Emicida busca pelas raízes africanas em segundo disco

Emicida busca pelas raízes africanas em segundo disco

Em uma década, Emicida saiu das rinhas de MCs para se tornar um grande nome do rap brasileiro

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2015 | 03h00

A escada espremida, com o teto baixo e quase claustrofóbica, marcava a entrada do primeiro endereço do Laboratório Fantasma, escritório, selo e produtora de Emicida. Era uma portinha escondida entre uma rua de comércio na zona norte de São Paulo. Lá em cima, na “bagunça organizada”, o rapper crescia vendendo suas mixtapes e EPs, marcava shows, recebia eventuais jornalistas interessados naquela figura da cultura hip-hop paulistana. 

O endereço do escritório mudou duas vezes até a nova casa, mais aconchegante, que abriga agora o já reconhecido selo formado pelos irmãos Evandro Fióti e Leandro (nome do rapper esquecido diante da popularidade do apelido recebido nas rinhas de MC’s). “Aqui, dá até para abrir os braços”, brinca Emicida sobre o imóvel, também localizado na zona norte da cidade. 

Emicida gosta de criar raízes. As mudanças, explicou ele, são em busca por espaço. Os negócios cresceram e, por isso, a mudança. Mantém, contudo, sua história por perto. Amigos de infância apareciam no meio da tarde no primeiro Laboratório e o fazem agora. Gosta de comer na mesma pastelaria de feira de rua de antes e visitar os parceiros. “Se não consigo, é porque estamos viajando. Tem gente que brinca e diz que estou ‘muito artista’, mas é brincadeira. Essas pessoas que estão ao meu redor ficam contentes com o sucesso porque todos contribuíram para isso. É algo que alegra a gente, sabe?”

Lançando o segundo disco de estúdio – mas sexto trabalho, mixtapes e EPs forem contabilizados –, o rapper paulistano comemora dez anos de carreira em 2015 com um enorme sorriso no rosto. Com ele, aliás, não existe a tal “cara feia”, não. Assim como o que ocorre com o álbum Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, cujas texturas também ousam na ideia de combater a sisudez musical do gênero. 

Emicida não esquece das raízes, da infância pobre à ancestralidade afrodescendente. Para o novo trabalho, foi a Cabo Verde e Angola nessa procura voraz pelas referências e encorpou a pesquisa musical já antiga. “Sempre alimentei esse sonho de viajar, mas não achei que conseguiria tão rápido”, conta ele, devidamente esticado em um espaçoso sofá do recém-inaugurado novo endereço do Laboratório Fantasma. “É ótimo ter espaço, pela primeira vez.”

Busca pelas raízes

“Nesse disco, eu vou longe na cantoria. Talvez até longe demais.” Emicida brinca com a experimentação vocal que promove no segundo álbum de estúdio da carreira, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa. Trata-se, sem dúvida, do trabalho mais ousado da carreira do rapper e o canto, no fim, é apenas uma das várias liberdades tomadas pelo músico ao longo de uma década de carreira. 

O trabalho foi impulsionado (e inspirado) por uma viagem a Cabo Verde e Angola, realizada com o patrocínio do projeto Natura Musical. Vinte dias divididos nos dois países africanos, conta ele, não foram suficientes para a imersão total. Há, contudo, aqui e ali, as referências das passagens pela cidade cabo-verdiana Praia e a angolana Luanda, realizadas em março deste ano. Músicos locais participaram das canções, atuando sob a direção de Emicida e de Xuxa Levy, produtor musical do trabalho. 

Canções como Mãe, responsável por abrir o trabalho, por sua vez, só existiram depois que Emicida e a turma (eram quatro, no total) chegaram ao continente africano. “Queria escrever algo que desenhasse essa ideia de maternidade, mas não sabia direito o formato disso. No meio da viagem, conversando com um amigo de São Paulo, veio tudo. Seria um piano simples. Minha ideia sempre foi abrir o disco com essa metáfora da África como o continente mãe de toda a humanidade. Ao mesmo tempo, ligar ao início da vida de qualquer um de nós. Essa é a nossa vida. Nascemos, deixamos a nossa família, criamos a nossa vida própria e, ao mesmo tempo, temos saudade daquilo que deixamos para trás. É o que acontece com a África.” 

São dez anos de carreira, com o segundo álbum da carreira, Emicida definitivamente mostra que rompeu a barreira do underground de onde seu rap veio e estoura para o mundo. O disco será distribuído em uma parceria com uma grande gravadora, a Sony Music, que atuará ao lado do Laboratório Fantasma, e levará o álbum até Portugal. “Já mantemos uma conversa com a gravadora há três anos”, conta Emicida. “Fomos em um passinho de formiga, focando na construção do Laboratório a ponto de termos a liberdade que existe hoje, a ponto de fazer uma parceria de igual para igual com uma major.” 

Para Emicida, o ano de 2011 foi fundamental para o rompimento da bolha que separava o hip-hop do mainstream. Depois da performance no gigantesco festival norte-americano Coachella, quando ainda nem sequer tinha um disco de estúdio lançado, o rapper se tornou figura frequente de eventos de música pelo País e criou-se uma expectativa para o seu primeiro álbum, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, lançado dois anos depois. 

A estreia do novo disco, veja só, está programada para os dias 21, 22 e 23 deste mês, no teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, e aponta para a própria atitude musical adotada pelo rapper ao longo dessas experimentações sonoras. “Eu não tive a oportunidade de estudar música na infância. Só consegui fazer isso agora, quando comecei a estudar canto”, conta ainda Emicida. 

No álbum, o single Passarinhos é cantado por ele e Vanessa da Mata. E não é a única música a adotar a canção como seu epicentro. Baiana, que tem participação de Caetano Veloso, é outra na qual Emicida desenha as harmonias vocais e foge do rap tradicional. “Comecei a levar essas melodias de forma mais séria no (EP) Doozicabraba e a Revolução Silenciosa. Ali, os refrãos já estavam mais melódicos”, analisa. 

O álbum também traz canções com o rap de raiz, caso de Boa Esperança, também escolhida para single e transformada em videoclipe. É um rap de força, raivoso. No vídeo, um grupo de empregados maltratados pelos empregadores os fazem de refém. “Tomamos cuidado para que não virasse uma caricatura”, explica ele. No vídeo, a única agressão física é quando uma das empregadoras recebe uma torta no rosto. “Se fizéssemos algo dos tempos da escravidão, com disputa entre senzala e casa grande, as pessoas pensariam só: ‘Ah, na escravidão era assim’. Não, o maior problema do Brasil, hoje, é o racismo.” O preconceito está em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa em todos os momentos e conduz versos, ora doces, ora azedos. 

O rapper se torna, aos poucos, um porta-voz do movimento. “Precisamos nos tornar uma sociedade igualitária”, pede ele. Seu discurso contra a redução da maioridade penal durante a Virada Cultural de 2015 repercutiu nas redes sociais. Também defende as ciclovias criadas pela Prefeitura de São Paulo: “É um absurdo pensar que a implementação de uma ciclovia desperte uma onda de ódio tão grande quanto essa”. 

Emicida saiu de São Paulo, sua cidade natal, para ganhar uma nova perspectiva para o disco. Atravessou um oceano e, no fim, entrega um álbum tão ou mais paulistano que o anterior. “A cidade me inspira”, diz ele. “O que eu faço é tentar manter os olhos limpos e encontrar histórias para continuar contando. Encontrar meus amigos, comer pastel. Não sou um cantor, sou um contador de histórias.”

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