Flora Gil
Flora Gil

Em cada linha, obra de Gilberto Gil fala por si

Ao mesmo tempo em que reinventava a harmonia e a forma de caminhar por ela com suas linhas melódicas, Gil, o novo imortal da Academia Brasileira de Letras, erguia um discurso denso e flexível, regionalista e amplo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2022 | 10h00

Aos que cobram texto dos membros nomeados para a imortalidade pela Academia Brasileira de Letras, Gilberto Gil, o mais novo integrante, tem muitos. Sua posse na ABL será nesta sexta, 8. Analogamente à criação do uso da harmonia que leva a sua assinatura no segundo ou terceiro acorde, ao mesmo tempo em que desenvolvia sua canção menos gilbertiana e mais gonzaguiana do que Caetano Veloso, Gil lidava com a palavra com presença e amplitude, densidade e fruição. Gil é um mestre, basta revisitar qualquer trecho de suas obras:

1. Lamento Sertanejo:

Por ser de lá

Do sertão, lá do cerrado

Lá do interior do mato

Da caatinga do roçado.

Eu quase não saio

Eu quase não tenho amigos

Eu quase que não consigo

Ficar na cidade sem viver contrariado.

Por ser de lá

Na certa por isso mesmo

Não gosto de cama mole

Não sei comer sem torresmo

Eu quase não falo

Eu quase não sei de nada

Sou como rês desgarrada

Nessa multidão boiada caminhando a esmo

2. Não Tenho Medo da Morte

Não tenho medo da morte

Mas sim medo de morrer

Qual seria a diferença

Você há de perguntar

É que a morte já é depois

Que eu deixar de respirar

Morrer ainda é aqui

Na vida, no sol, no ar

Ainda pode haver dor

Ou vontade de mijar

A morte já é depois

Já não haverá ninguém

Como eu aqui agora

Pensando sobre o além

Já não haverá o além

O além já será então

Não terei pé nem cabeça

Nem fígado, nem pulmão

Como poderei ter medo

Se não terei coração?

3. Tempo Rei

Não me iludo

Tudo permanecerá do jeito que tem sido

Transcorrendo, transformando

Tempo e espaço navegando todos os sentidos

Pães de Açúcar, Corcovados

Fustigados pela chuva e pelo eterno vento

Água mole, pedra dura

Tanto bate que não restará nem pensamento

Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei

Transformai as velhas formas do viver

Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei

Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

4. Se Eu Quiser Falar com Deus

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus

Tenho que aceitar a dor

Tenho que comer o pão

Que o diabo amassou

Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão

Dos palácios, dos castelos

Suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho

E apesar de um mal tamanho

Alegrar meu coração

5. Drão

Drão, o amor da gente é como um grão

Uma semente de ilusão

Tem que morrer pra germinar plantar n'algum lugar

Ressuscitar no chão nossa semeadura

Quem poderá fazer aquele amor morrer

Nossa caminhadura?

Dura caminhada

Pela estrada escura

Drão, não pense na separação

Não despedace o coração

O verdadeiro amor é vão

Estende-se infinito, imenso monolito, nossa arquitetura

Quem poderá fazer aquele amor morrer

Nossa caminhadura?

Cama de tatame

Pela vida afora

6. Refazenda

Abacateiro, acataremos teu ato

Nós também somos do mato como o pato e o leão

Aguardaremos, brincaremos no regato

Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Abacateiro, teu recolhimento é justamente

O significado da palavra temporão

Enquanto o tempo não trouxer teu abacate

Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão

Abacateiro, sabes ao que estou me referindo

Porque todo tamarindo tem

O seu agosto azedo, cedo, antes

Que o janeiro doce manga venha ser também

7. Copo Vazio

É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar

É sempre bom lembrar

Que o ar sombrio de um rosto

Está cheio de um ar vazio

Vazio daquilo que no ar do copo

Ocupa um lugar

É sempre bom lembrar

Guardar de cor que o ar vazio

De um rosto sombrio está cheio de dor

É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar

Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho

Que o vinho busca ocupar o lugar da dor

Que a dor ocupa metade da verdade

A verdadeira natureza interior

Uma metade cheia, uma metade vazia

Uma metade tristeza, uma metade alegria

A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

A magia da verdade inteira, todo poderoso amor

É sempre bom lembrar

Que um copo vazio

Está cheio de ar 

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