Liu Jin/AFP
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Em rara entrevista, Bob Dylan fala sobre Frank Sinatra, Joan Baez e rock and roll

Músico lança no dia 31 de março seu 38.º álbum de estúdio, 'Triplicate', com versões de clássicos da canção norte-americana

Travis M. Andrews, The Washington Post

23 Março 2017 | 11h34

Uma lenda antiga do rock and roll diz que Bob Dylan e George Harrison deveriam ter gravado com Elvis Presley, mas O Rei não apareceu. Como Dylan conta, porém, Presley "apareceu sim, nós é que não fomos".

Numa rara entrevista com o escritor Bill Flanagan, postada no seu site na noite desta quarta-feira, 22, Dylan foi mais generoso nos detalhes de sua vida pessoal e de sua música do que ele tinha sido em anos. Talvez, o mais impressionante foi sua admiração recente pelos standards da composição norte-americana.

Seus dois últimos álbuns, Shadows in the Night e Fallen Angels, foram de covers de standards. No dia 31 de março, ele vai lançar seu 38.º álbum de estúdio, Triplicate, um box de três discos de clássicos como Stormy Weather, As Time Goes By e The Best Is Yet To Come.

"Essas canções", ele disse, "são algumas das coisas mais dolorosas já gravadas e eu quis fazer-lhes justiça. Agora que eu vivi e sobrevivi a elas, as entendo melhor. Elas te levam para fora do mainstream opressor onde você está preso entre diferenças que podem parecer diversas, mas são essencialmente o mesmo. A música moderna é tão institucionalizada que você não percebe isso. Essas canções são frias e perspicazes, há um realismo direto nelas, fé na vida ordinária, exatamente como no rock and roll do início."

Aqui estão alguns dos trechos mais fascinantes, poéticas ou simplesmente divertidos da entrevista.

Sobre nostalgia:

Apesar das versões dessas canções parecerem "nostálgicas", Dylan afirma que ele vê as músicas como do "aqui e agora". "Não é sobre viajar pela memória, ou ter saudades, ou ansiar pelos bons e velhos tempos, pelas memórias do que não é mais", ele disse.

Mais adiante, porém, ele reflete sobre a passagem do tempo.

Não há razão para olhar para trás com tristeza, diz. "De 1970 até agora foram quase 50 anos, parecem 50 milhões. Há uma parede de tempo que separa o velho do novo e muito pode se perder nesse período. Indústrias inteiras se vão, estilos de vida mudam, corporações matam cidades, novas leis substituem as velhas, pessoas se tornam commodities. Influências musicais também - elas são engolidas, absorvidas por coisas mais novas."

Sobre Frank Sinatra:

"Eu acho que ele conhecia The Times They Are A-Changin' e Blowin' in the Wind. Eu sei que ele gostava de Forever Young, ele me disse isso. Ele era divertido, nós estávamos [um dia na sua casa] no pátio à noite e ele me disse, 'Eu e você, companheiro, temos olhos azuis, nós somos lá de cima', apontando para as estrelas. 'Esses outros mendigos são daqui de baixo.' Eu me lembro de pensar que ele poderia estar certo."

Sobre ouvir Joan Baez:

Baez quase certamente serviu como musa de Dylan, e os dois tiveram o tipo de affair que sobre os quais os tablóides como o Daily Mail ainda escrevem. "Eu me sinto muito mal sobre isso", Dylan disse uma vez, de acordo com o Toronto Star.

"Ela era diferente, quase demais para mim. Sua voz era como a sirene de uma ilha grega. Apenas o som poderia te enfeitiçar. Ela era uma feiticeira. Você teria que se amarrar no mastro e tapar as orelhas como Ulisses para não escutá-la. Ela te faria esquecer quem você é."

Sobre o seu cabelo:

"Eu estava tentando parecer com Little Richard, a minha versão de Little Richard. Eu queria um cabelo selvagem, queria ser reconhecido."

Sobre ser o "bobo" (jester) na canção American Pie:

American Pie, de Don McLean, inclui uma variedade de personagens, e muitos acreditam que o "jester" (bobo) seria uma referência a Bob Dylan. Ele certamente não pensa assim.

"Um bobo? Claro, o bobo que escreve canções como Masters of War, A Hard Rain' a-Gonna Fall, It's Alright Ma' - que bobão. Eu tenho que pensar que ele estava falando sobre outra pessoa. Pergunte a ele."

Sobre o rock n' roll:

Dylan obviamente começou sua carreira como um músico do folk, e o seu salto para o mundo do rock and roll ainda é discutido hoje em dia. Apesar de ele dizer que escutava Glen Miller antes de Elvis Presley, o rock and roll lhe atingiu como uma bomba. Não era apenas uma música explosiva, ele "derrubou as barreiras que raça, religião e ideologia levantaram".

"O Rock and roll era uma arma perigosa, prateada, ele explodiu na velocidade da luz, refletia os tempos, especialmente na presença da bomba atômica que lhe precedeu por alguns anos. Naquele tempo, as pessoas temiam o fim do mundo. O grande embate entre capitalismo e comunismo estava no horizonte. Nós víviamos sob uma nuvem de morte; o ar era radioativo. Não havia amanhã, a qualquer dia tudo poderia acabar, a vida era barata. Esse era o sentimento da época e eu não estou exagerando."

Com todo esse sentimento, Dylan disse, "o rock and roll te fazia esquecer o medo."

 

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