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Em 'Boogie Naipe', Mano Brown prova que brutos também amam

Novo álbum é o primeiro solo do rapper do Racionais MC’s

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

12 de dezembro de 2016 | 04h00

É Pedro Paulo, mas pode chamar de Mano. Mano Brown. Pela primeira vez solo, um dos rostos do Racionais MC’s coloca a cara a tapa. Põe o som na pista – e o que sai das caixas de som é um resgate às festas de black music que embalavam as tardes e noites de Pedro Paulo, hoje aos 46 anos, na juventude.

Brown colocou no mundo Boogie Naipe, álbum sem o Racionais MC’s, grupo que fundou as bases do rap brasileiro nos anos 1990 com a cara fechada e as letras contundentes. 

Com Brown, KL Jay, Ice Blue e Edi Rock, o Racionais mostrou as feridas que, muitas vezes, o Brasil não queria ver. Cantou o drama, versou a dor, bateu no racismo, na injustiça social e na mazelas transformadas pela classe média e alta em poeira a ser varrida para baixo do tapete. O rap nacional é outro, é voz ativa e forte. Os limites do rap foram para a cucuia. Novos sons, rostos não tão embrutecidos, tudo é permitido.

Brown, rosto duro, também sorri. Boogie Naipe foi gestado ao longo de dois anos – há pelo menos dez anos ele já lidava com a ideia de lançar um trabalho solo. É, afinal, um Brown. Novo? Imaginar que seja um “novo” Brown é uma estupidez. É, talvez, o velho Brown.

Ao lado de Lino Kriss, que assina a produção do álbum com o rapper também cantor, Brown preferiu olhar para o passado. Buscar no groove de Marvin Gaye e outros sons que estouravam as caixas nos bailes da juventude, com graves suingados, vocais perfeitos para serem cantados de rosto colado. Brown é movido pela nostalgia. Brown, em seu som, é movido pelo... amor.

Mal de Amor, a terceira dentre as 22 músicas do álbum, escancara o que Brown também é capaz de dizer. “Quem levou a pior fui eu / Um dia fomos um só / Pensei que jogo louco é o amor / Quem ama sai perdedor.” A faixa, com a participação de Kriss e Ellen Oléria, é a primeira aventura de Brown pelo canto. Vozeirão grave atinge as notas agudas em uma transição assustadoramente natural. 

O baile de Brown é suado, de corpo no corpo, de garotas “elétricas”. Em Mulher Elétrica, a pista é fervida sensualmente com a descrição da personagem título. “3 da manhã, ela é só suor / Ela flerta, ela causa, ela é mó B.O.”, canta. 

Com pouco mais de uma hora de festa, Brown sorri e ama, chora e sofre. Remexe suas cordas vocais ao sabor do groove, versa em tons graves com a contundência que conhecemos. Com seu baile, Brown coloca todos para dançar – inclusive as listas de melhores discos do ano. 

Os brutos também amam. Sabem puxar a garota para a dançar, sabem conquistá-la com molejo nos quadris, beijos no pescoço suado e papos ao pé do ouvido. E quem diria que, neste louco 2016, os nossos corações partidos seriam acalantados por versos do feroz Mano Brown?

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