Em livro e CD, dois olhares sobre Beethoven

Estão chegando às lojas de discos elivrarias dois olhares sobre Beethoven e sua obra - uma gravaçãode sua integral sinfônica feita pelo maestro Josef Krips nadécada de 60 com a Sinfônica de Londres e o livro Beethoven: OPrincípio da Modernidade, do músico Daniel Bento. Trata-se dedois trabalhos que, de modos distintos, celebram a música docompositor, uma das figuras-chave da história da música.Editado pela Annablume, o livro - que será lançado naquinta-feira à noite na sede da editora - contrapõe a sonataHammerklavier, escrita por Beethoven em 1818, a duas peçasda década de 20 de Arnold Schoenberg, a Suíte para Piano Op.25 e a Klavierstück Op. 33a. Com isso, o autor procuramostrar como os dois compositores - cada um dentro de seuuniverso - foram elos fundamentais entre o passado e o futuro dacomposição musical em suas épocas. "Os dois são formados natradição, têm como base princípios musicais dominantes, maspróximos da decadência em meio a processos sociais e históricosde transformação, além do que os dois fundamentaram novaestética que se tornaria, posteriormente, tradição", anota aprofessora Maria de Lourdes Sekeff no prefácio ao livro.Já a gravação de Josef Krips, feita na década de 60 eagora relançada pela Sony em uma caixa com cinco discos, abordaum outro aspecto da produção musical de Beethoven, apesar de quepeças como a Nona Sinfonia - e sua influência na obra decompositores como Richard Wagner - exemplificam e confirmam ateoria de Bento com relação à presença em Beethoven de elementosmusicais fundadores de uma nova forma de pensar a composiçãomusical.Apesar da saturação do mercado, no qual podem serencontradas dezenas de gravações da integral sinfônica deBeethoven (entre elas algumas que se tornaram referências, comoa feita por Karajan em Berlim aproximadamente na mesma época), aversão de Krips tem sua importância histórica. Mesmo que aedição não traga nenhum dado mais detalhado sobre a gravação (umdos problemas mais graves do lançamento, ao lado de umtratamento sonoro aquém das possibilidades oferecidas pelatecnologia atual), ela é um exemplo claro do estilo do maestroaustríaco, um dos grandes expoentes da regência da primeirametade do século 20, diante do repertório que o tornou famoso.Krips nasceu em Viena, em 1902, onde começou seusestudos com um aluno de Bruckner, Alois Balschke. Anos maistarde, passava a estudar com Felix von Weigartner, todo-poderosodiretor da Volksoper de Viena (que, por sua vez, havia estudadocom Liszt, Brahms, Wagner... ), que o contratou como assistenteapós vê-lo substituir um pianista em uma série de audições paracantores de ópera. Com 19 anos, Krips - influenciado por todaessa constelação de gênios da música alemã - regia seu primeiroconcerto. Um ano mais tarde, no dia em que completava 20 anos,já liderava a orquestra da Volksoper, em sua décima ópera. Cincoanos mais tarde, o reconhecimento a seu trabalho o levava para oposto de diretor geral de música de Karlsruhe.Lá ele ficou até 1933, quando os nazistas subiram aopoder na Alemanha. Como para muitos outros músicos, issosignificou a Krips (filho de pais judeus convertidos aocatolicismo) não apenas a saída de Karlsruhe como também aimpossibilidade de desempenhar qualquer função relacionada àmúsica. Neste período, ele sobreviveu clandestinamente em Viena,acompanhando e ensaiando cantores em troca de comida. Lembrandoessa época, Krips escreveu em sua biografia (Pas de Musiquesans Amour, Souvenirs, editada em 99 na França, pelas EdiçõesSaint-Augustin) que "esse trabalho possibilitou uma compreensãoprofunda da condição humana, assim como do ato de fazer música,por causa dos exaustivos ensaios com os cantores".Quando as tropas russas liberaram Viena, Krips foichamado para reerguer a vida musical da cidade. Recusou-se aretirar das orquestras músicos que tocaram sob a batuta deregentes indicados pelo regime nazista, punindo apenas aquelesque haviam denunciado colegas judeus à Gestapo. E, à frente dareconstrução do Musikverein e do Theater an der Wien, o maestroganhou visibilidade que o levou como convidado a orquestras detodo o mundo.É nesse contexto que Krips chega à Sinfônica de Londres,em 1951. Durante a 2.ª Guerra e nos anos que se seguiram a ela,a orquestra, que iniciou seus trabalhos em 1904 sob a regênciado wagnerita húngaro Hans Richter, havia trabalhado sem regente.Músicos da orquestra referem-se ao período como crucial na vidada orquestra, foi Krips o responsável por criar um somcaracterístico e um estilo de interpretação - coisas cada vezmais raras nos dias de hoje - que garantiram a vida da orquestranas décadas seguintes. Essa interação artística de um regenteque dizia buscar fazer música com "m" maiúsculo, "como o deMozart", como uma orquestra em busca de uma identidade é ogrande destaque da gravação agora relançada.

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