‘Elza Soares ensinou o Brasil a amar’, diz empresário da cantora

Para Pedro Loureiro, artista só teve reconhecimento pleno nos seis últimos anos da carreira de quase 70 anos

Roberta Jansen - O Estado de S.Paulo

RIO - O empresário de Elza Soares, Pedro Loureiro, disse que a cantora ensinou o Brasil a amar.

Corpo de Elza Soares é velado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo

“Elza amou. Ela ensinou este País a amar. Ela insistiu que a gente poderia amar. E este País demorou muito a reconhecer Elza Soares. Foram muitos anos para reconhecer Elza Soares. Ela ia fazer 70 anos de carreira e só nos últimos seis anos chegou ao apogeu que merecia. A gente não sabe ser País ainda. A gente ainda não sabe valorizar os nossos ídolos. A gente tem que aprender muito. Elza Soares nos deixou este legado. Ela nos ensinou a ser gente. Ela nos ensinou que, quando a gente descia no aeroporto e vinha um vendedor de bala e queria um beijo dela, ela o beijava como beijava o bam-bam-bam de qualquer lugar.”

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Integrantes da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel prestaram uma homenagem à cantora Elza Soares, durante o seu velório, na manhã desta sexta-feira, 21, no Teatro Municipal do Rio. Vestidos a caráter, eles estenderam uma bandeira da escola sobre o caixão da cantora e ofereceram à artista uma longa salva de palmas.

Durante toda a vida Elza foi ligada à escola. De 1973 a 1977 foi intérprete da Mocidade. Em 1974, gravou Salve a Mocidade, que se tornou um grande sucesso. No carnaval de 2010, Elza foi madrinha de bateria da escola. Finalmente, em 2020, foi homenageada em enredo.

Elza Soares em desfile da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel em 2003.  Foto: Otavio Magalhaes/AE

Rio decreta luto oficial

O  prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD),  decretou três dias de luto oficial no pela morte da cantora Elza Soares, ocorrida na última quinta-feira, 20, aos 91 anos. O prefeito está no velório da artista, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que começou às 8h desta sexta-feira, 21 e foi aberto ao público às 10h.

O corpo de Elza ficará no hall do teatro até as 14h, quando seguirá em carro aberto do Corpo de Bombeiro até o cemitério de Jaridm Sulacap, na zona oeste da capital carioca. Lá,  será enterrado, às 16h, depois de uma última homenagem fechada ao público.

 

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Morre a cantora Elza Soares aos 91 anos

Intérprete estava em sua casa no Rio de Janeiro e teve morte por causas naturais

Danilo Casaletti - Especial para o Estadão

A cantora Elza Soares morreu nesta quinta, 20, aos 91 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. De acordo com informações de sua assessoria, por meio de nota no Instagram, a intérprete teve morte por causas naturais. 

Elza fez sucesso interpretando clássicos como Se Acaso Você Chegasse, cuja gravação lançou em 1960. Seu disco mais recente, Planeta Fome, é de 2019.

A cantora Elza Soares, em foto de 2007 Foto: Alaor Filho/ Estadão

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Em 2020 Elza foi homenageada como enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Ela chegou a ser intérprete de sambas da agremiação.

Elza morreu no dia em que se completam 39 anos da morte de Garrincha, jogador de futebol com quem foi casada de 1966 até 1982. Eles tiveram um filho, Garrinchinha, que morreu em 1986, em um acidente de carro.

Ex-faxineira e empregada doméstica, Elza Soares sofreu nos longos tentáculos do racismo. Foi atacada por ser negra, por ser mulher, por ser pobre e por ter se casado com Mané Garrincha, sua paixão. Sem pai por perto, perdeu de forma trágica a mãe, o marido e um filho, caiu em depressão, levantou-se e encontrou Louis Armstrong com todo aquele sorriso. O tempo talhou a voz e a alma e a canção deixou de ser doce como era antes. Tanto em A Mulher do Fim do Mundo quanto em Deus é Mulher, seus dois últimos trabalhos, quem canta é a Elza dos novos estandartes. 

