Elza volta cercada de grandes amigos

A gota de saliva cai por via errada e vai parar nas cordas vocais. É tudo o que Elza Soares mais quer. Quando canta, gosta de sentir arrepios do cóccix ao pescoço usando a artimanha. O canto gutural, não ensinado em escola, causa uma espécie de "efeito Louis Armstrong". Ela diz que não sabe de onde veio, que o aprendeu levantando lata d´água do chão à cabeça. Foi um gemido de dor que virou música.De visual black power, dirigida por Gringo Cardia e Rita Lee, produzida por José Miguel Wisnik, presenteada com canções inéditas de Caetano Veloso e Chico Buarque, Elza Soares vai sepultando os dias amargurados que viveu até chegar aos 65 anos. Em São Paulo, estará de amanhã a domingo, no Sesc Vila Mariana, para lançar o comemorado Do Cóccix até o Pescoço."Existem coisas que nem Freud explica. Nunca estudei nada, já nasci assim. Estava tudo em mim mas eu não sabia. Só fui descobrir bem depois." A forma como descreve os atributos que fez a emissora BBC de Londres elegê-la a "cantora do milênio" chega a ser ingênua. Mas Elza Soares prefere assim, se definir como "uma cantora rebelde, uma criança levada."E foi exatamente esta a imagem que Louis Armstrong viu em sua frente durante a Copa do Mundo no Chile, em 1962. Elza, madrinha da seleção brasileira e mulher do jogador Garrincha, ouviu o negro de rosto redondo e voz encorpada, encantado com sua apresentação, chamá-la de "my daughter" e não gostou. "Não curti nada aquela coisa de ficar sendo chamada de doutora o tempo todo."Então lhe explicaram que "daughter" era filha em inglês e que o jazzman só queria ser carinhoso. Elza, por sua vez, quis saber de que forma deveria retribuir. "Chame-o de my father". A entonação na fala rápida de seu assessor lhe soou como um palavrão e, até descobrir que "father" era pai, excomungou o amigo que lhe tentara ajudar. "Como é que eu ia dizer uma coisa indecente dessas a ele, pensei."O respeito que Elza sexagenária atrai com o trabalho novo vem sendo pavimentado a duras penas e longos anos. Nem sempre houve uma fila de compositores em sua porta para oferecer novas canções. E nunca esteve tão cercada de artistas de grife. Se hoje lembra tanto de Louis Armstrong é por que foi ele o primeiro a considerá-la estrela em seu mundo maravilhoso. Quando morreu, em 1971, ela se sentiu órfã.No mesmo Chile de 62, Elza lhe perguntou como é que conseguia aquele efeito primitivo na voz chegar tão de repente, e cantar, segundos depois, melodias tão limpas. Ele só respondeu "I don´t know my daughter". Quando lhe fazem a mesma pergunta 40 anos depois, ela usa a mesma resposta. "Eu não faço a mínima idéia meu querido."Garrincha lhe apresentou a glória e o precipício. A glória porque nunca sentiu amor maior por outro homem. O precipício porque, na época, a condenaram como o motivo da decadência do jogador. "Hoje não me importo mais com isso. Outras Elzas apareceram, mas hoje são bem mais ricas do que eu era", disse em entrevista recente.Sua relação com gravadoras tem momentos conturbados. De uma delas, foi demitida por telefone. Ainda não voltou a uma empresa multinacional mas não sente falta. No selo Maianga é tratada como rainha. O fenômeno que a conduz de novo ao palco principal é o mesmo pelo qual passou Tom Zé há três anos. O artista é considerado zé ninguém até que um crítico de uma revista especializada européia ou um produtor americano diga que ele é bom. Se lá fora disseram, então dizemos também.A BBC de Londres disse que era dela a melhor voz do milênio e tentou arranjar um show para fazer ao lado de Tina Turner. O show caiu no esquecimento mas o título despertou o interesse da mídia. Dos críticos que ouviram seu disco até agora, todos disseram ser o melhor do ano. E 2002 nem acabou.Elza Soares no show Do Coccix até o Pescoço. Amanhã e sábado, às 21h. Domingo, às 18h. Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141. Tel. 5080-3000) Ingressos: R$ 25.

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