Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Em seu terceiro álbum solo, César Lacerda repensa o indie e segue pela rota do pop

Em 'Tudo Tudo Tudo Tudo', o cantor e o compositor regrava Pitty e diz querer chegar ao grande público

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2017 | 06h02

Conhecida por suas serenatas, a cidade de Diamantina, no interior de Minas, não ficou imune à moda do pagode no meio dos anos 1990. O ritmo chegava aos ouvidos de César Lacerda pela televisão, entre uma e outra brincadeira de criança na rua. Pouco importava para ele qualquer juízo de valor sobre aquele tipo de música. Era simplesmente o que tocava. E soava bonito. 

+++ César Lacerda se norteia com 'Me Adora', da Pitty, e encontra a beleza na cura de dores de amor

Depois de se mudar para o Rio, o cantor e compositor viu de perto como Arlindo Cruz, Dudu Nobre e Xande de Pilares aproximavam o pagode da sofisticação. César não tinha a intenção de se tornar um sambista, mas a mistura do refinado com o popular aguçou seus sentidos. Depois de dois álbuns solo e um dividido com Romulo Fróes, ele incorpora essa síntese em Tudo Tudo Tudo Tudo.

Morando em São Paulo há um ano e meio, César concebeu o disco, produzido por Elisio Freitas, ao lado do diretor artístico Marcus Preto. Ele reconhece que seus trabalhos anteriores tiveram repercussão restrita ao que chama de “a bolha”, pessoas ligadas à cena independente. O artista concluiu que certos aspectos sonoros e estéticos adotados por seus contemporâneos eram incompatíveis com sua aspiração de chegar ao grande público.

“Houve um interesse da minha geração de fazer música para menos gente”, ressalta. “Isso se tornou um problema, porque é uma geração talentosíssima que não consegue romper essa bolha. O mundo indie supõe que o pop é alienado. Muito pelo contrário, é mais possível perceber essa alienação no indie por ele estar na sua própria bolha do que na linguagem popular. E a minha tentativa não é de rompimento, mas de integração.” 

Tudo Tudo Tudo Tudo é influenciado por nomes que fizeram da música radiofônica um veículo para mostrar ideias e conceitos. César cita Adriana Calcanhotto, Herbert Vianna e Marina Lima como expoentes dessa forma de criação. Tiago Iorc e a dupla Anavitória, artistas representativos do atual pop brasileiro, também são vistos com bons olhos pelo compositor, que fez do rock Me Adora, de Pitty, o ponto de partida de seu novo disco. 

César utiliza em sua primeira incursão como intérprete apenas seu violão e flautas, tornando evidente o que parecia escondido. “É curioso, muita gente tem dito que pela primeira vez reparou na beleza e profundidade da letra.” Sua versão gerou um videoclipe, o que também pode acontecer com Quando Alguém, gravada ao lado de Maria Gadú, a quem aponta como a grande cantora de sua geração.

Tudo Tudo Tudo Tudo é um disco amoroso mesmo nas adversidades. É o que já se mostra no início, com a singela Isso Também Vai Passar, da qual saiu o título do disco. César conta que os momentos bonitos, assim como os terríveis, passam, e cita Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, ainda modelo perfeito de canção pop brasileira. Já a influência do pagode está presente pelo filtro do samba de roda. Moldada com viola caipira, violão de sete cordas, clarinete e percussão, O Marrom da Sua Cor tem letra que poderia ser cantada pelo Art Popular ou Negritude Júnior. 

A parceria com Romulo também se faz presente no álbum. A inclusão de Por Um Segundo, sobre um encontro entre dois rapazes durante uma manifestação, transcende o lado político e romântico da música, que foi feita como encomenda para Paulo Miklos gravar em A Gente Mora No Agora e acabou não sendo aproveitada. “Ter uma música com Romulo, uma das principais figuras da atual vanguarda paulistana, em um disco que dialoga com pop, sertanejo, ‘fofolk’ e canção sofisticada reafirma a necessidade de que Tom Jobim, Gusttavo Lima e Romulo ocupem o mesmo lugar”, afirma César, que diz ter feito um disco provocador no discurso, mas, acima de tudo, terno na realização. 

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