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Emmanuel Pahud e sua grande volta ao mundo

Primeiro flauta da Filarmônica de Berlim percorre a produção mundial para seu instrumento no CD 'Around the World'

João Marcos Coelho, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2014 | 02h04

"Existe um instrumento mais adequado para se dar a volta ao mundo do que uma flauta?", pergunta-se o flautista Emmanuel Pahud no folheto interno do CD Around the World (download em iTunes Brasil por U$S 10,99) recentemente lançado no mercado internacional pela Warner, que depois de muita turbulência voltou a ciscar na música clássica. Nascido em Genebra, 43 anos atrás, de pai franco-suíço e mãe francesa, ele foi um globe-trotter desde criança, por causa da carreira do pai: morou com a família no Rio de Janeiro, Buenos Aires, Genebra, Bagdá, Damasco, Paris, Madri, Roma e Bruxelas. Já fixado em Paris, estudou com Aurèle Nicolet, um dos grandes deste instrumento.

Pahud, porém, não argumenta apenas com a portabilidade da flauta, mas porque ela é historicamente pioneira (as primeiras, de 40.000 anos atrás, eram de ossos). "Em qualquer lugar em que as pessoas tentaram expressar comunhão com seus deuses, em cada lugar onde amaram ou lamentaram seu sofrimento, elas tocaram a flauta, o primeiro instrumento melódico da humanidade, ao lado de dois outros pioneiros, as primeiras versões dos violões/violas de cordas de tripas de animais e os instrumentos de percussão. A flauta é prova de que todas as pessoas - no mundo inteiro - reconhecem a música como parte da existência humana."

Ele termina reconhecendo que o repertório variadíssimo do CD é uma espécie de "trilha sonora da minha vida". Belo depoimento do virtuose que tocou em 2013 na Sala São Paulo e há 21 anos é primeiro flauta da Filarmônica de Berlim. Ele já gravou o repertório convencional. Daí, a vontade de fazer a volta ao mundo, levando o violonista francês Christian Rivet como parceiro, que deve ter coincidido com o desejo da Warner, ansiosa para potencializar a vendagem da gravação.

A viagem sem preconceitos começa com as danças romenas de Bela Bartók e passa pelo guru indiano Ravi Shankar e o gênio barroco Haendel. Excelente sua atitude de incluir criadores contemporâneos eruditos como Elliott Carter (sensacional sua execução-solo da dificílima Scrivo in Vento, inspirada num soneto de Petrarca).

A América do Sul comparece com Distribuição de Flores, de Villa-Lobos, mas o maior destaque é A História do Tango, de Piazzolla ("Ele me ensinou que você não precisa escrever em tonalidade menor para expressar tristeza; no Café, por exemplo, ele pede que se toque 'tristemente', mas o tom é maior"). Bonitas as duas folksongs do contemporâneo japonês Toshio Hosokawa. "Como nunca estive na África", confessa Pahud, "deixei para Christian Rivet solar a peça Tiento, de Maurice Ohana".

Coincidência. Ohana é um perfeito cidadão do mundo. Nasceu em 1913 em Casablanca, no Marrocos, de pai britânico de origem sefardita andaluza; estudou na Itália com Casella e fixou-se em Paris a partir de 1946 até sua morte em 1992. Merece estar neste caleidoscópico 'around the world'.

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