Rodrigo Jiménez/EFE
Rodrigo Jiménez/EFE

Em novo álbum, Jorge Drexler conecta gêneros, gerações e continentes

'Tinta y Tiempo' é o 14º disco de estúdio da carreira de 30 anos do cantor

Jon Pareles, The New York Times

25 de abril de 2022 | 10h00

Um recente bate-papo por vídeo com o compositor Jorge Drexler rapidamente se transformou em uma aula de música relâmpago por demonstrar como uma batida pode viajar entre continentes e culturas. De seu estúdio caseiro em Madri, com guitarras no chão e livros e fotos de família nas prateleiras, Drexler mergulhou nos ritmos cruzados de um soleá por bulerías, o ritmo flamenco subjacente à música-título de seu novo álbum, Tinta y Tiempo.

Tinta y Tiempo é o 14º álbum de estúdio de Drexler em uma carreira de 30 anos, repleta de canções ricamente poéticas e engenhosamente construídas. Drexler ganhou vários prêmios Grammy Latino e colaborou com Shakira, Caetano Veloso, Mon Laferte, Carlinhos Brown e Julieta Venegas, entre seus muitos pares no âmbito musical que ele prefere chamar de Iberoamérica: os lugares onde o espanhol e o português são falados. Tocando um tambor marroquino de cerâmica de duas cabeças e depois dedilhando seu violão, Drexler explicou que os padrões do soleá interagem “como o sol e a lua”, e emostrou como o soleá era semelhante a uma versão dupla da zamba argentina, o ritmo que Drexler usou para Al Otro Lado del Rio, que lhe rendeu um Oscar em 2004, pelo filme Diários de Motocicleta

“Em todos os lugares que vou, vejo essas conexões. Vejo que esses ritmos se conectam do flamenco à Argentina, das culturas pré-hispânicas à África”, disse. “Praticamos a globalização há 500 anos antes dela ser inventada como uma palavra. E esse é um laboratório enorme, e muito importante, um laboratório contemporâneo de interação de culturas.”

Drexler, 57, tem mais experiência em laboratório do que a maioria dos compositores. No Uruguai, onde nasceu, formou-se em medicina e exerceu a profissão de otorrinolaringologista. Ele cresceu tocando piano e violão, mas diz que desabrochou tarde Começou a escrever músicas a sério aos 25 anos e lançou seu primeiro álbum, La Luz Que Sabe Robar no Uruguai, em 1992.

Incentivado por compositores na Espanha, mudou-se para lá em 1995 e continuou a fazer álbuns, recebendo regularmente indicações ao Grammy e constantemente ampliando seu público nas Américas. "Eu era um péssimo vendedor de discos", diz ele. “Do ponto de vista da indústria, fui um fracasso. Mas fiquei tão feliz que não me importei.” 

Ao construir sua carreira musical, Drexler se perguntou por que perdeu tempo na faculdade de medicina. “E então, alguns anos depois, comecei a perceber que havia algo na maneira como eu olhava para as coisas que era estranho, ou meu. Percebi que estava olhando para as relações humanas do lado biológico ou científico, e comecei a fundi-las dentro das músicas.” Em algum momento, ele percebeu: “Não é um fardo. É uma identidade.” Em álbuns anteriores, Drexler cantou sobre migração em massa e universos paralelos. 

Ele abre Tinta y Tiempo com a elaboradamente orquestrada El Plan Maestro (“O Plano Mestre”). A música prevê o momento da evolução em que um organismo unicelular cansou de se dividir sozinho e decidiu compartilhar DNA com outra célula: o início da reprodução sexual e, eventualmente, do amor. A faixa abre com um contrafagote tocando a nota mais baixa da orquestra. “Eu queria ter essa sensação do magma original onde a vida foi criada” diz Drexler. No meio da canção, Drexler é acompanhado por um de seus ídolos, o compositor panamenho Rubén Blades; o ritmo muda para um canto de mejorana panamenho e Blades canta uma décima - uma forma de verso espanhol de 10 versos com séculos de idade, tão bem estruturada quanto um soneto - escrito pela prima de Drexler, Alejandra Melfo, física.

