Jay Blakesberg/NYT
Jay Blakesberg/NYT

Em passagem pelo Brasil, Kronos Quartet mostra sua revolução conservadora

Grupo só ‘vende’ a vanguarda que fica sempre de olho no mercado, o que pode reduzir a sua qualidade de invenção

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2014 | 03h00

É inegável o fascínio que provoca o Kronos Quartet no Brasil. Ainda mais em três programas diferentes. David Harrington e John Sherba nos violinos; Hank Dutt na viola; e a mais nova integrante, a espetacular violoncelista Sunny Yang, formam um grupo de extraordinária qualidade musical. Não só isso. Eles arrebentaram as amarras engessadas do gênero. Fizeram centenas de encomendas, adentraram pelo repertório popular. Já foram chamados de os Rolling Stones dos quartetos de cordas, como apregoa a divulgação do excelente Festival de Música de Câmara do Sesc. 

Um grupo que já gravou 57 discos e vendeu mais de 2,5 milhões de cópias numa carreira de quatro décadas tem muita história. Harrington, a alma do Kronos, continua encomendando obras a compositores de variadíssimos tipos do caleidoscópio estético do nosso tempo. Os requintes de produção padrão pop impactam – sua trupe auxiliar chega a 11 profissionais.

Com tudo isso mais a aura de suprema vanguarda, o Kronos simula vender o que de mais radical se faz no domínio da música de câmara – mas entrega, e ele mesmo é um de seus produtos mais reluzentes, um símbolo do que Laurent Denave, historiador da música norte-americana no século 20, chama de ‘revolução conservadora’. Ou seja, só ‘vende’ a vanguarda que fica sempre de olho no mercado. Como Mozart já provou no século 18, ao compor sonatas para piano em dois movimentos quando esteve em Paris só porque os franceses gostavam desta fórmula, olhar para o mercado não é pecado em si. O chato é quando por isso se reduz a qualidade de invenção. Ou, dito de outra maneira, o olho esticado para o mercado esgota-se em truques visando apenas ao efeito mais espetacular. Daí a inclusão das palavras, recurso que geralmente compensa a falta de qualidade intrínseca do material musical. E a amplificação.

Diga-se: não é culpa do Kronos se os compositores atuais estão candidamente aboletados no berço aconchegante do mercado. Não por acaso as obras mais interessantes e honestas entre as oito do programa de sexta passada no Sesc Pinheiros foram só duas. A primeira por motivos históricos, G Song, de Terry Riley, um dos pioneiros da música minimalista, que expressou nesta atitude estética sua revolta pelo excessivo cerebralismo das vanguardas europeias, estabelecendo o pulso regular e o hipnotismo repetitivo como norma. Mas ele fez isso nos anos 50 – e as demais obras, muito mais recentes, obedecem todas a esta obsessão repetitiva. Neste balaio cabem as demais, de Tobin, o arranjo de Mingus, e a do grupo pop Sigur Rós. O quarteto n.º 4 da russa Gubaidulina foi a outra exceção, com sua escrita cerrada, misturando estímulos visuais com os sonoros. Uma maravilha. 

Um experiente compositor brasileiro presente na sexta-feira talvez tenha dado um tiro certeiro quando postou na rede a seguinte frase: “Depois do realismo socialista, tivemos ontem o realismo capitalista: bombas de Beirute (referência à peça de Kouyoumdju), ponte do Brooklyn de NY, beatniks da Califórnia”. Faz todo sentido. E dá o que pensar. Mesmo assim, ou por tudo isso, foi um concerto diferenciado, ainda que vendendo gato por lebre.

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