Em visita ao Brasil, Sasu Ripatti fala de seu novo álbum, 'Visa'

Finlandês apresentou sua música ambiente no 4º Festival Novas Frequências

Rafael Abreu, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2014 | 09h29

Sasu Ripatti teve uma série de pseudônimos durante seus 20 anos de carreira como músico. Foi o nome escrito em seu passaporte, no entanto, que recebeu a rejeição de um visto para entrar nos Estados Unidos para uma turnê no início do ano. Sem nenhuma justificativa para a recusa e com muito tempo livre, o finlandês - que já assinou lançamentos de música eletrônica como Ripatti, Luomo, Vladislav Delay e Sistol, entre outras alcunhas - decidiu fazer seu primeiro álbum de música ambiente em dez anos. Ripatti teve uma produção extensa desde então, mas parou de fazer esse tipo de música tanto por preciosismo quanto por falta de inspiração. “Eu sentia que eu não tinha nada mais a dizer. Eu gosto de levar as coisas além, e de alguma maneira eu sinto que isso é mais difícil de fazer com música ambiente, talvez porque eu me importe mais com o gênero, ou porque é o tipo de música que eu mais gosto, ou porque é algo mais próximo ao Jazz, que é a minha origem”, explica.

Ripatti passou as duas semanas livres que ganhou ao ser barrado de entrar nos EUA mexendo em gravações antigas. Sem ter se planejado, acabou produzindo despretensiosamente, sem muito propósito. Ao fim do período, terminaria Visa, seu último disco como Vladislav Delay, lançado em novembro (ouça abaixo) por seu próprio selo, Ripatti. O resultado é um mar de eletronismos, drones metálicos e batidas enterradas e incertas em composições em sua maioria longas (a primeira faixa do disco tem mais de 20 minutos). E foi baseado nesse trabalho que fez uma de suas apresentações no 4º Festival Novas Frequências, evento de música experimental realizado no Rio até o último domingo (14). No sábado (13), no palco do Oi Futuro Ipanema, Ripatti, um homem loiro, magro e quieto de trinta e tantos anos, manipulava um aparato do qual saíam batidas irregulares, metálicas e austeras que eventualmente se uniam em nuvens de barulho eletrônico. Enquanto ele balançava ao som dos ritmos irregulares que tocava, alguns graves eram tão fortes que faziam o teto e as cadeiras do teatro tremerem, o que fez da apresentação de quase uma hora um espetáculo sonoro irregular, mas impressionante.

A força e a audácia da música de Ripatti, no entanto, são o oposto de sua personalidade, reservada e avessa ao contato com o público. “Eu não gosto de popularidade ou o holofote. Mas eu não faço música comercial, então é bastante fácil nesse sentido”, afirma. Ele se diz tímido, mais propenso ao trabalho no estúdio na ilha finlandesa com pouco mais de mil habitantes onde mora com a mulher e a filha. “Quando estou na frente do público eu nunca olho para a platéia. Acho que a música é o suficiente pra mim. Então eu tento bloquear essa parte da experiência. Pode ser legal tocar, mas prefiro focar no trabalho de estúdio”, esclarece.

O temperamento um tanto solitário o levou a se mudar de Berlim, famosa pela vida noturna e pela cena de house e techno. Mas a recente popularização dos gêneros, com artistas tão distintos quanto Disclosure ou Skrillex tendo algum tipo de sucesso mainstream, segundo ele, parece ter feito mais mal do que bem. “Eu vejo essa comercialização da música, a transformação dela em uma commodity, e eu acho isso muito triste, muito superficial. Eu não quero ser negativo, mas, para mim, música não é como um chiclete que você mastiga e joga fora. Eu vivo de maneira muito remota e eu tenho meu próprio estúdio. Eu fico feliz de poder me isolar desse tipo de música. Se eu não tenho esse fluxo constante de informação entrando na minha cabeça eu me sinto mais livre para fazer o que eu quero”, afirma.

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