Em concerto com a Osesp, Tamara Stefanovich exibe rigor e encantamento

Pianista faz performance extraordinária com a Osesp em programa com compositores como Berio e Szymanowski

João Marcos Coelho, Especial para O Estado

21 de agosto de 2018 | 11h20

Ainda se passará muito tempo antes que outros artistas residentes impressionem de modo tão forte o público tocando música do século 20. Impacto que se estendeu aos músicos da Osesp

Foi rara a chance que tivemos de conviver com um músico do quilate do pianista francês Pierre-Laurent Aimard. O casal Aimard revezou-se por três benditas semanas de agosto: ele chegou uma semana antes e sua mulher, a também ótima pianista Tamara Stefanovich, uma semana depois. Assim, ele solou o concerto de Ravel, os dois fizeram memorável leitura das Visões do Amém de Messiaen e foram acompanhados pela Osesp na versão com orquestra da Sonata para Dois Pianos e Percussão de Bartók.

Destaque-se ainda a construção engenhosa de cada concerto. Assim, na quinta, 16, a abertura ficou a cargo de uma brincadeira saborosa de Luciano Berio, compositor italiano morto em 2003 aos 78 anos: ele sobrepôs as quatro versões escritas por Boccherini, em 1780, do Noturno de Madri. Puro encantamento.

Tamara manteve o sortilégio ao solar a raramente tocada, mas interessantíssima quarta sinfonia (1932) do compositor polonês Karol Szymanowski, que morreu em 1937 aos 55 anos. É um concerto para piano disfarçado, desde o primeiro tema do moderato inicial (“é uma das coisas mais adoráveis que já compus”). Apesar disso, o tratamento do piano é basicamente percussivo. Osesp alerta, batuta seguríssima e envolvente de Markus Stenz. Ao final, Tamara apontou com justiça a flautista Claudia Nascimento, que “conversou” com seu piano em muitos momentos. 

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Não me lembro de outra execução mais qualificada desses Noturnos
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Na segunda parte, outro banquete. A entrada foi a Pergunta Sem Resposta do norte-americano visionário Charles Ives, escrita em 1910 para trompete, quarteto de flautas e cordas. Sala São Paulo às escuras, cordas diáfanas nos bastidores, quatro flautas no palco respondendo cada vez mais ruidosamente à pergunta do trompete no alto, ao fundo. 

Nos três Noturnos de Debussy, Stenz distribuiu as vozes femininas do Coro da Osesp em dois blocos, à esquerda e à direita, no interior da orquestra. Por isso elas soaram, em Sereias, o último noturno, de modo admiravelmente amalgamado com os demais timbres sinfônicos (como, imagino, sonhou Debussy).

Aqui a performance foi extraordinária. Poucas vezes se viu uma Osesp com tamanho refinamento e esplendor (sobretudo em Festas), numa obra que visa justamente a usar todos os recursos dos timbres orquestrais, porém sem saturação, com muito rigor e sensibilidade. Não me lembro de outra execução mais qualificada desses Noturnos. Mérito do maestro alemão Markus Stenz, o regente ideal para os concertos com o casal Aimard. 

Comprovou-se uma verdade simples, mas raramente aceita: com programas bem engendrados e execuções de primeira linha, a música do nosso tempo é bem recebida pelo público. 

 

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