Em CD, o tributo de Raphael Rabello a Capiba

Um dos últimos trabalhos do violonista Raphael Rabello, que morreu aos 33 anos, em 1995, finalmente vai chegar ao público. É um disco de canções e frevos do compositor pernambucano Capiba, com arranjos de Francis Hime, Lincoln Olivetti e dele próprio, cantados pela nata da música brasileira: Gal Costa, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, João Bosco, Ney Matogrosso e Maria Bethânia.O disco está em fase de mixagem e será lançado em outubro, na campanha do Natal sem Fome, criada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, mantida pelo filho dele, Daniel de Souza, após sua morte. "Vamos aproveitar a data dos 40 anos de nascimento do Raphael e o 98.º aniversário do Capiba, também em outubro. Esse disco seria o primeiro da série Orgulhos do Brasil, com o registro dos grandes compositores brasileiros", conta Luciana Rabello, irmã de Raphael, que começou carreira com ele nos anos 70, no grupo de choro Os Carioquinhas, quando os dois mal entravam na adolescência. "A última gravação foi em março de 1995 e ele morreu em 27 de abril. Estava feliz com o resultado. E o disco está realmente muito próximo da perfeição."Raphael gravou Capiba por razões afetivas. O compositor, nascido em Permanbuco e criado na Paraíba, era amigo de seu avô, José Queiroz Batista, o patriarca musical da família, que reunia filhos e netos em corais, ao som de seu violão. Raphael foi além do esperado. Ainda menino, estudou com Dino Sete Cordas e Jaime Florence, o Meira, que foi também professor de Baden Powell - Dino e Meira são personagens fundamentais para a história do violão brasileiro. Quando profissionalizou-se, ainda adolescente, Raphael já dominava o instrumento. "O Paco de Lucia, amigo dele, dizia que o Raphael fazia com o violão o que queria, pois não tinha limitações técnicas", lembra Luciana.O disco dá razão ao catalão Paco de Lucia. A seleção do repertório e dos intérpretes seguiu o gosto pessoal de Rabello e resultou em versões definitivas. Francis Hime fez os arranjos para Valsa Verde (que Paulinho da Viola interpreta, lembrando Orlando Silva), Olinda, Cidade Eterna (com Caetano Veloso), Cais do Porto (cantada por Maria Bethânia) e Sino, Claro Sino (que Milton Nascimento só gravou há poucos dias, porque ninguém sabia que o arranjo era para ele). Gal Costa canta Resto de Saudade sobre o fraseado do violão de Raphael, que ainda acompanha João Bosco, em A Mesma Rosa Amarela, e Ney Matogrosso, em Serenata Suburbana. Alceu Valença pediu Igaraçu, Cidade do Passado.Bethânia - Um pot-pourri de frevos teve arranjo de Lincoln Olivetti, que trouxe uma banda furiosa para o estúdio, para acompanhar Claudionor Cruz, cantor oficial da produção carnavalesca de Capiba. Ficou de fora a valsa-rancho Maria Bethânia, que seria interpretada por Roberto Carlos - mas Raphael morreu antes da gravação. "Foi difícil deixar o maior sucesso de Capiba fora do disco, mas Raphael não escrevia seus arranjos e não dá para saber como ele tinha imaginado o de Maria Bethânia", explica Luciana. "Nem todas as faixas estavam prontas e eu me vi, às vezes, sem saber direito para onde ir. Fui na intuição e no bom senso, porque, afinal, viemos da mesma barriga, biológica e musical."Esse não foi o único motivo da demora para o disco sair. O Banco do Brasil, que o financia, já havia liberado a verba contratada e não se dispunha a dar mais dinheiro. "Não tiro a razão deles, mas, como irmã e instrumentista, queria ver esta obra do Raphael acabada. O jeito foi apelar para o Daniel de Souza, que os convenceu", conta Luciana. Mas as dificuldades não terminaram aí. "Sete anos depois, as fitas estavam oxidadas e passaram por processos químicos de restauração. Ainda estão dando muito trabalho ao técnico encarregado, Duda Mello, mas conseguimos o resultado pretendido por Raphael."Oito anos após a morte, quase não há discos de Raphael Rabello disponíveis nas lojas, o que dificulta à nova geração o conhecimento da obra. Seja como for, seu estilo influencia os chorões e este foi o motivo do empenho de Luciana em terminar esse disco. Há outro solo, feito nos Estados Unidos, que ela espera lançar até meados de 2003. "Ele gravou lá e veio morrer no Brasil. A gravadora não sabia que músicas eram e me pediu para identificá-las. Em troca, ganhei os direitos de lançá-lo aqui", adianta Luciana, que pretende encerrar aí o acervo do irmão. "Esses dois discos só saem porque ele os teria terminado. Mas não pretendo lançar gravações de Raphael, sozinho ou com outros músicos, feitas como ensaio ou estudo. Seria um desrespeito à sua memória."

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