Em CD, duas sinfonias de Heitor Villa-Lobos

Gravar a integral da gigantesca, amazônica produção sinfônica de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Esse é o megaprojeto inédito - de valor fundamental para a preservação e a divulgação da obra do nosso maior compositor - que vem desenvolvendo, desde 1995, o regente americano Carl St. Clair, diante da Orquestra Sinfônica da Rádio Stuttgart, da Alemanha. Depois das Sinfonias de números 1, 4, 11 e 12, chegou a vez das de números 6 (subintutulada Sobre a linha das montanhas do Brasil), datada de 1944, e 8, escrita em 1950.Como aconteceu com as outras partituras gravadas antes pela mesma etiqueta CPO, e que igualmente traziam na capa do CD uma reprodução de alguma pintura de Portinari, essas mais recentes são executadas com a conveniente atenção aos originais. E mais: revelam um enorme empenho em fazer com que o discurso soe expressivo, significativo. Por suas qualidades, essas leituras já nascem como "versões de referência".É curioso, paradoxal até, que o rapsódico Villa-Lobos tenha composto tantas sinfonias. Afinal, seu pensamento sempre se deu melhor no cultivo das pequenas formas ou, então, no campo dos instantâneos sonoros estruturalmente abertos nos quais deixava sua imaginação correr livremente. Autodidata avesso às lições estritas e acadêmicas do Conservatório, músico prático que chegou a participar de grupos de chorões e a tocar em orquestrinhas de cinema, ele sempre foi um compositor por assim dizer "natural". Não há exagero algum em dizer que, como Mozart e Schubert, Villa-Lobos simplesmente jorrava música.Avesso às tradições - Só que, muito diferentemente desses grandes mestres do passado, ele nem sempre conseguiu se movimentar com suficiente desembaraço dentro dos quadros formais estabelecidos pela tradição. Para ele, os arquétipos consagrados geralmente funcionavam como espartilhos, e não como elementos detonadores da sua poderosa imaginação. Entreando-se à sinfonia nada mais nada menos que 11 vozes, entre 1916 e 1957, Villa-Lobos deixou nesse domínio muitos traços de sua genialidade, ainda que nem sempre essas obras, individualmente, resultem em entidades esteticamente justificáveis à mera audição.As cinco primeiras Sinfonias, escritas em curto espaço de tempo (1916-1920), têm fonte de inspiração extra-musical - como os eventos relacionados à Primeira Guerra, por exemplo. Depois delas, o autor só voltaria ao gênero 22 anos depois, exatamente com a Sexta Sinfonia agora registrada pela orquestra alemã. Seu tema principal surgiu da imagem do perfil de determinadas montanhas brasileiras, posto em papel milimetrado e transformado em notas musicais. Mas a experimentação do compositor parou por aí. A obra, como um todo, lembra uma suíte historicamente envelhecida, uma seqüência de movimentos vagamente interligados.A Oitava Sinfonia, de 1950, pertence ao último período estilístico de Villa-Lobos, então preocupado com o virtuosismo instrumental e com a utilização de formas pinçadas no vocabulário barroco. Deixando momentaneamente de lado a mola propulsora fundamental da sua imaginação, a música popular brasileira, ele à época entregou-se a um exercício que resultou em música mais esforçada que inspirada. E que ironia: na juventude, o compositor havia sido bastante combatido, sobretudo no Brasil, por ser considerado um iconoclasta; quando a Oitava foi ouvida pela primeira vez, seu autor foi chamado de retrógrado, de passadista...Completa o disco uma obra especialmente curiosa, a Suíte para quinteto duplo de cordas, de 1912/13, na qual os três movimentos - Timide, Mysterieuse e Inquiète (Air de Ballet) - revelam o jovem músico anterior à sua descoberta do folclore brasileiro, fazendo música à maneira francesa e em pauta bem romântica.

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