 

Vida e obra

Elza da Conceição Soares, ou apenas Elza Soares, como ficou conhecida do público, nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro. Criada na favela de Água Santa, na zona norte carioca, tinha propriedade para cantar os versos do samba Lata D’Água, sucesso do carnaval de 1952, na voz da cantora Marlene.

De infância pobre, tornou-se mãe cedo e carregou muita lata de água na cabeça morro acima. Trabalhou como empregada doméstica, e viu seu destino mudar quando resolveu enfrentar o temível Ary Barroso em seu programa Calouros em Desfile, na rádio Tupi. Tirou a nota máxima ao interpretar o bolero Lama.

A partir daí, foi ser crooner de orquestra na noite carioca até ser contrata pela gravadora Odeon, no final dos anos 1950, na qual gravou seu primeiro disco. Logo de início, emplacou sucessos como os sambas Mulata Assanhada, Boato e Beija-me, além de uma versão de In The Mood, que ganhou o título de Edmundo.

Pouco tempo depois, casou-se com o jogador Garrincha, no auge de sua carreira nos gramados, e foi duramente perseguida pela opinião pública. Em inúmeras entrevistas, falou sobre o assunto.

No ano seguinte, lançou um álbum considerado por muitos um de seus melhores trabalhos, em parceria com o baterista Wilson das Neves. No repertório, músicas como Mais Que Nada, Samba de Verão e Se Acaso Você Chegasse, essa última música, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, seu primeiro sucesso na carreira.

Nos anos 1970, seguiu emplacando sucessos e gravando regularmente. Dessa época, destacam-se músicas como Salve a Mocidade, que homenageia sua escola de samba de coração, e Malandro, outro clássico de sua carreira.

Resgatada por Caetano Veloso

Na década seguinte, sem espaço na mídia, foi reabilitada pelo cantor e compositor Caetano Veloso que a convidou para uma participação na faixa Língua, de seu disco Velô, de 1984. Voltou a ser abraçada pelo público e pela classe artística.

Em 1999, foi eleita a cantora do milênio pela BBC de Londres, título que ostentava com orgulho e a que fez voltar com tudo para a mídia, sobretudo com o espetáculo Dura na Queda, que deu origem ao CD Do Cócix Até o Pescoço, no qual gravou canções inéditas de Chico Buarque, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso. 

Nesse álbum está a canção A Carne, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Cappelette, que virou um hino contra o racismo e que passou a fazer parte de praticamente todos os shows da cantora dali em diante.

Em 2015, deu início a uma trilogia que resultou em A Mulher do Fim do Mundo (2015), Deus É Mulher (2018) e Planeta Fome (2019), Nesses trabalhos, deu espaço para novos compositores e denunciou, por meio das canções, temas como a violência contra a mulher e a desigualdade social do país. Com esses trabalhos, já perto dos 90 anos de idade, renovou seu público e passou atrair jovens para seus shows e redes sociais.

Seu último álbum a chegar nas plataformas foi Elza Soares & João de Aquino, lançando em dezembro de 2021. Na verdade, trata-se de uma gravação realizada na década de 1980 em São Paulo que permanecia inédita até então. Nele, estão músicas inéditas na voz da cantora, como Drão, de Gilberto Gil, Como Uma Onda, de Lulu Santos e Nelson Motta, Hoje, de Taiguara, e Juventude Transviada, de Luiz Melodia.

Lives na pandemia

Durante a pandemia, Elza realizou lives ao lado de nomes como Seu Jorge e Agnes Nunes. No começo de 2022, gravou um DVD no Theatro Municipal de São Paulo, sem a presença do público e já trabalhava na gravação de um novo disco, com produção de Rafael Ramos. Elza tinha uma show agendado para o dia 3 de fevereiro na Casa Natura, em São Paulo, ao lado do rapper Flávio Renegado.

Interpretações

 

Velório 

O velório da cantora Elza Soares será no Theatro Municipal do Rio de Janeiro dia 21 de janeiro (sexta-feira). Das 8h às 10h será fechado para familiares e amigos e das 10h às 14h será aberto ao público.  

O translado para o cemitério Jardim da Saudade de Sulacap será feito pelo carro do Corpo de Bombeiros com trajeto passando pela Av. Atlântica. O velório no cemitério, assim como o enterro, serão restritos aos familiares e amigos.

