Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Emicida e Rael e os portugueses Capicua e Valete se unem em disco

Musicalidade dos dois países dialoga fácil, como é possível ouvir nos versos de Língua Franca

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 19h44

São 10 milhões de pessoas em Portugal. Só em São Paulo, a cidade, são pouco mais de 12 milhões. A diferença populacional é gigantesca, como é enorme a distância entre Brasil e o país europeu. Há o Oceano Atlântico entre nós. A língua, o português, é a mesma, embora elas tenham evoluído para lados distintos desde o 1500 e não seja tão fácil entender o português usado pelos dois lados. Portugal e Brasil se juntam mais uma vez, agora, por quatro rappers, dois de cada país. Assim nasce o projeto Língua Franca, cujo disco de mesmo nome mostra como a dialética do hip-hop de pontos tão distantes no globo pode ser a mesma. A língua é a mesma, afinal, e a experiência de vida é surpreendentemente similar. É o que garantem os rappers brasileiros Emicida e Rael e os portugueses Capicua e Valete, no trabalho lançado recentemente em uma parceria com gravadora Sony Music.

 

A musicalidade dos dois países dialoga fácil, como é possível ouvir nos versos de Língua Franca, o álbum. Um disco arrojado de rap, que abraça outras sonoridades e apresenta a vivência compartilhada pelos quatro rappers, mesmo com a distância geográfica. “Temos muito em comum”, avalia Capicua, a única mulher do quarteto, nascida na cidade portuguesa do Porto. “Seguimos uma mesma direção. Temos as mesmas referências, influências. O hip-hop está na nossa origem. E fazemos um rap bem próximo”, completa.

A rapper, que veio ao Brasil pela primeira vez em 2014, vê semelhança entre o rap produzido nos dois países por conta da desilusão com a vida contemporânea e o ambiente hostil da periferia. É esse sentimento que une Brasil e Portugal. “Temos, na nossa música, a mesma consciência. Falamos, nós quatro nos nossos trabalhos, a respeito de coisas universais, do que é importante, de política, do que está ao nosso redor, do que é geral, como a moda, a vida, o amor”, diz. “Temos os quatro a perspectiva de que o rap é bom quando ele entende onde está. Temos orgulho disso.”

Língua Franca nasceu das viagens de Emicida pelo continente europeu. Em conversas com o irmão dele, o empresário e músico Evandro Fióti, o rapper falava da vontade de conectar mais as culturas lusófonas em torno da música. O disco mais recente do paulistano, chamado Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, de dois anos atrás, flertava com a ideia. Viajou (sempre com Fiótti ao seu lado) a Angola e Cabo Verde em busca da ancestralidade africana. A ideia de Língua Franca já estava estabelecida nos planos também.

 

Foi o irmão de Emicida o organizador do projeto. Ligou para Rael para chamá-lo para o projeto. “Aceitei na hora”, conta o rapper dono de um dos mais plurais discos de rap do ano passado, Coisas do Meu Imaginário. Fióti também entrou em contato com Valete, o português já conhecido da dupla de irmãos nascidos e criados na zona norte de São Paulo. Capicua havia chamado Emicida para abrir uma apresentação dela em Portugal. “Ficamos amigos para sempre”, diz o rapper. 

Quando desembarcaram em Lisboa, capital portuguesa, para gravar o disco, Emicida e Rael traziam consigo a base das 10 músicas, feita pelos produtores Nave, Kassin e o português Fred Ferreira. A dezena de músicas foi trabalhada em um período curto, dez dias. Com a média de uma música composta e gravada por dia no estúdio, o processo seguiu quase fordista. Cada rapper se dedicou a uma estrofe. “Enquanto um gravava um trecho, outro compunha outro”, conta Rael. “Foi como ir à academia”, brinca Emicida. 

Língua Franca se deita em temas universais, como explica Capicua. A Chapa É Quente!, um debate sobre a violência amparado sobre as batidas do funk carioca, é a única música realizada apenas pelos rappers brasileiros. O restante das canções explora as conexões entre os dois países. Egotrip, um rap mais duro, expõe as diferenças e proximidades entre o português brasileiro e o de Portugal nos versos falados. O flow de cada um, seu emprego das palavras nas batidas, difere, mas não é de todo estranho. Os refrãos cantados por Rael, espalhados pelo disco, batem o pé no flerte do rap contemporâneo brasileiro com harmonias mais melódicas de vozes e funcionam complementares à forma tradicional que segue o rap português - a música Modo de Voo é um bom exemplo para mostrar como isso funciona.

 

“Tenho o desejo de ver esse projeto como algo a inspirar mais pessoas a criar essa conexão. Acho perigoso o Brasil exportar a arte, a cultura, mas não se comunicar com países irmãos”, diz Emicida. Ao fim de 10 músicas, o quarteto mostra uma saída para encurtar a distância entre os dois países. Os pouco mais de 7 mil quilômetros entre um e outro não parecem tão grandes assim. “Estamos erguendo uma ponte entre os dois países”, reflete Capicua. 

LÍNGUA FRANCA

Emicida, Rael, Capicua e Valete

Sony Music; R$ 29,90 e plataformas digitais

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