Em 'A Geladeira', Paulo Chagas consegue transcender seu sofrimento pessoal

Futuro verá composição como obra de arte e não apenas um documento político

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2014 | 11h22

O compositor alemão Bernd Alois Zimmermann dedicou seus últimos quatro anos de vida (morreu em 1970) a uma obra grandiosa, o Requiem para um jovem poeta. Narrador, solistas vocais, três corais, orquestra, uma big band e órgão cantam, recitam e recriam sobre textos representativos do período 1938-68 eletronicamente trabalhados, de Chamberlain e Churchill a Hitler e Stálin, Mao a Papandreou e ao desafortunado Dubcek da primavera de Praga. Quis fazer música política mostrando todas as posições e ao mesmo tempo não tomando nenhuma.

Isso não é música politicamente engajada. É atitude de historiador – e ficaria melhor num produto multimídia ou tese acadêmica. Música política visceral, decisiva, é o que o bom público presente anteontem ao Teatro Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo, testemunhou em primeira mão. Assistimos todos, chocados com o conteúdo e impactados pela qualidade musical, o oratório digital “A Geladeira”, do compositor brasileiro Paulo Chagas, baiano de 60 anos nascido em Salvador, crescido no Rio e hoje professor na Universidade da Califórnia.

Aos 17 anos, em 1971, foi torturado num dos centros identificados pela Comissão da Verdade no Rio de Janeiro. Durante três dias e noites, ficou numa cela de 2 por 2 metros, equivalent a uma geladeira, de pé, sem poder se mexer. Revestida de eucatex, ar condicionado no frio máximo. Nas paredes e no teto, alto-falantes embutidos. Chagas sofreu tortura acústica, como o personagem Alex de “Laranja Mecânica” no Tratamento Ludovico do filme de Kubrick, curiosamente produzido naquele mesmo ano de 1971: o brasileiro ouvia sons de estática e ruídos como de motos em altíssimo volume, combinados com gargalhadas e palavrões dos torturadores (no filme, Alex quase estoura os tímpanos ouvindo a Nona de Beethoven).

O oratório divide-se em oito partes: Introdução (a escuridão da inconsciência); A eletricidade (máquina de meter medo); Os ruídos (imersão nas vibrações caóticas); O frio (sopro da morte); A culpa (testemunhando a tortura de um ser amado); A dor (sentimento de finitude); As formas de tortura (a tortura invisível); e A paz (música que vive não-cantada). Ao todo, 40 minutos eletrizantes, de arrepiar, porque ali, no palco, está uma história que está mais viva do que nunca no noticiário de 2014. Semana passada, diante de 60 milhões de pessoas no Jornal Nacional da Globo, um torturador negou seus atos mas foi emocionadamente desmentido por Darci Miyaki. O conteúdo de verdade de Miyaki é o mesmo de Paulo Chagas. O compositor, no entanto, conseguiu transcender seu sofrimento pessoal; transformou-o em mais do que música panfletária. O futuro verá “A Geladeira” como obra de arte, e não apenas um documento político.

Os integrantes do Núcleo Hespérides construíram uma performance de ótimo nível de uma partitura que requer mais do que empenho: exibe qualidade artística e exige bastante dos intérpretes. Participaram, com ótimo desempenho, desta estreia mundial histórica: a mezzo-soprano Maria Lúcia Waldow e o barítono Ademir Costa; os músicos Eliane Tokeshi (violino), Ji Yom Shim (violoncelo), Ricardo Kubala (viola), Rosana Civile (piano) e Joaquim Abreu (percussão). Na regência, Ricardo Bologna. E o próprio compositor na eletrônica.

A primeira parte, um bom levantamento histórico de peças do período 1944-1966, em que pipocaram vários manifestos de músicos brasileiros, soou envelhecida e burocrática. Empalideceu totalmente diante do impacto de “A Geladeira”. Melhor teria sido preencher o concerto inteiro com a estreia do oratório digital de Chagas e em seguida promover um diálogo entre músicos, compositor e plateia.

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