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Eminem vai ao fundo do poço e volta intacto

No álbum 'Recovery', músico de 38 anos examina a própria condição de caído

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2010 | 06h00

Durante anos, Eminem (ou Marshall Mathers, ou Slim Shady) surfou no topo do rap falando exclusivamente de seus problemas com sua mãe e com a ex-mulher. Toques cruéis de misoginia e homofobia o guindaram à posição de garoto-enxaqueca mais amado do rap, mas aí veio o declínio, e Eminem foi fazendo um disco ruim atrás do outro.

 

Até que, em junho deste ano, ele lançou Recovery (Aftermath/Interscope Records), um exame de sua própria condição de anjo caído do show biz. A queda fez bem a Eminem, e a consciência da queda o ressuscitou. Em canções como Talkin’ To Myself, por exemplo, ele revela sua própria insegurança e admite que teve inveja do brilho de rappers como Lil Wayne e Kanye West, que o sucederam no Olimpo do pop americano.

 

É esse renascido Eminem que chega hoje pela primeira vez ao Brasil, 11 anos após seu estouro nos Estados Unidos com Slim Shady LP. No início chamado de "Elvis do hip-hop", o primeiro garoto branco desde os Beastie Boys a chegar ao topo do gênero, Marshall Bruce Mathers 3.º está com 38 anos (nasceu em 17 de outubro de 1972 num subúrbio de Kansas City) e parece estar chegando à maturidade. Entre seus feitos, está o de ter faturado um Oscar de melhor canção pela música Lose Yourself, da trilha de 8 Mile - Rua das Ilusões, em 2003.

 

Pupilo de Dr. Dre, Eminem foi um dos raros artistas de hip-hop a explorarem a tríade violência-sexo-boca suja a ter, apesar disso, reconhecimento da indústria de entretenimento americana, sendo indicado consecutivamente para o Grammy. Os próprios contemporâneos o saudaram. "Nós quase deixamos o rap morrer até que veio o Grande Hype Branco (Eminem) para salvar o hip-hop e 50 Cent fez uma ligação direta para despertar o gangsta", disse o rapper The Game.

 

No ano passado, Eminem tentou recuperar aquela confiança, lançando Relapse, seu primeiro disco com material novo em cinco anos, mas de novo não foi levado mais a sério. O público, no entanto, entendeu rápido que Recovery era um novo e lancinante autoexame, e o disco vendeu de cara 3 milhões de cópias, segundo a Nielsen SoundScan - só saiu do topo das paradas há alguns dias, desbancado pela adocicada Taylor Swift.

 

Os motivos são canções de "ganchos" irrepreensíveis, como Going Through Changes, na qual ele admite precisar de ajuda para largar alguns de seus vícios mais inconfessáveis (ok, todo mundo sabe: valium, methadona, vicotim); Space Bound, que trata de solidão e isolamento e do medo de assumir novos compromissos; e 25 to Life, que usa a metáfora do relacionamento com uma mulher para falar de sua vida no hip-hop; ou ainda You’re Never Over, um tributo ao velho amigo perdido, Proof (assassinado em 2006 durante briga na boate CCC, em Detroit).

 

A morte, que ronda sua turma e suas referências, assusta o antes temerário Eminem. Reportagem da revista Vibe (que o trouxe na capa de setembro ao lado de Dr. Dre, ambos vestidos como médicos) dá conta dessa nova condição. Ele falou, por exemplo, da morte da atriz Brittany Murphy, com quem contracenou em Rua das Ilusões. "Éramos muito próximos e ela era uma pessoa muito bacana. Pessoas famosas estão se dopando em doses alarmantes e isso é louco, parece um anúncio comercial", disse. Uma miríade de novos sentimentos, nenhum deles fundado na arrogância e na falsa autossuficiência, trouxe o mito Eminem de volta à vulnerabilidade da vida cotidiana.

 

Eminem - Jockey Club. Hipódromo. Avenida Lineu de Paula Machado, 1.263, Morumbi, telefone 4003-1212. Sexta, 22h30. R$ 150/R$ 500.D

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