 

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Artistas lamentam morte de Elza Soares

Da cantora Gal Costa ao humorista Marcelo Adnet, personalidades se despedem da cantora

Patrick Freitas e Matheus Lopes Quirino - O Estado de S. Paulo

"Façamos, vamos amar!", foi um dos versos que grudaram feito chiclete no imaginário do povo brasileiro. Na canção interpretada por Elza Soares e Chico Buarque de Hollanda, 'Façamos', adaptado do hit de Cole Porter, figurou entre as faixas de um belo album de 1999,  parceria marcante dos dois.  "Quanta tristeza! A nossa DIVA Elza Soares fez sua passagem hoje. A Voz do Milênio, Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna!", escreveu a cantora Leci Brandão  em seu Twitter.  Esse é o sentimento, entoado nos versos da canção, que se espalha pela internet quando veio a notícia da morte da  intérprete aos 91 anos. 

Foto da cantora Elza Soares, que está no livro Thereza Eugênia - Portraits (1970-1980).  Foto: Thereza Eugênia

Caetano Veloso 

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Gil do Vigor 

Sâmia Bonfim

Cantora e compositora de voz ímpar, que tanto nos encoraja a lutar em suas letras. Sua história de vida e seu talento são dignos de todas as homenagens.Vá em paz, Elza

Leci Brandão 

Quanta tristeza! A nossa DIVA Elza Soares fez sua passagem hoje. A Voz do Milênio, Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna! 

Zélia Duncan 

Gal Costa 

Lázaro Ramos 

 

 

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Elza morreu exatamente 39 anos após Garrincha

Um dos grandes craques do futebol brasileiro, seu companheiro morreu em 20 de fevereiro de 1983

Patrick Freitas - Especial para o Estadão

Garrincha conheceu Elza em 1962, pouco antes da Copa do Mundo do Chile. Na época, o craque era casado e tinha oito filhas. Depois de voltar vitorioso da competição,separou da esposa para viver com a cantora por quem se apaixonou.

O divórcio ainda não existia no Brasil – a Lei do Divórcio foi instituída em 1977, e a permissão para constituir outra união legal só foi contemplada pela Constituição de 1988. A única forma de separação era o desquite, um tabu naquele tempo. Muitos fãs se revoltaram com o caso. Garrincha sempre defendia Elza quando ela era acusada de ter acabado com seu casamento.

Elza Soares e Garrincha, em foto publicada pelo Jornal da Tarde em 1966 Foto: Acervo Estadão

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Do casamento, nasceu Manuel Garrincha dos Santos Junior, o "Garrinchinha", único filho do casal, em 1976. Garrinchinha, no entanto, faleceu precocemente, aos 9 anos, vítima de um acidente de carro. Elza sofreu diversas violências praticadas pelo futebolista e não aceitou mais as agressões físicas e traições de Garrincha.

Garrincha e Elza se separaram em 1982. No ano seguinte, Garrincha morreu em decorrência de uma série de problemas de saúde causados pelo alcoolismo. 

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Faltou tudo a Elza Soares, só não faltou voz

"A única coisa que me dá medo é o ódio. Meu Deus, por que nos tornamos assim? O que houve com o nosso País, meu Deus?", disse a cantora em entrevista concedida ao Estadão, em 2020

JULIO MARIA - O Estado de S.Paulo

É como perder a maior guerreira na batalha final, vão lamentar os que conheceram a Elza das palavras mais duras, politizada e contundente, de 2015 pra cá. Se foi a voz do samba jazz, dirão os apaixonados por sua discografia, sobretudo dos anos 60 e 70, e em especial de discos como Elza Soares, baterista: Wilson das Neves, de 1968. Ninguém pediu perdão, se lembrarão quem a viu ser massacrada em praça pública, com pedradas e xingamentos, ao ser assumida pelo jogador Garrincha.

