Em Miami, Roberto Carlos cria elo entre extremos sentimentais

Gravação em espanhol é fiel registro de show na qual cantor transita entre romantismos hispânico e brasileiro

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

23 de setembro de 2008 | 17h46

As versões para espanhol das músicas de Roberto e Erasmo Carlos ficam léguas de distância das originais. Por exemplo: como justificar que o lendário verso "se um outro cabeludo aparecer na sua rua/ e isso lhe trouxer saudades minhas/ a culpa é sua" se transforme em "si otro hombre apareciera/ Por tu ruta/ Y esto te trajese recuerdos mios/ La culpa es tuya"? O verso de Detalhes em português, divertido, carrega além de tudo um espírito de época (a hegemonia patropi dos "cabeludos"), que se perde em espanhol.   Veja também: Ouça trecho de 'Detalles', de Roberto Carlos  Ouça trecho de 'Propuesta', de Roberto Carlos    Muita poesia descarrilou nessa transposição. Como em Amigo, na qual os versos iniciais em espanhol parecem um memorando: "Tú eres mi hermano del alma, realmente el amigo/Que en todo camino y jornada/ Estás siempre conmigo/Aunque eres un hombre/ Aún tienes alma de niño/ Aquel que me da su amistad/ Su respeto y cariño."   Mas essa fragilidade não turva o brilho de Roberto Carlos En Vivo (Lançamento Sony, em CD e DVD), gravação de show do cantor no Carnival Center de Miami em 24 e 25 de maio do ano passado. Não turva porque a verdade da interpretação está ali, reafirmando o sentido, as intenções. E porque o intérprete no palco era muito maior do que qualquer canyon cultural.   Foi um dos melhores shows recentes de Roberto, e a qualidade técnica da gravação é excepcional. Ele voltava a cantar em Miami depois de 9 anos, e estava alegre, despreocupado, sem querer mostrar ser algo que nunca foi. A platéia parecia hegemonicamente hispânica: colombianos, chilenos, argentinos, mexicanos, cubanos. No DVD, é possível ouvi-las claramente, as fãs latinas de Roberto, gritando com saboroso sotaque os versos mais conhecidos.   Roberto contrabandeia emoções de um mundo para o outro sem sentir peso nenhum nas costas. Depois de uma dezena de canções em espanhol, ele iniciou O Calhambeque, em português, e a parcela da platéia composta de brasileiros soltou uma espécie de grito de emancipação, feliz por ouvir aquela voz em sua língua natal. Generoso, ele ainda inseriu Aquarela do Brasil na seqüência, um golpe letal no coração da brasileirada.   "Hey, hey, hey, Roberto é nosso rei!" O coro iniciou-se timidamente e logo tomava toda a audiência no Ziff Ballet Opera House, a maior sala do Carnival Center. Algumas músicas encontravam o balanço perfeito entre os romantismos hispânico e brasileiro, como Desahogo, e algumas senhoras da platéia choravam. Outras mais "novas" para aquela platéia, como Mujer Pequeña, pareciam já ter nascido com um carimbo de Julio Iglesias colado nelas (também é o caso das músicas da chamada fase motel de Roberto, como Propuesta e Côncavo y Convexo.   Ele nem precisava, mas também se arriscou numa interpretação de El Día en Que me Quieras (Carlos Gardel/Le Pera). "No te olvidamos, Roberto!", gritou uma mulher emocionada. Acróstico, canção que fez para homenagear a mulher Maria Rita, morta em 1999, com acompanhamento apenas do piano, mostra que Roberto renova sua capacidade de emocionar públicos novos. Foi uma das mais aplaudidas, ao final.

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