Em cem CDs, a história da composição erudita

De Bach a Michael Nyman - o minimalista inglês, autor da trilha do filme O Piano -, a coleção Royal Philharmonic Orchestra faz uma panorâmica de toda a história da música. É uma série de cem CDs que já foram parcialmente lançados, anos atrás, pela Abril; agora, eles reaparecem num pacote completo, editados pela Sum Records (R$ 26 cada volume). Estão lá, é claro, os pilares do repertório básico - sinfonias de Beethoven, peças de Chopin, as eternas Quatro Estações -, mas há também gratas surpresas.Franz Berwald é o maior sinfonista romântico da Suécia. Desse mestre, pouco conhecido no Brasil, a coleção tem duas jóias: as sinfonias n.º 3 Singulière e a n.º 4, regidas por Ivor Bolton. De Rachmáninov, conhece-se bem a obra pianística e pouco a sinfônica. Vernon Hadley faz, da Sinfonia n.º 2 op. 27, uma leitura entusiasmada. E do contemporâneo inglês John Taverner aparece uma peça recente, The Protecting Veil, para violoncelo e orquestra, um desses raros casos de música contemporânea que faz sucesso de público e de crítica.Nem todos os artistas são conhecidos, mas o nível médio de qualidade é britanicamente corretíssimo. O nome de Frank Shipway não é familiar; mas a Sinfonia n.º 10 de Shostakóvitch que ele rege é muito bem realizada. A integral dos concertos para piano de Beethoven com Michael Roll e Howard Shelley é extremamente honesta e - ainda mais a preços convidativos de série econômica - funciona bem como introdução a esse ciclo fundamental da literatura concertante. E o pianista Ronan O´Hora, nascido em Manchester e hoje com 38 anos, é o responsável por apreciáveis recitais com peças de Chopin, Schumann, Satie, além de discos com concertos de Mozart e peças de câmara.Numa série de gravações com uma das mais importantes e conhecidas orquestras inglesas, a parte do leão cabe, é claro, aos maestros britânicos. Lá está o grande sir Charles Mackerras, tão bom nos poemas sinfônicos de Richard Strauss quanto na Sinfonia n.º 5 de Shostakóvitch ou na Fantástica de Berlioz.Ao experiente Raymond Leppard coube a Nona Sinfonia de Beethoven, além da Sinfonia e dos poemas sinfônicos de César Franck. Jane Glover é uma especialista em barroco e classicismo, autora de um belo volume sobre Monteverdi. Aqui, nós a temos regendo sinfonias de Haydn e de Mozart.Há também convidados estrangeiros. O russo Iúri Símonov interpreta Bruch, Stravinski, Mahler e uma peça que, anos atrás, foi best seller na Europa: a Sinfonia das Canções Tristes, do polonês Henryk Górecki. Ao pianista português Sequeira Costa couberam os dois concertos de Chopin. À brasileira Cristina Ortiz, uma bonita seleção de sonatas de Beethoven. O colombiano Enrique Diemecke é hoje, o titular da Ópera de Montpellier, na França. No festival de música latino-americana que ele dirige, além de muito boas leituras das Bachianas n.º 2 de Villa-Lobos e das Variações Concertantes de Ginastera, há uma surpresa: a forma original e inteligente como ele trabalha com os andamentos e dinâmicas na abertura do Guarani, de Carlos Gomes, de um modo que faz a execução dessa peça diferir da forma como estamos habituados a ouvi-la.Prata da casa - Música de câmara não poderia faltar, e o quarteto formado por membros da própria orquestra faz bem a Truta e o op. 29, de Schubert; muito bem o Quarteto Americano de Dvorák e o n.º 2 de Borodín. Particularmente feliz é a interpretação da sonata para violino de César Franck, com Jonathan Carney, o spalla da orquestra, e Ronan O´Hora.E a Royal Philharmonic recheia vários dentre os cem CDs da coleção com a prata da casa, a fina flor da composição inglesa. Para quem quer travar contato com os mestres daquela ilha, há boas seleções de Elgar (as variações Enigma e o concerto para violoncelo) e Holst (Os Planetas e a suíte São Paulo), além de seleções de peças curtas de Delius e Vaughan Williams - e este último, assinado por Christopher Seaman, é um dos volumes mais interessantes da série.Há para todos os gostos, nesse alentado pacote. Até mesmo um disco muito simpático, em que Andréa Licata une ao Carnaval dos Animais, de Saint-Saëns, e aos lindos Jogos Infantis de Bizet, o conto para crianças de Prokófiev, Pedro e o Lobo. E quem o narra é nada menos do que o fabuloso sir John Gielgud que, no cinema, era tão bom fazendo Shakespeare quanto aquele mordomo aloprado das comédias de Dudley Moore.

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