Elza Soares e Garrincha Foto: AP

Elza Soares ocupou um lugar superior ao de grande cantora, o que já seria muito, por sobreviver a uma vida marcada por tragédias, racismo, paixões destruídas e, em todos os sentidos, uma implacável falta. Faltou tudo a Elza Soares: família, compreensão, amigos verdadeiros, respeito. Mas não faltou voz. Quando então se tornou enorme e pode falar do alto da entidade que se tornou em vida em seus últimos anos, respondeu assim ao Estadão ao ser perguntada sobre a saída para um país conflagrado pelo ódio: “Quando soubermos que não somos nada, e que somos todos iguais, seremos mais leves, teremos mais amor e voltaremos a ter mais esperança.”

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Na mesma entrevista, a última que daria para o jornal, uma das últimas de sua vida, disse mais. Sobre o tempo, falou dos motivos que a levavam a não abrir sua verdadeira idade facilmente: “Há dias em que estou no ventre, outros em que já nasci há tempos e outros ainda em que acabei de nascer. Sei lá, vou vivendo.” Sobre seu vocal rasgado, que para muitos teria origem ou influência em cantos negros de cantoras do blues, como Etta James ou Koko Taylor, ela deixou o seguinte: “Não, eu nunca ouvi blues na vida, isso não chegava para mim. Mas eu carregava latas d'água na cabeça gemendo de dor, e esse era o meu blues. E este é o som da dor que eu carrego até hoje.”

Elza estava prestes a lançar o single Juízo Final, regravando a música de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares. Quase 50 anos depois da primeira gravação do samba, ela sentia a necessidade de cantar de novo que “o sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente.” E falou sobre seu único medo: “A única coisa que me dá medo é o ódio. Meu Deus, por que nos tornamos assim? O que houve com o nosso País, meu Deus?”, disse, com a voz embargada. “O Brasil sempre foi um país do amor, e as pessoas estão se esquecendo disso. De onde pode ter saído tanto ódio?”

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Elza Soares foi dona de uma ginga performática

Cantora dominava ribaltas, palcos, encantando plateias a estádios lotados

Matheus Lopes Quirino - O Estado de S. Paulo

Elza Soares, ainda moça em flor, arrebatou a platéia ao performar De Amor ou Paz no festival de música popular da Record, em 1966. Ano antes, o hit veio no álbum Um Show de Elza, em que ela interpretou clássicos, como Ocultei, de Ary Barroso ao Samba da Minha Terra, popularizado nas vozes de João Gilberto e Dori Caymmi (que a compôs). Acrobática, Elza interpretava nos palcos como uma rainha com cílios postiços, explosão de cores e malemolência. O vigor da juventude se manteve, mesmo como tímida chama, em shows incendiários dos útlimos anos, como quando a cantora cantava sentada, até mesmo deitada, como na performance A Carne na turnê de A Mulher do Fim do Mundo (vídeo abaixo). 

A Elza dos últimos anos, uma diva pop com cabeleira arroxeada e figurinos arrojados que viraram álbum (A Mulher do Fim do Mundo) a pôsteres veio de encontro com uma nova geração, os Millenials, que a abraçou pelo movimento da cantora de se manter atemporal.

Elza Soares se apresenta  no IV Festival de Musica Popular Brasileira, na TV Record. São Paulo, SP, 10/12/1969.  Foto: José Pinto/ Estadão

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Já senhorinha, sentava-se no trono e fazia um coro jovem vibrar, ao começarem os acordes de Malandro, clássico absoluto em sua voz. Das músicas que permanecem eternizadas em sua interpretação, Aquarela Brasileira é um capítulo à parte. Cantada em um Globo de Ouro de 1980, Elza Soares, Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, Nelson Rufino, Benito Di Paula, Jair Rodrigues, João Nogueira e Chico da Silva cantam o hit escrito pelo poeta Martinho da Vila. 

Elza Soares teve a voz emprestada a múltiplas produções, como novelas e propagandas. Das que marcaram geração, Façamos, em parceria com Chico Buarque, foi tema de abertura de Desejos de Mulher (2002), da rede Globo. Nos últimos anos, Elza viajou com a turnê Deus é Mulher (2019), participou de Rock in Rio (2017) e teve diversas aparicções na televsão, em shows curtos, como nos programas de Pedro Bial (2017) e Serginho Groisman no Altas Horas (2018). 

