Alex Silva|Estadão
Alex Silva|Estadão

Entre a canção e o rock, 'Est' tem a trilha sonora dos tempos nervosos

Disco é produto de um meio que tem trocado as melodias reconfortantes por sensações incômodas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2015 | 04h00

É a guitarra dos tempos tensos, dos sons que devem soar quando a última sirene tocar para que todos abandonem o prédio. Edgard Scandurra fazia os climas de Asas Irreais para deixar voar a voz livre de Silvia Tape quando veio o anúncio na redação do jornal: abandonem o prédio, tivemos uma ameaça de bomba! Descemos todos às pressas para a rua e Scandurra ficou solitário, soando no fone abandonado sobre a mesa do repórter como se fosse o escolhido para o fundo daquele clipe despovoado e apocalíptico, vivido e filmado em tempo real. Nenhuma bomba explodiu, mas sua música, sim. Ela é produto de um meio que tem trocado as melodias reconfortantes por sensações incômodas, que tem fugido do real para anestesiar o desespero dos limites e até mesmo, por que não, imprimido a eles certa doçura.

Scandurra seria mais agressivo, justiça seja feita, se sua guitarra áspera não parasse na seda de Silvia Tape. É graças a ela que todos descem as escadarias de emergência sem se atropelar. Sua voz de afinação precisa ocupar o espaço no ar como um instrumento, não como voz. É o canto dos climas mais do que das letras; do timbre e não dos vibratos. Como a guitarra de Scandurra, que não deixa rastros de solo, sua voz não traz poemas. É tudo, de novo, sensação. Ninguém cantará suas músicas depois de ouvi-las, mas poderá sair intrigado com o que experimentou.

A Sua Intuição, na abertura, tem guitarras e programações de ritmo que estarão sempre presentes. O Scandurra da banda Ira! não vai aparecer, exceto por uma maneira de pensar discursos quebrados, frases de digitação propositalmente nem sempre exata. Os solos, ou o que seriam eles, sobrevoam o território enquanto a voz de Silvia segue plácida, sem alterações de humor.

Num Instante Qualquer se aproximaria mais de um formato previsível do rock and roll se suas guitarras não seguissem descontroladamente saturadas de distorções até final, passando por um emaranhado de um solo disforme que Scandurra jamais fará igual por uma segunda vez.

O fofo de sua boa coleção é Bolhas de Sabão, quando toda uma proposta parece ruir. Aqui, a doçura de Silvia Tape, sem a agressão de Scandurra, cria uma canção que estaria melhor acomodada em um disco de Mallu Magalhães. Depois de tantos passos à frente, ele não poderia ceder a um folk tão inocente. Ou poderia, se resolvesse implodi-lo em algum instante.

É, no fim, a liberdade quem guia essa colisão de energias produzidas em algum lugar entre a doçura da canção e a indelicadeza do rock. Sons que podem andar também na mão contrária, combinando com a trilha sonora do alívio depois da tormenta, com o anúncio de que podemos voltar ao nosso trabalho, de que, por hoje, a bomba não explodiu.[ELA TEM][/ELA TEM]

 

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