nos afastarmos de melodias e harmonias", explica Rob, referindo-se aos círculos xiitas da vanguarda. "Os elementos estão aqui para serem usados. Escuto de tudo. Acho muito bom o novo disco do Kanye, assim como as Variações Goldberg, de Bach. Até no pop e rádio, que é a música mais entediante e banal da atualidade, há elementos a serem desconstruídos e adaptados", completa.

Ao mesmo tempo em que se estabeleceu com o Chicago Underground, na segunda metade dos anos 90, Rob expandiu e colaborou com nomes lendários da cena de Chicago, como o irlandês Jim O’Rourke, que tocou com e produziu para o Sonic Youth, e o seminal grupo de post-rock Tortoise, influencia marcante no rock experimental de bandas como o Radiohead. Rob então casou-se com uma brasileira e foi parar em Manaus, depois Brasília. Começou a tocar com músicos de Belo Horizonte, onde conheceu Maurício Takara, baterista do Hurtmold. Veio então para São Paulo para formar com Takara e Guilherme Granado o São Paulo Underground. Desde então, separou-se da moça e vive em Chicago, mas continua em ebulição criativa. Só este ano, já lançou dois discos (o ótimo Double Demon, com o Starlicker, e Três Cabeças Loucuras, com o SP Underground). Lança esta semana o projeto Ekundayo com seus parceiros e Naná Vasconcelos.

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