 

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‘Elza Soares ensinou o Brasil a amar’, diz empresário da cantora

Para Pedro Loureiro, artista só teve reconhecimento pleno nos seis últimos anos da carreira de quase 70 anos

Roberta Jansen - O Estado de S.Paulo

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Corpo de Elza Soares é velado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo

“Elza amou. Ela ensinou este País a amar. Ela insistiu que a gente poderia amar. E este País demorou muito a reconhecer Elza Soares. Foram muitos anos para reconhecer Elza Soares. Ela ia fazer 70 anos de carreira e só nos últimos seis anos chegou ao apogeu que merecia. A gente não sabe ser País ainda. A gente ainda não sabe valorizar os nossos ídolos. A gente tem que aprender muito. Elza Soares nos deixou este legado. Ela nos ensinou a ser gente. Ela nos ensinou que, quando a gente descia no aeroporto e vinha um vendedor de bala e queria um beijo dela, ela o beijava como beijava o bam-bam-bam de qualquer lugar.”

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Integrantes da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel prestaram uma homenagem à cantora Elza Soares, durante o seu velório, na manhã desta sexta-feira, 21, no Teatro Municipal do Rio. Vestidos a caráter, eles estenderam uma bandeira da escola sobre o caixão da cantora e ofereceram à artista uma longa salva de palmas.

Durante toda a vida Elza foi ligada à escola. De 1973 a 1977 foi intérprete da Mocidade. Em 1974, gravou Salve a Mocidade, que se tornou um grande sucesso. No carnaval de 2010, Elza foi madrinha de bateria da escola. Finalmente, em 2020, foi homenageada em enredo.

Elza Soares em desfile da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel em 2003.  Foto: Otavio Magalhaes/AE

Rio decreta luto oficial

O  prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD),  decretou três dias de luto oficial no pela morte da cantora Elza Soares, ocorrida na última quinta-feira, 20, aos 91 anos. O prefeito está no velório da artista, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que começou às 8h desta sexta-feira, 21 e foi aberto ao público às 10h.

O corpo de Elza ficará no hall do teatro até as 14h, quando seguirá em carro aberto do Corpo de Bombeiro até o cemitério de Jaridm Sulacap, na zona oeste da capital carioca. Lá,  será enterrado, às 16h, depois de uma última homenagem fechada ao público.

 

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Morre a cantora Elza Soares aos 91 anos

Intérprete estava em sua casa no Rio de Janeiro e teve morte por causas naturais

Danilo Casaletti - Especial para o Estadão

A cantora Elza Soares morreu nesta quinta, 20, aos 91 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. De acordo com informações de sua assessoria, por meio de nota no Instagram, a intérprete teve morte por causas naturais. 

Elza fez sucesso interpretando clássicos como Se Acaso Você Chegasse, cuja gravação lançou em 1960. Seu disco mais recente, Planeta Fome, é de 2019.

A cantora Elza Soares, em foto de 2007 Foto: Alaor Filho/ Estadão

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Em 2020 Elza foi homenageada como enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Ela chegou a ser intérprete de sambas da agremiação.

Elza morreu no dia em que se completam 39 anos da morte de Garrincha, jogador de futebol com quem foi casada de 1966 até 1982. Eles tiveram um filho, Garrinchinha, que morreu em 1986, em um acidente de carro.

Ex-faxineira e empregada doméstica, Elza Soares sofreu nos longos tentáculos do racismo. Foi atacada por ser negra, por ser mulher, por ser pobre e por ter se casado com Mané Garrincha, sua paixão. Sem pai por perto, perdeu de forma trágica a mãe, o marido e um filho, caiu em depressão, levantou-se e encontrou Louis Armstrong com todo aquele sorriso. O tempo talhou a voz e a alma e a canção deixou de ser doce como era antes. Tanto em A Mulher do Fim do Mundo quanto em Deus é Mulher, seus dois últimos trabalhos, quem canta é a Elza dos novos estandartes. 

 

Vida e obra

Elza da Conceição Soares, ou apenas Elza Soares, como ficou conhecida do público, nasceu em Bangu, no Rio de Janeiro. Criada na favela de Água Santa, na zona norte carioca, tinha propriedade para cantar os versos do samba Lata D’Água, sucesso do carnaval de 1952, na voz da cantora Marlene.

