REUTERS/Mike Blake
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Em segundo álbum, Billie Eilish assume novas ansiedades e adversários

Fenômeno pop de 19 anos debate o quanto deve revelar de si mesma em 'Happier Than Ever'

Lindsay Zoladz, The New York Times

04 de agosto de 2021 | 10h00

Billie Eilish tem uma voz cheia de segredos. É conhecida por raramente aumentar seu volume mais alto do que um sussurro de ASMR, mas também há uma certa sabedoria provocadora em seu tom. Veja, por exemplo, o “duh” fulminante que pontua seu grande sucesso Bad Guy - se você ainda não entendeu, ela parece estar dizendo, com um revirar de olhos bastante audível, que nunca vai contar.

Assim como seu idiossincrático senso para a moda, o primeiro álbum de Eilish, When All Fall Asleep, Where Do We Go?, que fez enorme sucesso a partir de 2019, atingiu um equilíbrio cuidadoso entre expressão e ofuscação. Claro, ela e seu irmão, Finneas, falaram abertamente como eles gravaram na casa de sua infância e selecionaram as canções dos cantos mais sombrios dos próprios pesadelos de Eilish. Mas ela claramente adorava guardar certas coisas para si mesma - borrando os limites entre fantasia e realidade, ironia e sinceridade, com uma piscadela sinistra e autopreservadora.

Em Getting Older, a faixa silenciosa e arejada que abre seu segundo álbum, Happier Than Ever, Eilish anuncia que está entrando numa fase mais sincera. “Tive alguns traumas / Fiz coisas que não queria / Tive muito medo de te contar / Mas agora acho que está na hora”, ela canta em seu vibrato esvoaçante, acompanhada apenas por notas de teclado em staccato.

A música é um instantâneo da psique de Eilish, na contraface de sua fama titânica e coberta de estatuetas do Grammy, com um sabor particular daquele tédio de quem está no topo da montanha mas que, de alguma forma, encontra um terreno estético comum entre Drake e Peggy Lee. Stalkers e desconhecidos clamam pela atenção de Eilish, o que a faz se sentir mais distante das pessoas ao seu redor. A música que ela fazia para se divertir virou um trabalho de alta pressão. “As coisas de que eu gostava”, ela canta com um suspiro do tipo só-sobrou-isso, “agora só me mantêm ocupada”.

Os antagonistas do último álbum de Eilish eram estilisticamente macabros: demônios assombrando sua mente e monstros espreitando sob sua cama. Happier Than Ever acende as luzes para descobrir que os bicho-papões são mais banais, mas igualmente perigosos - namorados indiferentes, parasitas aproveitadores e, o pior de tudo, os homens abusivos e mais velhos aos quais ela se dirige com desagradável desgosto no single suavemente executado Your Power: “E você jura que não sabia / Você disse que achava que ela tinha a sua idade”, Eilish canta. “Como você se atreve?”.

Eilish insiste que nem todas essas músicas são precisamente autobiográficas e é verdade que Happier Than Ever não é exatamente um confessionário. Trata-se de um disco fixado na tensão entre o conhecimento público e privado, a meditação de uma estrela pop da era das redes sociais sobre quanta franqueza ela deve a seus seguidores - se é que deve alguma. (Mais do que qualquer outro álbum de pop contemporâneo, o disco às vezes lembra as provocações sensuais da Madonna de meados dos anos 90; o manifesto franco e sem remorso Not My Responsibility tem mais do que um toque de Human Nature).

O corpo de Eilish, sua sexualidade e seus relacionamentos românticos se tornaram alvo de escrutínio conforme sua fama cresceu, e Happier Than Ever a encontra erguendo cercas de arame farpado em volta de todas essas zonas de batalha - ainda que, ocasionalmente, ela provoque o ouvinte com alguns detalhes astutamente soltos aqui e ali. “Comprei uma casa secreta quando tinha 17 anos”, Eilish, agora com 19, canta na serpentina NDA. “Um menino bonito veio, mas não conseguiu ficar / Na saída, fiz com que ele assinasse um NDA” [ou seja, um acordo de confidencialidade].

