Enterro de Jamelão é marcado por falta de celebridades

Maioria de estrelas que homenagearam o sambista passaram pela Mangueira na noite de ontem

Marcelo Auler, de O Estado de S.Paulo ,

15 de junho de 2008 | 15h02

Literalmente nos braços do povo, o compositor e cantor José Bispo Clementino dos Santos, o Jamelão, principal intérprete dos sambas-enredos da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira foi enterrado neste domingo, 15, no final da manhã, ao som da bateria da escola, no cemitério São Francisco Xavier, no bairro do Caju, zona portuária do Rio de Janeiro.   Veja também: Jamelão, cantor símbolo do carnaval carioca, morre aos 95 anos no Rio Imagens do sambista  Jamelão é o famoso intérprete da Mangueira há mais de 50 anos    O destaque na sua despedida foi a ausência de pessoas famosas. Entre as mais de 500 pessoas presentes, de conhecido estavam apenas o ator Milton Gonçalves, misturado com o chamado povão, e o também intérprete Neguinho da beija-flor.   Jamelão faleceu sábado de madrugada no Rio, de infecção generalizada. O governador Sérgio Cabral, que decretou luto oficial de três dias no estado, mandou uma das dezenas de coroas de flores. Cabral não conseguiu passar pela quadra da escola de samba onde foi feito o velório desde a noite de sábado, porque viajou para a Alemanha antes de o corpo chegar à Mangueira.   O presidente Lula enviou também uma coroa de flores. O ministro da Cultura em exercício, Juca Ferreira, além de coroa enviou uma nota lembrando que Jamelão foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural por sua contribuição para a cultura do país. Mas do prefeito César Maia, responsável direto pela administração do carnaval na cidade, não houve qualquer manifestação, segundo a assessoria da escola.   Alguns políticos como a ex-governadora Benedita da Silva e ex-deputados como Jandira Fegalhi estiveram no velório. A maior concentração de artistas ocorreu na noite de sábado, quando passaram, diante do caixão coberto com o estandarte da verde e rosa e a bandeira do Vasco da Gama, a cantora Rosemary, o sambista Zeca Pagodinho (que passou a tarde tomando cerveja na quadra), a sambista Beth Carvalho, o cantor portelense Monarco, Emílio Santiago, que cantou uma Ave Maria , Elimar Santos e a filha do ministro da Cultura, Preta Gil.   A cantora Alcione, outra mangueirense doente, esteve no sábado e no domingo no velório. Na noite de sábado, o padre Jorge André celebrou missa de corpo presente. Jamelão era considerado o maior intérprete não só dos sambas-enredo, mas também das músicas de Ari Barroso (sua gravação de Folha Morta é considerada imbatível) e de sambas-canções e das chamadas músicas de fossa do gaúcho Lupicínio Rodrigues. Mas foi com o famoso samba Exaltação à Mangueira ("Mangueira teu cenário é uma beleza, que a natureza criou...."), composição de Enéas Brites da Silva e Aloísio Augusto da Costa, que o corpo foi recebido no cemitério por populares que tremulavam bandeirolas da verde e rosa.   De São Paulo, oito representantes da escola de samba Vai-Vai, tendo à frente seu presidente Edmar Thobias, o Thobias da Vai-Vai, marcaram presença na despedida ao cantor e compositor. Diante do túmulo de Jamelão (carneiro 4329F da quadra 3) Thobias reverenciou o amigo e intérprete com um gesto que o próprio Jamelão fez ao entrar na quadra da Vai-Vai, há dois anos, para assistir sua posse: retirou o chapéu.   O caixão, levado em um caminhão do Corpo de Bombeiros no qual estavam estandartes de diferentes escolas de samba fluminenses (Salgueiro, Beija Flor, Imperatriz Leopoldinense, Porto das Pedras), antes de se dirigir ao cemitério passou pelo Sambódromo da Marquês de Sapucaí, passarela oficial do carnaval carioca, na qual Jamelão desfilou desde a inauguração, em 1984, até o seu último carnaval como intérprete oficial da escola, em 2005. O caminhão foi recebido na passarela ao som da bateria da escola.   A doença que afastou Jamelão da passarela aos poucos foi deixando-o desmemoriado e, com isto, poupou-o de assistir à última crise da escola, ocorrida no início do ano, quando veio à tona o envolvimento de sua antiga diretoria com traficantes da favela onde a agremiação foi criada. Com a crise, assumiu a presidência Eli Gonçalves, a Chininha, filha de outra mangueirense histórica, Dona Neuma. Ontem ela dizia que se o cantor "estivesse consciente e bem de saúde, iria brigar junto conosco, contra tudo isto que aconteceu".   Chininha explicava que o próprio Jamelão não aceitava virar tema de enredo da escola nos carnavais. "Então temos que respeitar este desejo dele, mas vamos fazer uma homenagem que é um hábito nosso", prometeu. O cantor Neguinho da Beija-Flor discorda. Classificando Jamelão como "nosso único", ele destacou a fidelidade do intérprete à escola, principalmente em uma época em que muitos dos chamados puxadores mudam de agremiação atraídos por salários mais altos.   Por tudo isto, ele defende que a própria Mangueira o transforme em tema do desfile do carnaval de 2010, uma vez que o próximo enredo já está escolhido. Alertado que o próprio era contra esta espécie de homenagem, Neguinho da Beija-Flor não se fez de rogado: "Ele era contra mas ele já não manda mais, quem sabe se deve ou não é o samba".

Tudo o que sabemos sobre:
MangueirasambaJamelão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.