De infância pobre, tornou-se mãe cedo e carregou muita lata de água na cabeça morro acima. Trabalhou como empregada doméstica, e viu seu destino mudar quando resolveu enfrentar o temível Ary Barroso em seu programa Calouros em Desfile, na rádio Tupi. Tirou a nota máxima ao interpretar o bolero Lama.

A partir daí, foi ser crooner de orquestra na noite carioca até ser contrata pela gravadora Odeon, no final dos anos 1950, na qual gravou seu primeiro disco. Logo de início, emplacou sucessos como os sambas Mulata Assanhada, Boato e Beija-me, além de uma versão de In The Mood, que ganhou o título de Edmundo.

Pouco tempo depois, casou-se com o jogador Garrincha, no auge de sua carreira nos gramados, e foi duramente perseguida pela opinião pública. Em inúmeras entrevistas, falou sobre o assunto.

No ano seguinte, lançou um álbum considerado por muitos um de seus melhores trabalhos, em parceria com o baterista Wilson das Neves. No repertório, músicas como Mais Que Nada, Samba de Verão e Se Acaso Você Chegasse, essa última música, de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, seu primeiro sucesso na carreira.

Nos anos 1970, seguiu emplacando sucessos e gravando regularmente. Dessa época, destacam-se músicas como Salve a Mocidade, que homenageia sua escola de samba de coração, e Malandro, outro clássico de sua carreira.

Resgatada por Caetano Veloso

Na década seguinte, sem espaço na mídia, foi reabilitada pelo cantor e compositor Caetano Veloso que a convidou para uma participação na faixa Língua, de seu disco Velô, de 1984. Voltou a ser abraçada pelo público e pela classe artística.

Em 1999, foi eleita a cantora do milênio pela BBC de Londres, título que ostentava com orgulho e a que fez voltar com tudo para a mídia, sobretudo com o espetáculo Dura na Queda, que deu origem ao CD Do Cócix Até o Pescoço, no qual gravou canções inéditas de Chico Buarque, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso. 

Nesse álbum está a canção A Carne, de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Wilson Cappelette, que virou um hino contra o racismo e que passou a fazer parte de praticamente todos os shows da cantora dali em diante.

Em 2015, deu início a uma trilogia que resultou em A Mulher do Fim do Mundo (2015), Deus É Mulher (2018) e Planeta Fome (2019), Nesses trabalhos, deu espaço para novos compositores e denunciou, por meio das canções, temas como a violência contra a mulher e a desigualdade social do país. Com esses trabalhos, já perto dos 90 anos de idade, renovou seu público e passou atrair jovens para seus shows e redes sociais.

Seu último álbum a chegar nas plataformas foi Elza Soares & João de Aquino, lançando em dezembro de 2021. Na verdade, trata-se de uma gravação realizada na década de 1980 em São Paulo que permanecia inédita até então. Nele, estão músicas inéditas na voz da cantora, como Drão, de Gilberto Gil, Como Uma Onda, de Lulu Santos e Nelson Motta, Hoje, de Taiguara, e Juventude Transviada, de Luiz Melodia.

Lives na pandemia

Durante a pandemia, Elza realizou lives ao lado de nomes como Seu Jorge e Agnes Nunes. No começo de 2022, gravou um DVD no Theatro Municipal de São Paulo, sem a presença do público e já trabalhava na gravação de um novo disco, com produção de Rafael Ramos. Elza tinha uma show agendado para o dia 3 de fevereiro na Casa Natura, em São Paulo, ao lado do rapper Flávio Renegado.

Interpretações

 

Velório 

O velório da cantora Elza Soares será no Theatro Municipal do Rio de Janeiro dia 21 de janeiro (sexta-feira). Das 8h às 10h será fechado para familiares e amigos e das 10h às 14h será aberto ao público.  

O translado para o cemitério Jardim da Saudade de Sulacap será feito pelo carro do Corpo de Bombeiros com trajeto passando pela Av. Atlântica. O velório no cemitério, assim como o enterro, serão restritos aos familiares e amigos.

