Mariana Falcão
Mariana Falcão

Em novo disco, Letrux defende o direito ao choro e ao prazer

'Letrux Aos Prantos' é o sucessor do bem-recebido 'Letrux em Noite de Climão'

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2020 | 06h00

Letícia Novaes tem medo de avião. Jura que está melhorando. Mesmo assim, entrar em um voo é um desafio para quem encara uma agenda atribulada. Durante uma viagem em 2018, Letícia começou a suar frio. Tentou puxar papo com uma pessoa desconhecida ao lado e foi ignorada. 

A solução para se tranquilizar foi pegar caderno, caneta e escrever uma letra em que diz estar aos prantos para, na sequência, perguntar: “Quem não?”. 

Aflições e dúvidas que surgiram após Letícia assumir a persona de Letrux e lançar o bem-recebido álbum solo Letrux em Noite de Climão (2017) estão presentes em Letrux Aos Prantos, disponível nas plataformas digitais a partir da próxima sexta-feira, 13. Com Climão, ela se fortaleceu na cena independente, tocando em festivais como Lollapalooza e Popload, atraindo um público interessado na atmosfera noturna do disco e que se identificou com as letras sobre desencontros amorosos.  Agora, Letícia quer que seus ouvintes não tenham vergonha de chorar, mas também se autorizem a ter prazer.

Para Letícia, de 38 anos, o sucesso de Climão veio na hora certa. “Não gostaria de ter a minha primeira banda com 22 anos e estourar. Acho que eu não teria estrutura. Hoje eu me sinto mais calma e preparada para entender um trabalho público”, diz ela, que, antes de partir para a carreira solo, gravou três discos enquanto integrava o duo Letuce.  

A maturidade pessoal de Letícia se refletiu na feitura de Letrux Aos Prantos. O título foi baseado em Eu Estou Aos Prantos, a música feita no avião. 

Ela diz que em nenhum momento levou em conta se o novo disco estaria à altura ou teria o mesmo impacto de Climão. “Tenho apreço ao passado, mas, se eu pensasse nisso, ia gerar travas. Criativamente, a gente tem que apontar a flecha pra frente e pra cima”, afirma a artista, que volta a trabalhar com os produtores Arthur Braganti e Natália Carrera.

Com 13 faixas, Letrux Aos Prantos conserva a sonoridade eletropop de Climão e aposta na multiplicidade de estilos que vão do samba ao blues. Letícia afirma que outros produtores a abordaram para fazer o disco. No entanto, quis que o álbum registrasse a intimidade entre ela, Braganti e Natália. “Arthur é meu melhor amigo, a gente já tocava junto, mas eu montei a banda para o Climão, todos estavam se conhecendo. Depois de conviver três anos juntos, o processo de Letrux Aos Prantos foi fluido.” 

Depois de compor Eu Estou Aos Prantos, Letícia quis fazer um disco que retratasse “estados lacrimejantes”, como ela define. “Se organizar direito/todo mundo chora”, diz ela em Deja-Vu Frenesi, que abre o disco e ganhou videoclipe. 

O pranto no álbum não é apenas relacionado ao desgosto. Também passa por chorar de rir. “Depois do Climão, há o lugar do choro, mas a gente continua rindo, mandando meme pros amigos. Sentir prazer é importante. A gente é governado por pessoas que nitidamente não sentem prazer. Esse pranto também fala da alegria”, conceitua a artista.

Outras faixas passam por uma especialidade de Letícia: a observação do cotidiano urbano e suas idiossincrasias. “Delirei/achei que te vi em Copa/bacana, não era você/melhor assim/não quero engasgar”, dispara em meio aos beats de Dorme Com Essa.

Andar na rua e ouvir o que as pessoas falam é matéria-prima na criação de Letícia. “Ouço muitos absurdos, preconceitos, mas nessa hora é importante usar a revolta para fazer algo a respeito”, ressalta.

A artista acredita que outros idiomas podem dar recados com mais suavidade que o português. Letícia fecha o disco a capela com o “recadinho” Cry Something Awkward, cuja letra diz, em inglês, que “tudo bem ficar doido”. Inspirada no conhecido tango El Dia Que Me Quieras, El Dia Que No Me Quieras foi escrita em espanhol. 

Em Sente o Drama, com pegada de blues, Letícia recebe Liniker, com quem vem fazendo o show coletivo Acorda Amor. “Liniker deu um charme à música”, diz a artista, que também convidou Luísa Lovefoxx, do grupo Cansei de Ser Sexy, para cantar com ela o charme Fora da F***. Elas se conheceram ano passado, nos bastidores do festival Popload, e descobriram que se admiravam mutuamente.

Os shows de lançamento em São Paulo ocorrem no fim do mês. A intenção de Letícia é tocar o disco na íntegra. “Quero fazer um show emocionante, como o próprio disco.”

Aval. No tempo em que integrava o duo Letuce, Letícia Novaes conheceu Marina Lima. Um momento de repercussão que entrelaça a história de ambas foi quando o Letuce participou de um programa da TV Globo, Som Brasil, em homenagem à compositora. 

Após a aproximação das duas, uma passou a colaborar nos projetos musicais da outra. Marina participou de Puro Disfarce, uma das faixas de Letrux Em Noite de Climão. Mãe Gentil, composição das duas, entrou em Novas Famílias (2018), álbum de estúdio mais recente de Marina. Elas também fizeram shows juntas em locais como o Circo Voador, no Rio, e a Casa Natura Musical, em São Paulo.

Fafá de Belém também escolheu uma música de Letícia para gravar em Humana, que saiu no ano passado. Alinhamento Energético foi uma das músicas de destaque do álbum. “Que fase louca/que fase doida/que ano é esse/o que é que vem depois/eu tô exausta”, afirma a letra, já antevendo a temática que está presente em Letrux Aos Prantos.

Além de cantar, Letícia se formou em teatro e participou de filmes como Qualquer Gato Vira-Lata (2011). Em 2015, se lançou como escritora com o livro Zaralha: Abri Minha Pasta. A orelha da publicação é assinada pela poeta, tradutora e escritora Bruna Beber - as duas fizeram juntas a música Que Estrago, uma das que estão presentes no repertório de Letrux Em Noite de Climão.

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