Em Milão, as muitas lembranças do compositor

Giuseppe Verdi passou seus últimos dias em Milão - cidade que marcou a vida e a carreira do grande compositor - na suíte 105/106 do Grand Hôtel et De Milan na via Manzoni, não distante do teatro Alla Scala. Nesse apartamento, que ainda mantém os móveis da época e pode ser visitado, o autor de La Traviata, Aida e Rigoletto morreu, no dia 27 de janeiro de 1901, aos 88 anos de idade, vítima de trombose cerebral, depois de seis dias de agonia. Lá fora, para que as carruagens não perturbassem o "maestro" doente, a rua foi coberta com colchões de feno.O funeral de Verdi foi um momento de comoção coletiva. Milhares de pessoas seguiram o féretro. Uma foto ampliada reproduzindo a cena, ocupa uma parede inteira e, atrás de um busto gigante do músico, abre a exposição que lembra o centenário de sua morte no Palácio Real de Milão. Giuseppe Verdi, o Homem, a Obra, o Mito, que vai até 25 de fevereiro, é um dos grandes eventos em homenagem ao artista a quem os italianos atribuem a capacidade de sintetizar música, literatura, teatro e artes visuais num meio de comunicação que chega ao público culto e também ao popular. Teatros do mundo todo programaram óperas de Verdi esse ano, nos Estados Unidos, Japão, Canadá e em todas as grandes cidades européias.Na Itália, as comemorações vão durar o ano todo e além da exposição há seminários internacionais e montagens de óperas em várias cidades, inclusive Busseto - sua cidade natal, perto de Parma. A parte mais consistente fica por conta do Teatro Alla Scala de Milão, onde Verdi triunfou muitas vezes, como na estréia do Nabuco. A temporada lírica do Scala foi aberta em dezembro com Il Trovatore e prossegue com outras nove óperas de Verdi com direção de Riccardo Muti: Rigoletto, La Traviata, Falstaff, Un Ballo in Maschera, Un Giorno di Regno, Jerusalem, La Forza del Destino, Macbeth e Luisa Miller. Em abril, Falstaff será apresentada no Teatro Verdi, em Busseto, com cenário e figurinos originais de 1913.Libretos e partituras originais, cartazes, desenhos de figurinos e cenografias dessas e de outras óperas compostas por Verdi estão expostos no Palácio Real. Ele considerava a montagem essencial e, em alguns libretos, há observações detalhadas sobre vestidos e cenários. Numa das salas foi reconstituída a cena do triunfo da Aida, edição 1872, no Scala. A estréia da ópera foi no Cairo em 1871 para a abertura do canal de Suez. Centenas de objetos e documentos, fotografias, cartas e quadros percorrem toda a vida de Giuseppe Verdi. Desde seu primeiro instrumento - um órgão -, até a reconstrução da fachada da casa de campo onde ele nasceu e que marcou sua forte ligação com a terra.De família modesta, não foi fácil para Verdi conquistar Milão. Começou mal quando, aos 19 anos de idade, tentou estudar no conservatório. Foi reprovado no exame de admissão e acabou tendo lições privadas com um professor do Scala por 3 anos. Em 1839, se transfere definitivamente para Milão com a mulher - Margherita Barezzi - e os dois filhos, para estrear sua primeira ópera: Oberto, Conte di S. Bonifacio, que teve discreto sucesso. No ano seguinte, a tragédia: morrem mulher e filhos. Foi preciso esperar até 1842, quando estreou o Nabucco, para superar a crise com a ajuda da soprano Giuseppina Strepponi, sua segunda mulher. Agricultura - Assim que começou a ganhar dinheiro, Verdi comprou uma fazenda - villa S. Agata, em Busseto. Lá morou com la Strepponi por quase 50 anos e cultivou sua segunda paixão: a agricultura, supervisionando pessoalmente as plantações, o gado e comprando maquinários. Os móveis de seu quarto na villa S. Agata estão expostos no Palácio Real na mesma disposição original, inclusive o piano em que o maestro compunha. Para os italianos, além de ser um dos maiores compositores de sua história, Verdi é também um dos símbolos da unidade nacional, que se realizava justamente no final de 1800. Pouco antes da unificação da Itália, as pessoas gritavam e escreviam nos muros, também do teatro Alla Scala: "Viva Verdi" - acrônimo de "Viva Vittorio Emanuele, rei da Itália". Para muitos, o coro do 3.° ato do Nabucco: "va pensiero su ali dorate..." cantado por milhares de pessoas durante o funeral do compositor, é mais emocionante que o próprio hino nacional.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.