 

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Artistas lamentam morte de Elza Soares

Da cantora Gal Costa ao humorista Marcelo Adnet, personalidades se despedem da cantora

Patrick Freitas e Matheus Lopes Quirino - O Estado de S. Paulo

"Façamos, vamos amar!", foi um dos versos que grudaram feito chiclete no imaginário do povo brasileiro. Na canção interpretada por Elza Soares e Chico Buarque de Hollanda, 'Façamos', adaptado do hit de Cole Porter, figurou entre as faixas de um belo album de 1999,  parceria marcante dos dois.  "Quanta tristeza! A nossa DIVA Elza Soares fez sua passagem hoje. A Voz do Milênio, Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna!", escreveu a cantora Leci Brandão  em seu Twitter.  Esse é o sentimento, entoado nos versos da canção, que se espalha pela internet quando veio a notícia da morte da  intérprete aos 91 anos. 

Foto da cantora Elza Soares, que está no livro Thereza Eugênia - Portraits (1970-1980).  Foto: Thereza Eugênia

Caetano Veloso 

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Sâmia Bonfim

Cantora e compositora de voz ímpar, que tanto nos encoraja a lutar em suas letras. Sua história de vida e seu talento são dignos de todas as homenagens.Vá em paz, Elza

Leci Brandão 

Quanta tristeza! A nossa DIVA Elza Soares fez sua passagem hoje. A Voz do Milênio, Elza é uma referência de mulher, artista e ser humano. Elza é eterna! 

Zélia Duncan 

Gal Costa 

Lázaro Ramos 

 

 

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Elza morreu exatamente 39 anos após Garrincha

Um dos grandes craques do futebol brasileiro, seu companheiro morreu em 20 de fevereiro de 1983

Patrick Freitas - Especial para o Estadão

Garrincha conheceu Elza em 1962, pouco antes da Copa do Mundo do Chile. Na época, o craque era casado e tinha oito filhas. Depois de voltar vitorioso da competição,separou da esposa para viver com a cantora por quem se apaixonou.

O divórcio ainda não existia no Brasil – a Lei do Divórcio foi instituída em 1977, e a permissão para constituir outra união legal só foi contemplada pela Constituição de 1988. A única forma de separação era o desquite, um tabu naquele tempo. Muitos fãs se revoltaram com o caso. Garrincha sempre defendia Elza quando ela era acusada de ter acabado com seu casamento.

Elza Soares e Garrincha, em foto publicada pelo Jornal da Tarde em 1966 Foto: Acervo Estadão

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Do casamento, nasceu Manuel Garrincha dos Santos Junior, o "Garrinchinha", único filho do casal, em 1976. Garrinchinha, no entanto, faleceu precocemente, aos 9 anos, vítima de um acidente de carro. Elza sofreu diversas violências praticadas pelo futebolista e não aceitou mais as agressões físicas e traições de Garrincha.

Garrincha e Elza se separaram em 1982. No ano seguinte, Garrincha morreu em decorrência de uma série de problemas de saúde causados pelo alcoolismo. 

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Faltou tudo a Elza Soares, só não faltou voz

"A única coisa que me dá medo é o ódio. Meu Deus, por que nos tornamos assim? O que houve com o nosso País, meu Deus?", disse a cantora em entrevista concedida ao Estadão, em 2020

JULIO MARIA - O Estado de S.Paulo

É como perder a maior guerreira na batalha final, vão lamentar os que conheceram a Elza das palavras mais duras, politizada e contundente, de 2015 pra cá. Se foi a voz do samba jazz, dirão os apaixonados por sua discografia, sobretudo dos anos 60 e 70, e em especial de discos como Elza Soares, baterista: Wilson das Neves, de 1968. Ninguém pediu perdão, se lembrarão quem a viu ser massacrada em praça pública, com pedradas e xingamentos, ao ser assumida pelo jogador Garrincha.