É um verso ao mesmo tempo arrogante e melancólico, e sua dualidade faz de NDA uma das canções mais atraentes do álbum. Happier Than Ever é, até certo ponto, a crônica de uma jovem extremamente bem-sucedida e obsessivamente vigiada tentando namorar e explorar seus desejos. Na balada Halley’s Comet, Eilish lamenta a desconexão inerente a este estilo de vida workaholic: “O cometa Halley / sai por aí mais do que eu”, ela canta. “Meia-noite para mim é 3 da manhã para você”. Em outros lugares, porém, na apropriadamente intitulada Billie Bossa Nova ou no estilo industrial de Oxytocina, Eilish se deleita com a emoção de ter de se esgueirar para dar seus pulos: “O que as pessoas diriam se ouvissem através da parede?”, ela entoa com um brilho ameaçador.

Assista ao vídeo:


Oxytocin é uma das músicas mais agitadas deste álbum, o que não quer dizer muito. Durante seus trechos mais lentos, Happier Than Ever definha. Eilish e Finneas (que produziu e, junto com Eilish, compôs todas as músicas do álbum) se afastaram das batidas minimalistas e da influência do hip-hop que animava When We All Fall Asleep, optando por um som mais retrô que faz referência ao trip-hop, à bossa nova e até ao jazz e a cantoras dos anos 1950. Não é uma aposta segura. Eilish claramente não está interessada em simplesmente replicar a fórmula que fez de seu álbum de estreia um sucesso que conquistou o mundo - e a turbulência emocional registrada nessas canções pós-fama talvez sugira o porquê. Nós a vimos com a coroa, mas, nos seus momentos mais antagônicos, Happier mais parece uma abdicação.

Mas os riscos começam a valer a pena no forte trecho final do álbum, a partir de NDA, com a impetuosa Therefore I Am logo na sequência, um dos vários singles mornos que se beneficiam do contexto circundante do álbum. A faixa mais surpreendente e promissora talvez seja Male Fantasy - uma balada acústica bonita e cativante que retoma o tom confessional prometido no início do disco.

Male Fantasy choca não por causa de suas menções casuais à pornografia e às questões da imagem corporal, mas pela maneira como Eilish deixa sua sempre presente armadura emocional cair. Velhos amigos parecem pessoas desconhecidas, ela admite com uma voz de queixa. Pensamentos intrusivos a assombram no carro. Eilish sempre teve talento para diminuir os caras aproveitadores, mas aqui ela furtivamente anseia pelo tipo de cafajeste que ela costuma insultar em suas canções: “Sei que deveria, mas nunca conseguiria odiar você”.

Apesar de sua popularidade mainstream e dos elogios da indústria musical, Eilish continua sendo uma rebelde inveterada. Mas Happier Than Ever expõe os pontos fortes e as limitações de seu modo preferido de subversão. O fenômeno pop com penteado de neon que certa vez filmou um clipe em que uma tarântula saía de sua boca tentou vender a ideia de que a jogada mais chocante do segundo álbum era pintar o cabelo de loiro bombástico e se remodelar como uma espécie de cantora pop com tendência retrô. À distância, essa abordagem infelizmente pode girar em falso e soar muito parecida com o tipo de tradicionalismo que ela estava tentando evitar com tanta astúcia.

O que salva Happier Than Ever do marasmo, porém, são os tentadores flashes que oferece de alguma outra coisa. Talvez seu momento mais emocionante venha na faixa-título: no meio da música, uma cantiga educadamente contida, acompanhada de ukulele, explode uma balada poderosa e carregada de distorção. Aqui Eilish prova que ela consegue fazer as duas coisas. Sua voz (talvez a mais alta já foi registrada) se ergue para enfrentar o drama, e ela desencadeia uma torrente desconcertante de queixas reprimidas: “Sempre disse que você foi mal compreendido / Tomou todos os meus momentos para si / Agora só me deixe em paz”. Por um momento fugaz, ela revela todos os seus segredos e parece revigorantemente aliviada. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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