Em memória de Peggy Lee, a voz sensual do jazz

Quando esteve aqui pela primeira vez, em 1997, participando do Free Jazz, a pianista-cantora canadense Kiana Krall proclamou: sua grande referência de canto era Peggy Lee. Quem, mesmo? Os mais jovens talvez nunca tenham ouvido falar dela. Quem ouviu música de boa qualidade a partir dos anos 40, ouviu alguma coisa - no Brasil, alguma coisa. Peggy Lee, ou, na carteira de identidade, Norma Dolores Egstrom, descendente de noruegueses e suecos, reconhecidamente a mais sensual das vozes femininas da grande canção norte-americana, por um motivo ou outro não foi conhecida - e reconhecida - entre nós como deveria. Poucos discos - Teve e tem seu fã-clube, entre jazzófilos. Mas poucos de seus cerca de 60 discos mereceram edição brasileira. Sempre houve quantidade de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan - o que é natural: elas foram as jazz singers emblemáticas (embora nenhuma das duas gostasse de ser chamada de cantora de jazz). Sempre houve Billie Holiday em quantidade (e com qualidade desigual), ou Dinah Washington, ou mesmo Nina Simone ou Betty Carter. Mas quase nada de Peggy Lee. Talvez porque para entender, perceber, sentir o efeito de seu canto fosse - seja - necessário compreender o que ela canta: por que uma sílaba é pronunciada com determinado grau de suavidade, por que certa frase é cortada e outra estendida. Peggy Lee não era cantora de maneirismos, mas de sutilezas. Aliás, cantora, atriz, compositora. É dela parte da trilha sonora do filme Johnny Guitar, de Nicholas Ray; são delas as canções (que ainda hoje, com o filme lançado em vídeo e agora, no centenário do criador do Pato Donald, em DVD, qualquer criança conhece) da animação A Dama e o Vagabundo, de Walt Disney. É dela, também, em parceria com Duke Ellington - pois é - a canção I´m Gonna Go Fishin´, tema central da magnífica trilha sonora de Anatomia de um Crime, a obra-prima de Otto Preminger. Quem assina a parte instrumental (e toda a música incidental) é Quincy Jones. Mas a canção central é da lavra dela. Peggy Lee estava com 81 anos. Nasceu em Jamestown, Dakota do Norte, em 26 de maio de 1920. Ficou sem pai nem mãe aos 4 anos: a mãe morreu e o pai, que era ferroviário, deu o fora. Como numa daquelas histórias infantis que têm início triste e final feliz - Peggy conheceu a glória -, a madrasta era má. Tanto que, já nos anos 80, quando estreou na Broadway, com o musical autobiográfico Peg, uma das músicas falava daquele tempo em termos brutais - One Beating a Day. Aos 18 anos, Norma Dolores quis tentar a sorte em Hollywood. Até chegar lá, parando um pouquinho em cada cidade intermediária. Acabou ficando no Estado de Dakota do Norte, mesmo, em Fargo. A rádio local ofereceu-lhe um contrato e providenciou a mudança de nome. Adiante, Peggy conseguiu um emprego no clube Doll House, em Palm Springs, na Califórnia. Voz baixa - Ali, começou a estabelecer o estilo. O clube era barulhento. Outras cantoras tentariam cantar alto, jogar a voz acima do alarido dos freqüentadores. Peggy Lee fez o oposto. Maior o barulho, mais baixa sua voz. Sua biografia oficial diz que ela conseguia calar os faladores. Mas nem assim ela aumentava o volume. Ficou sendo uma cantora de voz baixa, sua marca, para sempre. Benny Goodman a descobriu para um mundo mais sofisticado em 1941. Gravou com ela Why Don´t You Do Right - e Peggy Lee virou estrela. A voz da mais importante banda do swing. Em 1943, ela casou com o guitarrista da orquestra, Dave Barbour, talentoso, mas alcoólatra. Adoravam-se, mas Barbour pediu a ela que fosse embora, ou ele a destruiria, como se destruía. Um ano antes do casamento, Peggy Lee (e Nat King Cole e Stan Kenton e Les Paul - o que deu nome ao modelo da guitarra Gibson - em dupla com Mary Ford) havia salvo a gravadora Capitol. O maior sucesso da casa era Nat King Cole mas, em 1942, Peggy havia vendido mais de 1 milhão de exemplares do disco que trazia Why Don´t You Do Right. O sucesso só fez crescer. Autodidata, Peggy tocava diversos instrumentos (chegou a tocar bateria, numa gravação com todo mundo deslocado - Barbour no trompete, Paul Weston na clarineta e Billy May no trombone). Fez cinema - foi indicada para o Oscar de atriz coadjuvante pela atuação em Pete Kelly´s Blues, ou, em português, A Taverna Maldita, um filme sobre jazz e gin na Kansas City da época da Lei Seca, dirigido por Jack Webb e lançado em 1955. Amor de uma vida - Fez as letras e cantou as músicas de A Dama e o Vagabundo, estabeleceu colaboração intensa com Quincy Jones e assim se conta sua história. Separada de Barbour, teve casos amorosos com o ator Brad Dexter, com o percussionista Jack del Río - mas, em 1965, resolveu casar novamente com Barbour, o grande amor de sua vida, que estava havia mais de dez anos sem tocar em bebida. Ele teve um ataque cardíaco e morreu antes da cerimônia. Sofrendo de diabete e problemas glandulares que a engordavam enormemente, retirou-se de cena para voltar em 1989, quando lançou o disco Peggy Sings the Blues. Estava vencendo uma batalha judicial contra a gravadora Universal, por direitos não recebidos. A Justiça americana deu ganho de causa a ela (e aos outros autores da ação) na semana passada.

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