Elza Soares e Garrincha Foto: AP

Elza Soares ocupou um lugar superior ao de grande cantora, o que já seria muito, por sobreviver a uma vida marcada por tragédias, racismo, paixões destruídas e, em todos os sentidos, uma implacável falta. Faltou tudo a Elza Soares: família, compreensão, amigos verdadeiros, respeito. Mas não faltou voz. Quando então se tornou enorme e pode falar do alto da entidade que se tornou em vida em seus últimos anos, respondeu assim ao Estadão ao ser perguntada sobre a saída para um país conflagrado pelo ódio: “Quando soubermos que não somos nada, e que somos todos iguais, seremos mais leves, teremos mais amor e voltaremos a ter mais esperança.”

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Na mesma entrevista, a última que daria para o jornal, uma das últimas de sua vida, disse mais. Sobre o tempo, falou dos motivos que a levavam a não abrir sua verdadeira idade facilmente: “Há dias em que estou no ventre, outros em que já nasci há tempos e outros ainda em que acabei de nascer. Sei lá, vou vivendo.” Sobre seu vocal rasgado, que para muitos teria origem ou influência em cantos negros de cantoras do blues, como Etta James ou Koko Taylor, ela deixou o seguinte: “Não, eu nunca ouvi blues na vida, isso não chegava para mim. Mas eu carregava latas d'água na cabeça gemendo de dor, e esse era o meu blues. E este é o som da dor que eu carrego até hoje.”

Elza estava prestes a lançar o single Juízo Final, regravando a música de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares. Quase 50 anos depois da primeira gravação do samba, ela sentia a necessidade de cantar de novo que “o sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de chegar aos corações / O mal será queimada a semente / O amor será eterno novamente.” E falou sobre seu único medo: “A única coisa que me dá medo é o ódio. Meu Deus, por que nos tornamos assim? O que houve com o nosso País, meu Deus?”, disse, com a voz embargada. “O Brasil sempre foi um país do amor, e as pessoas estão se esquecendo disso. De onde pode ter saído tanto ódio?”

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Elza Soares foi dona de uma ginga performática

Cantora dominava ribaltas, palcos, encantando plateias a estádios lotados

Matheus Lopes Quirino - O Estado de S. Paulo

Elza Soares, ainda moça em flor, arrebatou a platéia ao performar De Amor ou Paz no festival de música popular da Record, em 1966. Ano antes, o hit veio no álbum Um Show de Elza, em que ela interpretou clássicos, como Ocultei, de Ary Barroso ao Samba da Minha Terra, popularizado nas vozes de João Gilberto e Dori Caymmi (que a compôs). Acrobática, Elza interpretava nos palcos como uma rainha com cílios postiços, explosão de cores e malemolência. O vigor da juventude se manteve, mesmo como tímida chama, em shows incendiários dos útlimos anos, como quando a cantora cantava sentada, até mesmo deitada, como na performance A Carne na turnê de A Mulher do Fim do Mundo (vídeo abaixo). 

A Elza dos últimos anos, uma diva pop com cabeleira arroxeada e figurinos arrojados que viraram álbum (A Mulher do Fim do Mundo) a pôsteres veio de encontro com uma nova geração, os Millenials, que a abraçou pelo movimento da cantora de se manter atemporal.

Elza Soares se apresenta  no IV Festival de Musica Popular Brasileira, na TV Record. São Paulo, SP, 10/12/1969.  Foto: José Pinto/ Estadão

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Já senhorinha, sentava-se no trono e fazia um coro jovem vibrar, ao começarem os acordes de Malandro, clássico absoluto em sua voz. Das músicas que permanecem eternizadas em sua interpretação, Aquarela Brasileira é um capítulo à parte. Cantada em um Globo de Ouro de 1980, Elza Soares, Martinho da Vila, Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, Nelson Rufino, Benito Di Paula, Jair Rodrigues, João Nogueira e Chico da Silva cantam o hit escrito pelo poeta Martinho da Vila. 

Elza Soares teve a voz emprestada a múltiplas produções, como novelas e propagandas. Das que marcaram geração, Façamos, em parceria com Chico Buarque, foi tema de abertura de Desejos de Mulher (2002), da rede Globo. Nos últimos anos, Elza viajou com a turnê Deus é Mulher (2019), participou de Rock in Rio (2017) e teve diversas aparicções na televsão, em shows curtos, como nos programas de Pedro Bial (2017) e Serginho Groisman no Altas Horas (2018). 

 

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