Em CD, o melhor de Baden Powell

Entre 1961 e 1972, Baden Powell lançou 13 elepês para os selos Elenco, Philips e Forma. O acervo desses selos pertence hoje à gravadora Universal, que remixou os 13 títulos, reuniu-os numa caixa e acaba de pôr o tesouro à disposição do distinto público amante da melhor música brasileira. O preço sugerido, de R$ 120,00, é razoável. Cada CD sai por pouco mais de R$ 9,00. Acompanha a caixa um libreto com textos explanativos do co-autor do projeto de reedição digital da obra (o outro autor é Carlos Alberto Sion), o jornalista Tárik de Souza (o texto aparece ainda vertido para o francês por Dominique Dreyfus, autora da biografia O Violão Vadio de Baden) e do norte-americano Lee Jeskee. Os discos não serão vendidos separadamente. A tiragem da caixa é de 1.500 exemplares.A edição preserva as capas originais - inclusive a estranhíssima do disco de estréia, Apresentando Baden Powell e Seu Violão, em que uma não-identificada loura olha lânguida para o ouvinte -, os textos dos encartes, as fichas técnicas. Pela primeira vez, a obra do gênio é tratada com o merecido respeito. Os discos de Baden (e ele passou por várias gravadoras, no Brasil e no exterior) estavam praticamente indisponíveis em CD. Pontualmente, alguns títulos apareceram em versão digital; mais comum era que fossem feitas compilações, com faixas extraídas do repertório de uns e outros discos. Coisas do tipo "o melhor de..." - um desserviço. Rigorosamente inéditos, da coleção, há apenas três títulos: o referido Apresentando..., primeiro álbum-solo, de 1961, Um Violão na Madrugada, do mesmo ano, e Baden Powell ao Vivo no Teatro Santa Rosa, de 1966.Baden foi o maior violonista brasileiro, provavelmente o maior do mundo - assim considerado por boa parte dos jazzistas norte-americanos, Stan Getz à frente. Getz, que flertou com a bossa nova e deve a ela seu prestígio, quis levar Baden para os Estados Unidos. Queria gravar com ele. Baden não topou, alegando que era solista, não acompanhante. Preferiu ir morar na Europa, onde fez fama e fortuna. A fama só fez crescer. A fortuna, o violonista queimou-a.Boêmio, amante da noite e do copo, era indisciplinado com dinheiro - com a música, não. Pelo contrário, estudava obsessivamente. Nunca tocava o próprio repertório, como lembra Tárik de Souza em seu texto: "Ele (o repertório) tem de ficar fresquinho para a hora da apresentação", dizia. Tocava por horas a fio com o metrônomo marcando o tempo, o que ajuda a entender a precisão de seu toque.Era capaz de sumir de casa - de bar em bar - por vários dias, levando a mulher a procurar polícia e jornais. Aparecia em algum subúrbio do Rio, encostado num balcão de botequim, feliz da vida. Contraditoriamente, tinha pavor de golpes de ar - "É letal", dizia. Daí as blusa de gola rolê e os inefáveis cachecóis.Nascido (em 1937) na pequenina cidade de Varre-e-Sai, no interior do Estado do Rio, foi cedo com a família para um subúrbio carioca. Menino prodígio, aos 8 anos tirou primeiro lugar em programa de calouros e logo em seguida tornou-se músico contratado da Rádio Nacional, acompanhando estrelas. Filho e neto de músicos (o pai era também fabricante de sapatos), estudou com Meira (que foi professor de outro jovem gênio, Raphael Rabello) e foi por ele apresentado aos clássicos do violão - Segóvia, Rodrigo, Villa-Lobos.Na casa do pai, conheceu - de fato - Donga, Pixinguinha, os grandes chorões e demais sambistas. Tocando na noite, descobriu o jazz e, durante algum tempo, trocou o violão pela guitarra. Inicialmente, era acompanhante e foi o guitarrista oficial da gravadora Philips. Em 1956, teve chance de mostrar suas composições a Billy Blanco, já famoso, parceiro de Tom Jobim. Levou um samba já com título - Samba Triste. Billy achou bacana a ousadia do moleque e fez a letra em meia hora.Baden já era um grande violonista. Começava a apresentar ao mundo o grande compositor que também foi. Seu violão trouxe como herança de Meira o vigor do toque caracteristicamente nordestino (e oposto diametralmente ao toque da bossa); combinava a isso a sofisticação harmônica, temperada pelo vasto universo de referências musicais, mais a técnica impecável, a criatividade elevada ao grau mais brilhante que um violonista já pôde exibir.O patamar do compositor é da mesma excelência. Baden definiu um padrão de linguagem que acumula e recombina freqüências de Pixinguinha, Cartola, Nelson Cavaquinho, Villa-Lobos, Segovia, Chopin, Debussy, cantos afro-brasileiros de terreiro, religiosos ou profanos e mais e mais: criou uma sintaxe nova, uma condução peculiar, uma impressão digital que diferencia sua composição de qualquer outra e influenciou e influencia gerações de autores e instrumentistas.Leia mais.

Agencia Estado,

12 de maio de 2003 | 17h28

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