Engenheiros do Hawaii renascem no "Acústico MTV"

Talvez nenhuma banda de rock brasileira tenha sido tão antipatizada e ridicularizada pela crítica quanto a gaúcha Engenheiros do Hawaii. De um lado, porque em plenos anos 80, aqui ainda cheios de ecos do punk, o trio encabeçado por Humberto Gessinger tinha (e tem) como referências mais imediatas Pink Floyd e Rush. De outro, porque o próprio Gessinger tinha (e tem) aversão a badalações, adotando um comportamento recluso e auto-suficiente mesmo nos oito anos em que morou no festeiro Rio de Janeiro.Os Engenheiros quase sempre eram descritos, na melhor das hipóteses, como uma curiosidade anacrônica, como um celacanto do Rio Guaíba. Durante os anos 90, Gessinger até radicalizou na sua extemporaneidade e fez coisas na linha arena rock. Contudo, como no universo pop o ?démodé? de ontem é o ?hype? de amanhã, o século 21 tem, até agora, valorizado o som dos anos 70 e 80, vide o ótimo grupo inglês The Darkness. Aquele som dito antiquado, portanto, voltou a fazer sentido na cabeça das pessoas.Bem como a repetição e a auto-referência, o problema com o tipo de som que Gessinger escolheu para boa parte dos últimos CDs da banda - aí incluído o mal disfarçado Humberto Gessinger Trio (1996) - é que arranjos equivocados não raro soterraram sua extrema habilidade na composição. Por isso, Acústico MTV Engenheiros do Hawaii (lançamento Universal), ajuda a lembrar a beleza de velhos sucessos, como Infinita Highway, Terra de Gigantes, A Revolta dos Dândis ou O Papa É Pop, e a enxergar a delicadeza de canções menos votadas. Uma baita obra de reengenharia.Gravado no Espaço Locall, de São Paulo, nos dias 18 e 19 de agosto, o CD conta com Gessinger (voz, violão, harmônica, bandolim e piano), Paulinho Galvão (violão), Fernando Aranha (violão e dobro), Bernardo Fonseca (baixo), Gláucio Ayala (bateria e vocais) e Humberto Barros (órgão Hammond e piano Wurlitzer), além de, em quatro faixas, um quarteto de cordas arranjado por Lincoln Olivetti. O resultado intimista obtido pelo produtor Paul Ralphes - um galês há anos radicado no Rio, de excelente trabalho com Kid Abelha e Cidade Negra, entre outros - realça o senso melódico do Gessinger compositor.Uma música que renasce neste Acústico MTV, por exemplo, é Vida Real, registrada sem brilho no supracitado Humberto Gessinger Trio. Emoldurado pelas cordas, agora Gessinger muda a ordem dos versos do original: ?Cai a noite sobre a minha indecisão/ Sobrevoa o inferno a minha timidez/ Um telefonema bastaria/ Passaria a limpo a vida inteira/ Cai a noite sem explicação, sem fazer a ligação/ Na hora da canção em que eles dizem ?baby?/ Eu não soube o que dizer/ Ah, vida real!? Isto é um bocado bonito.Bem bonita também fica Terra de Gigantes (do clássico álbum A Revolta dos Dândis, 1987), acoplada a Números (de 10.000 Destinos, 2000). O Hammond de Barros dá-lhes um toque melancólico. Ou, ainda, a gauchíssima Depois de Nós, canção originalmente gravada no disco Farinha do Mesmo Saco (2000), de Carlos Maltz, o baterista da formação clássica dos Engenheiros - o terceiro membro era o guitarrista Augusto Licks. Maltz divide os vocais de sua música com o anfitrião. E fica bonitinho Clara Gessinger, de 12 anos, cantando Pose (de Gessinger, Licks e Maltz, 1992).Acústico MTV Engenheiros do Hawaii traz duas músicas inéditas: Outras Freqüências e Armas Químicas e Poemas. Nela, ouve-se: ?Aonde leva esta loucura?/ Qual é a lógica do sistema?/ Onde estavam as armas químicas?/ O que diziam os poemas?/ Afinal de contas/ O que nos trouxe até aqui, medo ou coragem?/ Talvez nenhum dos dois.? O fato de elas já nascerem despidas de camadas progressivas ou hard-roqueiras talvez ajude Gessinger a identificar o seu próprio ponto forte: o cancioneiro agridoce.É ele que sempre mobilizou, e não apenas no Rio Grande do Sul, uma multidão de fãs realmente dedicados, como se formassem a torcida de um time pequeno, como se formassem uma seita religiosa. É com fervor que a platéia no Espaço Locall canta ?Eu vejo o horizonte trêmulo/ Eu tenho os olhos úmidos/ Eu posso estar completamente enganado/ Eu posso estar correndo pro lado errado/ Mas ?a dúvida é o preço da pureza? e é inútil ter certeza? (Infinita Highway, também de A Revolta dos Dândis). Esses são alguns dos melhores versos produzidos não só por Gessinger como por todo o BRock dos anos 80.

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