Encontro debate rumos da ópera

A discussão a respeito dainexistência de uma política cultural específica para a áreaoperística e o fim do desperdício das condições existentes parase produzir espetáculos do gênero como solução para a temporadados principais teatros foi a tônica do Encontro sobre a Ópera,debate realizado na quinta-feira, no Teatro Alfa, com aparticipação dos maestros Abel Rocha e Luiz Fernando Malheiro,dos jornalistas Nelson Kunze e Lauro Machado Coelho (mediador),dos diretores Aidan Lang e Jorge Takla e do pesquisador SérgioCasoy. O papel do Estado no fomento à produção operísticaesteve no centro da discussão. O maestro Abel Rocha chamouatenção para o fato de que é responsabilidade dos teatros,públicos ou não, formar novas platéias. No entanto, para ele,cabe ao Estado proporcionar acesso à ópera dentro de umaproposta cultural mais ampla. "Esse tipo de espetáculo não podeser considerado um simples evento, precisa estar inserido em umcontexto mais amplo, que inclui até mesmo a formação deprofissionais", disse. Para o jornalista Nelson Kunze, editor da revistaConcerto, o Estado precisa reafirmar seu compromisso com aópera, por meio de uma política cultural a longo prazo. Porém,para isso, em sua opinião é necessário, antes de tudo, umadiscussão maior a respeito da profissionalização da gestãopública. Em outras palavras, encontrar alternativas à estruturaobsoleta de grandes teatros como os municipais de Rio e SãoPaulo que "impedem um trabalho realizado a longo prazo". "Énecessário encontrar alternativas que, mesmo controladas pelopoder público, dêem liberdade aos teatros e os deixem menossujeitos a mudanças políticas." De modo unânime, a mesa debatedora ressaltou, no entanto, que a iniciativa privada deve ter seu papel no apoio à ópera.Luiz Fernando Malheiro, no entanto, acredita que, por meio dasleis de incentivo atuais, com a renúncia fiscal, criou-se umaestrutura na qual é dado à iniciativa privada o poder de decidiro que será feito com o dinheiro público. "Antes, precisávamoslidar com os políticos que eram colocados em cargos de direçãoem teatros, sem ter a menor idéia do que fazer e que interferemna programação artística. Agora há outra figura, a do diretor demarketing das empresas que, em grande parte, continuamacreditando - e perpetuam esta idéia - que a ópera é umespetáculo elitista e que investir nela não traz retornosuficiente", diz o maestro.Desperdício - A principal crítica feita aos teatrospúblicos do País, em especial de Rio e São Paulo, é a máutilização dos recursos disponíveis. "Orquestra, coro, técnicos enfim, o mais caro de qualquer espetáculo, está tudo pago",lembrou Malheiro. Sergio Casoy, assim como Abel Rocha, aponta comoalternativa uma estrutura de teatro de repertório. Nela, duranteum ano, novas produções aparecem na programação ao lado deoutras de anos anteriores, o que não apenas aumenta a oferta comgasto menor (e, conseqüentemente com ingressos mais baratos),mas também ajuda no processo de formação de público, dá vidamais longa a um produto no qual se investiu muito dinheiro, alémde dar mais chances a um número maior de cantores brasileiros. "A ópera precisa de duas coisas para acontecer: público que cresce cada vez mais na cidade, e cantores, que temos emgrande quantidade. A questão é dar acesso e trabalho a essagente, guardar produções e não jogá-las fora como é de praxe noPaís, criar, aos poucos, uma tradição que deixa os teatros menossujeitos às mudanças de governo", disse Casoy. Dentro dessetema, Aidan Lang acredita que o fundamental é que os teatrosestejam sempre em movimento, os corpos estáveis trabalhando e seaperfeiçoando. Outra sugestão levantada foi a circulação deproduções pelo País, além da co-produção de óperas, o quepossibilitaria a divisão de gastos entre teatros. Estrutura - Para que tudo isso possa acontecer, noentanto, é necessário que exista, na opinião dos debatedores, umplanejamento que possibilite um trabalho contínuo, umaprogramação garantida com antecedência. E que também facilite aresolução de problemas estruturais como, por exemplo, ainexistência de contratos artísticos. "No Brasil, não se encarao artista como um profissional. Este ano, no Rio, quando toda aprogramação foi cancelada, não houve prejuízos financeiros, poisnão havia contratos assinados, todos os acertos eram apenasverbais. No entanto, para o cantor que separou uma data de suaagenda para determinado espetáculo, isso significa um período degrande instabilidade", afirmou Malheiro.

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