JUAN GUERRA /ESTADÃO
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Enciclopédia com alma, Zé Nogueira foi um tipo de ser humano que não se fabrica mais

Produtor da Rádio Eldorado desde 1976, Zé morreu aos 89 anos, depois de vencer sua maior batalha

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 18h32

Aos 89 anos, Zé Nogueira preservava o espírito dos garotos. Seus olhos azuis estavam sempre vivos, ilustrando as lembranças e abrindo mais conforme entregavam-se à emoção das próprias narrativas. E elas eram ricas, feitas com precisão de fatos e detalhes. Zé havia passado por muitas histórias, ou muitas histórias passavam por ele, e quem estava a seu lado apenas ouvindo-as era submetido a dois sentimentos quase antagônicos que chegavam um após o outro: sua elegância nos fazia sentir especiais e sua paixão pela vida nos apequenava a ponto de perguntarmos que vida mesmo estávamos levando.

José Nogueira Neto, produtor de programas da Rádio Eldorado desde 1976, morreu de tanto viver na passagem de quarta para quinta-feira, de falência múltipla dos órgãos, no Hospital São Luiz, onde estava internado. Suas produções são inúmeras e entraram para o histórico no radiojornalismo, como o programa Jam Session, que tinha Jô Soares como apresentador por sete anos, Galeria, Grandes Encontros e Som Brasileiro. “Trabalhar com Zé era uma festa”, disse Jô Soares na tarde dessa quinta à Rádio Eldorado, que prestou uma comovente homenagem ao produtor com depoimentos de grandes nomes da música. Ao lado de João Lara Mesquita, ajudou ainda a erguer o mais importante prêmio musical desde o fim da Era dos Festivais, o Prêmio Visa, que revelou cantores, compositores e instrumentistas entre 1998 e 2006.

Zé era respeitado por tudo isso, mas nenhuma de suas credenciais pareciam valer mais do que algo que o circulava como uma aura, atraindo quem estivesse por perto. Há até pouco tempo, Paulinho da Viola vinha do Rio para jogar bilhar uma vez por semana com a turma do Zé e Chico Buarque o recebia para o futebol entre amigos. Imortais apenas por acaso, não por critério de amizades. Quando comecei no jornalismo, há 22 anos, nem meu editor sabia meu nome quando o telefone tocou. Era Zé Nogueira me convidando para ser um dos jurados do Prêmio Visa e me tranquilizando, dizendo que me apresentaria aos outros. E um dos outros era apenas o maestro Nelson Ayres.

Apaixonado por livros, cinema, vinhos e música, Zé colecionou histórias que dariam biografias desde os anos em que começou a vida com discos debaixo do braço, quando os vendia de loja em loja em nome da gravadora CBS. Mais tarde, se tornou programador de shows da antológica boate 150 Night Club, do Hotel Maksoud Plaza, quando esteve perto de Ray Charles, Ella Fitzgerald e do amigo da vida toda, Miele. “Ele saiu com Muhammad Ali pela noite de São Paulo em seu fusquinha”, lembra o amigo Murilo Pontes, do Selo Eldorado. Fui procurá-lo para fazer a biografia de Elis Regina e acabei premiado com uma história saborosa. Zé Nogueira era amigo de Ronaldo Bôscoli, então marido de Elis Regina em um casamento incendiado pelo uísque que Bôscoli bebia logo no café da manhã.

Numa noite em que a mulher estava em São Paulo, Bôscoli chamou Zé Nogueira para tomar umas e outras em casa. A hora passou, ninguém viu, e Zé, já nas alturas, resolveu dormir ali mesmo. No meio da noite, Bôscoli teve medo de ficar sozinho no quarto – ele tinha essas manias – e chamou o amigo para conversarem um pouco mais ali na cama, sem maldade. Zé acabou dormindo ao lado de Ronaldo e Elis chegou de manhã sem avisar. “Pô, Ronaldo, então você tá me traindo com esse aí?” E tocou Zé de casa. 

Na última vez em que vi Zé Nogueira, ele estava saindo do prédio do Estadão em uma cadeira de rodas, sendo empurrado por um rapaz bem jovem. Falamos rapidamente, disfarcei minha tristeza e ele encheu os olhos d’água por qualquer bobagem que lembramos. Subi para a redação de coração apertado, lembrando do quanto Zé havia lutado nos últimos anos para curar o filho mais novo, abatido por uma leucemia. Foram os únicos dias em que vi o azul de seus olhos opacos. “Como vai o filhão, Zé?”. “Ah, é difícil”, dizia.

Zé emagreceu e seus olhos se afundaram como se ele estivesse oferecendo tudo em troca daquela vida. Ao entrevistar algumas pessoas para fazer esse texto, soube que o menino que empurrava Zé era seu filho, curado depois de um transplante de medula óssea. Zé, danado, só foi embora depois de vencer sua maior batalha.

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