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Em CD, Andreas Staier leva o ouvinte de volta ao século 19

O cravista e fortepianista alemão interpreta as célebres, porém pouco tocadas, 'Variações Diabelli'

27 de agosto de 2012 | 10h27

Crítica: João Marcos Coelho

Avaliação: Excelente

Reinvenção ou máquina do tempo? O cravista e fortepianista alemão Andreas Staier, de 56 anos, opera este duplo milagre ao interpretar as célebres porém pouco tocadas Variações Diabelli, opus 120, de Beethoven em CD recém-lançado no mercado internacional pela Harmonia Mundi (download em www.classicsonline.com por $ 9,99). É uma das obras de sua plena maturidade, completada em 1823, ao mesmo tempo que a Missa Solemnis e as últimas três grandes sonatas para piano.

Staier nos mostra como é possível renovar a leitura de uma peça que pensávamos conhecer. Sobretudo por ouvirmos as Diabelli em pianos modernos. Em algumas variações ele utiliza recursos como pedais que hoje não existem mais, proporcionando timbres inéditos. É incrível, mas verdadeiro. A paleta timbrística do piano se enriquece.

Pilotando um pianoforte em tudo semelhante àquele feito por Conrad Graf especialmente para Beethoven em 1824, Staier nos mostra uma riqueza e diversidade insuspeitadas para nossos modernos ouvidos.

É difícil de acreditar, mas Beethoven, então já totalmente surdo, fez uma exaustiva pesquisa de timbres nesta obra que nasceu como um convite feito pelo editor Anton Diabelli a 50 músicos e amadores ilustres de Viena, em 1819. Ele mandou, numa folha única, uma valsinha, pedindo que lhe devolvessem uma variação nas costas daquela página. Ou seja, queria quase uma vinheta, de não mais de 40 ou 50 segundos, tempo de duração do tema.

Entre os convidados, nomes ilustres como o de Franz Schubert e o então pré-adolescente Franz Liszt, mas também o arquiduque Rodolfo, mecenas e aluno de Beethoven. Isto é, amadores e profissionais juntos numa banal jogada de marketing.

Pois Beethoven aproveitou o gancho para compor uma obra monumental, ao todo 33 variações. Eu não sabia, mas é quase um crime ouvi-las num piano moderno. Só tive consciência disso ao ouvir este CD. Na ótima entrevista no encarte, Staier diz que as Diabelli são “música endereçada mais aos conhecedores que aos amadores, no fundo estamos diante de música para músicos”. Ele costuma, aliás, ir fundo em cada projeto artístico. Neste caso, resgatou o manuscrito autógrafo, que inexplicavelmente permanecia inacessível aos pesquisadores - e levou a Beethoven-Haus, o museu-memorial-centro cultural dedicado ao compositor de Viena, a disponibilizá-lo (www.beethoven-haus-bonn.de).

Até para marcar a imensa diferença entre as 33 Variações de Beethoven e as descompromissadas variações dos demais convocados pelo editor Diabelli, Staier toca dez deste último grupo. O cravista alemão separa os dois blocos de natureza e qualidade tão diferente - num gesto atrevidíssimo para os padrões atuais, mas absolutamente adequado para a prática e estética musical vigente na Viena das primeiras décadas do século 19 - com um improviso seu a partir de fragmentos de Beethoven, que intitulou Introdução.

Ele explica assim seu gesto: “Com a introdução, quis criar um espaço sonoro que separa claramente os 12 prelúdios de Czerny a Schubert do grande ciclo de Beethoven. É uma espécie de respiro, numa música de escrita extremamente rigorosa. Acho que a dimensão do improviso tem um lugar perfeito aqui. Permite, por outro lado, numa segunda audição, devolver à valsa de Diabelli todo o seu frescor. Prendo-me à essência do que se reconhece no esboço de Beethoven de 1819. Permaneço próximo do tema”.

O fortepianista argumenta que Beethoven constrói suas variações por meio de “ondas dinâmicas”, que se distribuem numa “a arquitetura minuciosamente concebida”. Por isso, ficam incompreensíveis se tocadas isoladamente.

Timbres. O pianoforte Graf de 1824 produz timbres diferentes, que normalmente não ouvimos num piano moderno. Dotado de pedais que Staier chama de “exóticos”, permite inesperadas mudanças de timbre. Não é algo que Beethoven tenha tornado explícito na partitura. Mas, sem dúvida, é uma das geniais sacadas do pianista, que explora todos os recursos que os pianofortes daquela época possuíam.

Staier explica, de novo: “Os pedais exóticos, sobretudo o pedal janízaro e o fagote, eram na época muito usados pelos amadores em Viena. Eles têm um potencial interessante. E podem ser seriamente utilizados”. Já na terceira variação, Staier usa o pedal que chama de moderador. Na variação 20, combina o moderador com outro pedal, o “una corda”, recurso repetido na variação 20, que caminha por acordes e arpejos de colorido místico. Obtém uma sonoridade mais longínqua e misteriosa.

No piano moderno de concerto, o pedal una corda é aquele que fica do lado esquerdo: desloca o teclado alguns milímetros para a direita, fazendo com que os marteletes que percutem feixes de cordas passem a percutir uma só corda do feixe. À direita fica o pedal de reverberação, ressonância ou sustentação, que libera os abafadores deixando as cordas vibrarem livremente. Ao centro, fica o pedal tonal: ele afasta o abafador apenas das cordas que estão sendo percutidas - assim, liberam-se só as reverberações tonais.

Nos pianofortes Graf, havia outros tipos de pedais que usavam até papéis entre as cordas para provocar efeito percussivo. O janízaro reproduz a percussão típica da música turca, então muito em voga.

Outro pedal exótico usado nesta gravação é o “basson”, ou fagote. De novo, papel ou seda são colocados sobre as cordas mais graves, para criar um ruído semelhante ao do fagote. Staier o utiliza na variação 22, apelidada de “Don Giovanni” em alusão ao personagem da ópera de Mozart.

Monumento. Estes são apenas alguns entre os vários atributos que tornam definitivamente esta leitura das Variações Diabelli um verdadeiro acontecimento. Andreas Staier consegue o que parece impossível: mostra como os contemporâneos, incluindo os ilustres e os amadores, tratavam as variações; dá ao ouvinte toda a imensa dimensão da formidável empreitada de Beethoven, ao transformar o que seria uma brincadeira num monumento pianístico. E, ainda por cima, nos transporta concretamente para o momento sonoro exato em que Beethoven as compôs, em 1823/24.

Sua intimidade com o pianoforte Graf é tamanha que dá a impressão de ele ter tocado nele a vida inteira. A técnica superlativa e uma imaginação musical prodigiosa nos fazem esquecer todo o aparato técnico acima descrito e nos concentrar apenas no encanto que estas 33 variações provocam. É Beethoven de corpo inteiro, por um músico de exceção. Precisa mais?

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