Drexler muitas vezes constrói álbuns em torno de conceitos. Seu Bailar en la Cueva de 2014 surgiu de um tempo na Colômbia, absorvendo estilos regionais e abraçando ritmos de dança. Para seu Salvavidas de Hielo de 2017, ele foi para o México, mas acabou gravando o álbum inteiro sobrepondo apenas seu violão e sua voz, até mesmo tocando partes de percussão no violão. “Salvavidas de Hielo” ganhou o Grammy Latino de álbum de cantor e compositor do ano, e “Telefonía”, música que celebra as telecomunicações foi nomeada disco e música do ano. Onde Salvavidas de Hielo era austero, Tinta y Tiempo é pródigo e variado. Abrange arranjos orquestrais caprichosos, bandas de estúdio ágeis, colaboradores internacionais e magia do computador. 

Depois de gravar na Colômbia e no México, Drexler considerou visitar outro país para fazer seu próximo álbum. Mas o coronavírus o fechou em casa em um isolamento inesperado. Ele sempre pensou em sua carreira como dividida entre os polos da performance pública e a composição privada, solitária e obsessiva. Mas até a pandemia, ele percebeu, havia se acostumado a experimentar suas músicas com familiares e amigos, deixando suas novas canções um pouco inacabadas para ver o que acontecia quando as tocava para outras pessoas. 

“Sou muito preguiçoso, então me acostumei a deixar 20% da música sem resolver”, explica ele. “Sem esses 20%, as músicas simplesmente derreteram depois de dois ou três dias.” Sozinho nos primeiros meses da pandemia, não gostava de tudo o que escrevia; ele só conseguiu perceber o potencial das músicas quando voltou a reunir alguns ouvintes. A música Tinta y Tiempo é sobre o processo indescritível de composição: “Eu nunca sei por que ou quando”, ele canta. “Eu não comando essa voz.” 

Compor é algo sobre o que Drexler pensou muito. “A composição é flexível, diversificada e pode ser abordada de lugares muito diferentes. Trabalha com duas linguagens: uma linguagem abstrata como a música e uma linguagem simbólica, conceitual das palavras. Penso na origem da linguagem e na relação que a linguagem tinha originalmente com a melodia. As línguas mais primitivas usam menos palavras e mais inflexões. Quando eu preencho um formulário e digo que sou músico, é mentira. Não sou músico e também não sou poeta. Eu sou um cancionista, um compositor, e isso está enraizado na origem de algo que vem antes mesmo da linguagem falada.”

Drexler considera Tinta y Tiempo uma coleção de canções de amor, mas esse amor é amplamente definido: amor unicelular em El Plan Maestro, amor de longo prazo em Cinturón Blanco) e amor filial e afeição materna em Duermevela. Uma música funk divertida e angular, Oh, Algoritmo! — escrito com Didi Gutman da banda nova-iorquina Brazilian Girls e com o rapper e cantor israelense Noga Erez — mistura de forma inteligente desejo, criatividade e livre arbítrio.

Um single inicial do álbum, já um sucesso com milhões de streams, também surgiu da separação da pandemia. Tocarte, uma colaboração com o rapper, cantor e produtor espanhol C. Tangana, anseia pelas particularidades do contato físico. É uma produção esquelética e computadorizada, usando apenas um punhado de instrumentos que Drexler tinha em seu estúdio – a bateria marroquina, um maracá, um shaker, algumas notas de guitarra – e foi montado durante uma sessão de composição de seis horas com Tangana.

Drexler co-escreveu dois hits para Tangana, Nominao e Hong Kong, que aparecem em El Madrileño, o álbum mais vendido da Espanha em 2021. “Aprendi muito com ele sobre a estrutura da música”, diz disse Drexler. Por vídeo de Madrid, C. Tangana disse que cresceu ouvindo o álbum Frontera, de Drexler, porque era um dos favoritos de seu pai.

Drexler é “um dos mestres da composição”, explica. “Sempre o vi como um intelectual ou talvez um professor de como fazer boas letras em nossa língua. Ele é um verdadeiro artista que está sempre curioso – ele sempre quer saber, sempre quer aprender. Muitos artistas mais velhos estão acostumados a ser os mestres e não gostam da abordagem dos mais jovens. Mas ele não é assim. Está sempre lá para qualquer coisa nova que possa sentir.” 

Para Drexler, “toda geração tem pessoas brilhantes. “Não tenho mais necessidade de ser moderno – não sei mais o que é moderno.” O importante, diz, são “conexões, conexões, conexões”.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Jorge Drexler

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.