Em São Paulo, Aznavour diz que 'somos todos estrangeiros'

Chansonnier francês, um dos maiores ídolos populares no seu país, elogia Nelson Ned e Ray Charles

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

15 de abril de 2008 | 20h08

Charles Aznavour, 83 anos, além do título de maior cantor francês vivo, também carrega por aí o título honorário de "embaixador itinerante da Armênia". Por isso, e somente por isso, ele diz, recusa-se a falar de política e de comentar a respeito da conhecida aversão do atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, às ondas de imigração na França.   Mas Aznavour (nascido Varenagh Aznavourian em Paris, em 22 de maio de 1924, filho de imigrantes armênios) não se furtou de dizer o que pensa sobre o tema, mesmo de forma atravessada. "Somos todos estrangeiros", declarou nesta terça-feira, 15, em seu primeiro encontro com jornalistas brasileiros, num hotel na zona sul de São Paulo.   Aznavour também disse que considera "um horror" ser chamado de monstro sagrado da canção francesa, e que prefere se definir como um "artesão" das palavras. Sobre suas incursões pelo rock em outras épocas, ele disse que não é refratário à novidade e sempre esteve atento aos novos gêneros. Só não gosta dos rótulos que tentam enquadrar tudo em "nouvelle" ou "nouveau" (nova e novo) na França.   "Sempre fui um curioso. Gosto dos jovens, das coisas que estão chegando, dos novos ritmos. Não recuso jamais a novidade. Eu sou um autor, um escritor da canção, que veste as canções com palavras. Quando não sei fazer música, peço para um músico fazer esse trabalho. Para o compositor, a música é mais importante. Para o escritor, é o texto. A música faz a volta ao mundo levando o texto. A música toca imediatamente o público. As pessoas decoram a primeira frase de uma canção e depois fazem lalalalalalalala. Cerca de 80% do sucesso de uma canção é sempre a música. O texto, devagarzinho, faz com que a canção viva mais tempo. Uma boa música com um texto mal-escrito não dura muito. É ruim", afirmou.   Ele é baixinho, olha com olhar profundo, não usa palavras desnecessárias, está sempre afiado nas respostas. Ex-jornaleiro, ex-cantor de bar, ator, pintor, o mestre chansonnier parece bem-disposto e em forma. Falou durante uma hora, e se disse um letrista, não um compositor. Diz que a música é que leva adiante a canção, mas que a letra às vezes pode se sustentar sozinha - citou o caso de Vinicius de Morais.   "Em todos os países há um ritmo. Aqui no Brasil há o samba, na Áustria há a valsa vienense, nos Estados Unidos tem o jazz. A França não tem um ritmo, e o que eu tentei fosse fazer melodias que fossem um pouco diferentes dos outros, e acho que consegui isso", afirmou.   Ele elogiou os intérpretes de sua canção pelo mundo afora, de Nelson Ned a Ray Charles, dizendo que o importante é que os cantores tratem suas canções como elas lhes pertencessem, e não o imitassem.   O show de Charles Aznavour no Via Funchal (R. Funchal, 65, Vila Olímpia, 3188-4148), nessa quinta e sexta-feira, custa entre R$ 200 e R$ 500. O show de sexta já está com ingressos esgotados.

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